Pelo que se foi... - Capítulo 14 - Carmen Parte 03

08 de Novembro de 2011 TFJ Contos 935

(Continuação:)



Um calor súbito percorreu o corpo de Mathews, e por alguns instantes ele balançou nas suas convicções. Teve o impulso de agarrá-la e beijá-la ali mesmo, mas refreou tal impulso. Apesar de uma atitude como essa ser a mais indicada a se tomar por alguém que desejasse manter o equilíbrio na relação, sentia que não era assim que as coisas deveriam ser. Controlou-se e, esforçando-se para falar de maneira natural, disse:

— Isso pra mim seria uma noite de sonho… — nesse instante eles haviam chegado até o carro e ele abria a porta para ela — Mas, como já disse, talvez seja melhor que as coisas não se dêem assim. Sabe, pelo menos no meu caso, acho que poderei me divertir muito mais essa noite se minha mente não estiver contaminada por… Determinadas esperanças.

Ela ficou parada alguns instantes à porta do carro, olhando para ele com uma expressão marota e um leve sorriso. O cheiro do perfume dela o inebriava, e ele se perguntava se conseguiria realmente controlar aquelas suas “determinadas esperanças” pelo resto da noite. Mas decidiu que aproveitaria cada instante desse encontro, sem pensar mais no porvir.

— Não sei quanto a você, Gimely, mas eu não pretendo que esse nosso encontro seja o último. Então, pra que a pressa?

Ele não conseguia se reconhecer no que dissera embora suas palavras tenham surtido o efeito que imaginava. O sorriso dela se expandiu, e, embora ela tenha se limitado a virar-se e entrar no carro, ele sabia que causara uma reação positiva.

“É, tenho de admitir que muitas vezes falar toda a verdade é a melhor das atitudes…”

Pensava ele enquanto contornava o carro e se dirigia ao motorista que esperava pacientemente, para lhe dar discretamente alguma instrução de como deveria estacionar o carro na frente do teatro. “De preferência ‘pintando os pneus’”, pensou ele com bom humor. Quando já se encontrava sentado ao seu lado, ela enlaçou novamente seu braço e disse:

— Nunca imaginei que o maior conquistador da UCL pudesse ser tão galante, tão compreensivo… Tão encantador.

— Só fui sincero — e dessa vez foi ele quem se segurou para não dizer “querida”, pois mesmo sentindo que estava realmente apaixonado por ela, ainda não se sentia seguro para baixar totalmente a guarda — não pretendia bancar o galanteador. Gimely, pela primeira vez na vida, eu sinto vontade… Não, vontade não é a palavra certa. A necessidade de estar junto com uma mulher por mais tempo do que uma noite de cada vez. Isso pode não ser algo muito elegante de se dizer, mas é a mais pura verdade.

— Querido…

Ela o dissera afinal, quando pousara a cabeça sobre seu ombro. Uma alegria contagiou Mathews, foi como se houvessem removido um peso dos seus ombros. Agora ele tinha certeza não somente do que sentia — mesmo sem o compreender totalmente — mas também dos sentimentos dela, pois apesar de ela se manifestar emocionalmente de forma lacônica, mais pela linguagem corporal do que com palavras, já aprendera que tais manifestações eram repletas de significados. E sentiu que não desejava separar-se dela nunca mais. Tais pensamentos cruzaram sua mente como um relâmpago, mas logo foi trazido à realidade, pois Gimely continuava a falar.

— Querido Demian… Isso quer dizer que agora que me conquistou você vai parar de trepar com a Amanda…?

Mathews só não deu um salto, pois conseguiu manter um mínimo de compostura nas suas atitudes. Ele não sabia se ficava irritado, confuso ou arrependido, nem ainda se ficava mais assombrado com o fato de ela saber ou chocado pelo jeito displicente que ela usou para dizê-lo. Mas era necessário que ele dissesse alguma coisa em resposta, e não houve meios de fugir da declaração óbvia.

— Você sabia… Sabia o tempo todo? Gimely, eu não sei o que dizer, desde quando você…

— Desde sempre, oras. Amanda não seria minha melhor amiga se não tivesse me contado tudo desde o início — e ela nem mesmo afastara a cabeça do seu ombro enquanto falava.

— Hã… Que situação embaraçosa…

— Não seja bobo, querido. Eu não me importo com isso.

— Não se importa?

— Por que deveria? Quando decidi ficar com você, não esperava encontrar uma velha virgem.

“‘Quando decidi ficar com você… ’ Parece que no seu entender minha opinião não era de grande conta nesse assunto”.

— Além do que, Demian, eu achei até melhor que fosse com ela do que com qualquer outra. Assim, posso ter certeza de que você andava só com uma.

— Ah, é mesmo? E será que eu posso saber — perguntou ele com uma dose de ironia na voz, afinal Gimely mexera com seus brios — o que lhe dá tanta certeza disso?

— Que pergunta tola… E como eu poderia estar enganada?

— Sim, claro… Como poderia a suma sapiência reverendíssima cometer um erro, não é mesmo? Não havia hipótese de eu me envolver com outra mulher que não Amanda, uma vez que assim a vossa sumidade já considerara né?

— Esses títulos que você usou… Não são da Igreja Católica? Você é católico, Demian?

— Minha mãe era irlandesa. Mas não, não sou católico. Satisfeita a sua curiosidade, será que você poderia responder a minha pergunta?

— Que pergunta?

— Gimely… Você está querendo me tirar do sério? Como assim “que pergunta”? O que lhe dava tanta certeza de que eu não sairia com nenhuma outra além dela?

— Ué, e por que sairia? Você está me confessando que é um galinha inveterado e que não pode ver uma saia sem se enfiar embaixo dela?

— Ai, Gimely, você quer me enlouquecer… Naturalmente não era essa a conotação da minha pergunta. Admito, só a fiz por que você insinuou que eu não seria capaz de fazê-lo, e isso…

—… feriu seu orgulho masculino. Eu percebi, mas estava me fazendo de tonta. Gosto tanto mais de você quando fala a verdade… Seja sempre honesto comigo, tá?

— Eu sempre sou honesto.

— Nem sempre…

— Hunpf. Não considero omissão de informações uma desonestidade.

— Isso depende do que se está escondendo… Muitas vezes é até um crime.

— Essa é uma definição puramente semântica. Obviamente eu não estava me referindo a questões legais.

— Querido, vamos deixar essa discussão de lado. Nossa noite está só começando, não vamos nos perder com essas tolices… Pois certamente — e só então ela levantou a cabeça e olhou para ele — tudo isso já é passado… Não é mesmo?

— Hã? Oh…

— Demian Mathews…

“E essa agora? A verdade é que eu nunca havia encarado o assunto por esse ângulo…”

— Você hesitou em responder… Fascinante. — e ela voltou a repousar a cabeça no ombro dele — Você é definitivamente um galinha inveterado, Demian Mathews.

— Não, não, querida, não me entenda mal! Eu não pretendo de forma alguma…

— Deixe pra lá. Como já disse, eu não me importo, mesmo. Contanto que eu não fique sabendo, é claro.

— O que é isso! Não fale assim, Gimely, fica parecendo que você está tentando me jogar pra cima de outras mulheres! Isso é… Isso é repulsivo!

— Mas a infidelidade não é repulsiva, correto? Não é nada disso, Demian. Acha que eu ficaria feliz se o visse com outra? Pois sim. O fato é que eu conheço algo sobre os homens, principalmente sobre homens como você, e já faz tempo que eu desisti de tentar mudar o mundo. Por isso, só lhe digo uma coisa: se fizer, faça bem feito. E escondido, de preferência.

— Eu, eu… Não sei o que dizer. Como você pode… Quantos anos você tem, mesmo? Dezessete? Minha vez de dizer “fascinante”... Tem certeza de que você não nasceu no século XVIII?

— Tonto. Não Demian, sou da nossa época mesmo. Só não sou uma falsa puritana como tantas que andam por aí. No meu entender, sou somente muito pragmática.

— Esse conceito se aplicando a mim naturalmente deveria se aplicar a você também, eu imagino…

— Ah, então é esse seu medo, né? Não se preocupe querido, eu sou mulher. Não tenho a mesma comichão que você no meio das pernas. Se tivesse, não teria por que me prender a um homem específico…

— Gimely… Nada nessa conversa está certo. Não se pode iniciar um relacionamento saudável a partir de tais premissas!

— Querido, você está sendo bobo de novo. Que premissas garantiriam, fora de qualquer dúvida, um relacionamento totalmente saudável?

— Não acredito que você possa ser tão cínica…

— Demian… Quem é você para falar em cinismo? Nesse ponto somos unha e carne, feitos sob medida um para o outro. O que nessa vida você consegue levar realmente a sério?

— Você.

— Oh, tão meigo... — não havia sarcasmo na sua voz enquanto acariciava seu rosto e falava — E tão sincero. Acredito nas suas intenções, Demian. Mas não confio nem um pouco nos seus testículos.

— Me recuso a continuar com essa discussão.

— Muito bom para mim, amor. Foi você quem começou ela.

E então Gimely voltou-se para ele sorrindo, e, inesperadamente, o beijou. Era seu primeiro beijo, e Mathews foi pego totalmente de surpresa. Ele já beijara tantas mulheres que perdera a conta, na maioria garotas da sua idade, muitas mais velhas e até mesmo umas poucas bem mais velhas do que ele. Até hoje, o beijo que mais o impressionara havia sido o de Amanda, a ponto de ele ter se perguntado várias vezes se conseguiria passar o resto da vida sem experimentá-lo novamente. Até aquele momento. A sensação que teve não tinha nada a ver com técnica, química ou pele, era alguma coisa muito maior do que isso. Sentiu uma coisa parecida com uma descarga… Não, com um jorro de energia a atravessar seu corpo, chegando a eriçar os cabelos da sua nuca. Sua cabeça mais uma vez devaneava, ele se via de novo flertando perigosamente com pensamentos místicos, pensamentos que sua mente cética rejeitava categoricamente. Mas tal pensamento foi fugaz, tão fugaz quanto o instante que durou o beijo, pois Gimely já se afastara dele e procurava algo na sua bolsa.

— Não podemos nos exceder, meu amor — falou ela enquanto pegava seu estojo de maquiagem e retocava a sua pintura. Precisamos chegar à Ópera apresentáveis… Aqui, me deixe limpar o batom da sua boca…

— Bem que você poderia gastar um pouco mais o seu antes de chegarmos — sorriu Mathews enquanto ela limpava seus lábios com seu lenço.

— Bobo. Calma, teremos muito tempo pra isso. Pronto. E bem na hora, pelo que parece.

— Sim, chegamos.



(Continua...)

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