Os primeiros encontros com a perda

08 de Novembro de 2011 Gisela Cardoso Contos 1636

" - A gente vai ficar junto para sempre?"
" - Para sempre!"
" - Eu te amo muito!"
" - Eu também te amo muito!"
Foram essas as palavras que rodeavam a cabeça daquela jovem mocinha. Uma mulher em corpo de menina. Sensível e emocionalmente fraca eram as características daquela jovem.
As lágrimas sempre estavam presentes na vida desta jovem. Desde pequena. Lágrimas que caíam daqueles aqueles olhos grandes e arregalados. Foi criada de uma maneira sensível. Se tornou mais sensível quando aprendeu a amar.
Desde criança, desde menina, sempre teve medo. Aquele medo da perda. A perda de alguém. Alguém que ela amava ou alguém que ela percebia ser muito por alguém. A infância sempre é onde tudo começa.
Era uma noite escura, muito escura. Estava ela na cidade natal de seu avô materno. Não foi a passeio. Seu bisavô havia morrido. Sendo pequena e totalmente dependente dos pais, não teve escolha e foi sem reclamar. Na realidade, quando saiu de casa nem sabia para aonde iria, muito menos sabia o que estava acontecendo.
A menina era a primeira bisneta daquele que havia falecido. Hoje, ela não se lembra muito bem como foi. Nem da imagem de seu bisavô.Só se lembra daquele episódio.
Estava ela naquela noite escura, muito escura. Ela e seus familiares e amigos subiam um morro no meio daquela escuridão. Havia muito choro e reza. Choro de despero, de tristeza, de perda, de solidão. Estava ela em um cemitério em plena noite.
Só lembrava disso: da escuridão, dos choros, das rezas, a subida ao cemitério enfim. Mas, algo ainda força a sua lembraça: enquanto acompanhava o enterro, a menina olhou para além do cemitério e viu uma pequena cabana. Não sabe o certo o que era, mas havia uma luz lá dentro. Aquela cabana despertava a atenção da menina no meio dos choros e do desespero.
"Deus deve morar lá dentro!", pensou a menina no meio daquele escuro cemitério.
Passaram-se meses.
Ainda quando novinha, ela tinha o costume de visitar a casa de sua tia avó. Lá moravam a sua tia avó, seu tio avô e a sua bisavô. Sempre chegava lá fazendo festa. Fazia arte, levava broncas. Mas, sempre estava lá com aquela carinha desvergonhada.
Certo dia, sua bisavô ficou de cama. Ela não levantava, só ficava de olhos fechados. Achava que estava dormindo, mas não estava. Ela também não falava e mal conseguia se mexer. Era raro quando se mexia.
Um dia, chegando lá, a sua tia estava prestes à dar o jantar para sua bisavô. Ela não conseguia comer sozinha.
Com aqueles olhinhos arregalados, ela só disse para sua tia:
" - Dar ela devagarinho! E sopra pra não queimar!"
Desde pequena, ela se preocupava com os próximos. Sentia as preocupações alheias.
Não demorou muito. Passaram-se alguns poucos dias. E como rotina, a menininha foi lá visitar a sua tia. Chegando lá, a casa estava cheia e o cenário pareceu familiar.
Havia choro e desespero. Muito choro. Na cozinha, estava a sua tia que cuidava de sua bisavô. Ela estava agoniada, chorando muito. Mas, onde estava a vovó Joaninha?
Curiosa e serelepe, a menina entrou em um dos quartos da casa. No quarto, estava uma casa. Na cama, um corpo estendido e coberto por um lençol branco. Nem precisou deduzir ou verificar. A menina apenas sentiu que por debaixo daquele lençol branco estava a sua bisavó.
Ela estava vivendo no mesmo cenário novamente. Ela via que todos estavam chorando, logo queria chorar também, mas não conseguia.
Mais tarde, durante o velório, apareceu uma menina da mesma idade que ela. Os pais de ambas mandaram as duas brincarem lá fora. O velório estava cheio e melancólico. As duas crianças foram brincar no jardim em frente à casa.
O enterro foi no dia seguinte, e novamente a menina estava no cemitério. Desta vez não estava escuro, foi em uma tarde. O seu pai o acompanhou o tempo todo. Mais uma vez queria chorar, mas não conseguia.
Havia uma preocupação na cabeça da menina: "Onde está a vovó Joaninha? Para onde ela vai?"
Em uma de suas mãozinhas, estava um lírio branco. Seu pai a levou até a tumba. Um buraco no chão e lá estava o caixão. Seu pai disse:
" - Joga a florzinha e dá tchau para ela!"
A menina jogou a flor em cima do caixão e em seguida começaram a jogar a terra por cima do caixão. Nunca mais viram a vovó Joaninha.
Passaram-se anos. Hoje essa menina é uma mulher. Uma jovem mulher. Mas, continua em um corpo de menina.
Não se sabe se essas lembranças foram boas ou ruins. Mas, as comove.
Ela conheceu a dor da perda bem nova, bem novinha mesmo. Mal sabia aquela criança que no futuro ela ia consegui finalmente a chorar. Chorar pela dor da perda. Pela perda de seu amor... uma outra história em sua vida.

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