Um filete de suor escorria pela testa de John, suas mãos seguravam firme o encosto da poltrona. Mesmo querendo manter uma postura que demonstrasse calma e serenidade ele não conseguia. Era uma fixação incrível, uma sedução irreversível e irresistível.
Ele estava diante do que buscou por toda sua vida. Contudo não sabia ao certo se isso era bom ou ruim.
Logo depois de se formar em arqueologia, John se especializou em teologia. Porem seu conhecimento o corrompera, pois acabou ficando completamente neurótico e compulsivo na sua busca por criaturas sobrenaturais, como anjos, demônios e Arcanjos. Em tempos aúreos John viajava, fazia pesquisas de campo e se dedicava totalmente na procura pelo o que ele e todos nós denominaríamos como “o desconhecido”. Porem, a idade já o curvara e ele não tinha mais toda aquela virilidade de antes
Seus cabelos se foram, a perna que John havia quebrado em um deslizamento de terra em uma piramide Maia doía cada vez mais e agora ele necessitava de uma bengala para se locomover. O que lhe restava agora era depender da boa vontade dos outros e era exatamente isso que estava acontecendo. Em sua soturna sala de estar ele estava sentado em sua poltrona enquanto conversava com um homem nas sombras
- O infinito sempre me seduziu. Apenas com o simples fato de saber que ele é tão complexo que nós humanos não podemos nem sequer tentar entende-lo, de modo que ele não pode ser medido, contado ou classificado , ele apenas existe.
Mas existem outras coisas alem infinito que também não podemos entender, coisas que não ligam para o espaço e o tempo e são apenas o verbo, “existir”.
“E no principio era apenas o verbo” -Acrescentou John olhando para uma bíblia de Gutenberg que possuía- Tudo bem, esta frase não quer dizer exatamente isso, mas se encaixou bem no contexto.
A sala de estar era decorada por imagens de Jesus e madonas, todas originais que John deveria ter comprado em algum leilão ou de colecionadores tão afoitos quanto ele . Também existiam vários tipos de cruzes, desde cruzes comuns de madeira até imensas cruzes medievais de prata. John olhou ao seu redor, contemplou a sua coleção como ele fazia todas as noites, porem aquele sentimento de bem estar não o abraçou, ele se sentiu miúdo diante daquilo tudo, e continuou
-Entretanto esta “coisa em si” como pode ser chamada é uma “coisa” consciente, é uma coisa que esta lá, podemos vê-la, toca-la, porem não somos sequer um grão de areia se comparado a complexidade de sua existência. Como iremos compreender algo que não ocupa um lugar no espaço físico e rompe as barreiras do tempo? Barreiras essas que foram criadas pelo homem na sua ânsia de respostas, nós criamos o conceito de tempo e espaço achando que tudo estaria incluso nele mas estávamos errados.
Posso estar contradizendo tudo o que eu disse antes, mas preciso ao menos ouvir uma resposta, o que é você?
John olhava fixamente o canto obscuro da sala, seus olhos lembravam os de um felino na escuridão , eles brilhavam como se ele estivesse pronto para abater sua presa. Por alguns segundos o silêncio permaneceu , logo em seguida uma respiração profunda foi ouvida e o homem nas trevas começou a falar com sua sua voz grave e serena
- Posso lhe dizer o que sou, mas não posso afirmar se irá entender o propósito de minha existência... Pois muitas vezes nem eu mesmo o entendo.
Fomos criados aos pares, somos os seres extremos do cosmo. Somos a representação máxima da existência, somos tudo o que vocês humanos desejariam ser. Somos conhecidos como os Primordiais, e atualmente nossa busca consiste em equilibrar a balança entre o Bem e o Mal.
- E o que a desequilibraria? Guerras? Fome? Destruição?
- Não são detalhes tão mundanos John. Estamos tratando da própria essência da destruição. No universo deverá sempre haver luz e trevas, morte e vida. Tudo convivendo no mais perfeito equilibrio, porém existe algo que irá desequilibrar esta balança para qualquer um dos lados, fazendo com que um destrua o outro e assim haja o que vocês chamam de Apocalipse, Ragnärok ou simplesmente "O fim".
Esta força inevitável se chama " O singular" é o sétimo ser extremo do cosmo, e este só espera pelo dia em que possa destruir toda a Existência
- E por que ele quer fazer isso?
- Por que vocês humanos rezam todas as noites por paz mas sempre iniciam novas guerras?
- Ora, porque nós somos assim- Respondeu John prontamente. Sua expressão mudou logo após dizer essas palavras parece que sua mente refletiu o que ele acabara de dizer como uma resposta " Por que ele é assim"
Porem John não se deu por satisfeito e continuou com seu interrogatório
- E a Existência? O que ela é na verdade
- A Existência é o inicio, o meio e o fim de um ciclo. Que se inciou no Big-Bang e um dia irá terminar. Porém a Existência esta inclusa no infinito , que engloba tudo inclusive eu, no infinito já existiram várias Existências e ainda irão existir muitas outras.
O homem nas sombras se levantou e concluiu
- Já chega John você já ouviu o suficiente, preciso ir agora
- Não! Fique, eu ainda tenho muitas perguntas
- Você não deve saber todas as respostas. Você apenas deve continuar buscando-as
- Mas como? Você acabou de dizer que eu não devo ter todas elas! Rebateu John suando ainda vez mais e com as veias do pescoço já saltando. Sua pressão arterial subia cada vez mais
- Este é o sentido da vida humana meu caro
- Uma busca infinita por algo que nunca teremos?!
O homem permaneceu em silêncio. E John continuou
- Devemos nos acomodar em saber que nunca saberemos nada? Passar a vida toda buscando e procurando para no final saber que perdemos todo este tempo lutando por algo que nunca iriamos ter?!
- Não exagere John, você teve uma recompensa no final, um grande conhecimento. E isso é muito valioso
- Não! Eu quero saber tudo! John se levantou de sua poltrona com dificuldades, sua perna tremia e ele não iria conseguir ficar em pé por muito tempo - Me de todas as respostas Arcanjo!
- Quer mesmo saber ?
- Busquei minha vida todas por estas respostas. Respondeu John com um brilho esperançoso no olhar
- Então que assim seja.
Novamente o silêncio dominou a sala, o homem nas sombras soprou todas as respostas para dentro da cabeça de John. Segundos depois sua respiração começou a ficar ofegante o ar parecia não percorrer todo seu corpo , seu cérebro estava sendo bombardeado por infinitas respostas, ele estava ultrapassando limites, usando todo o potencial do cérebro humano, com três segundos saciou todas as suas duvidas em tempos de faculdade, mestrado e quando lecionava. Com mais dois ultrapassou Einstein, Sócrates, Platão e qualquer outro gênio que possamos imaginar, e com mais cinco se tornou um vegetal. Que derramava saliva sobre sua poltrona.
John suava frio, as veias do seu rosto estavam saltadas, seus olhos inchados e sua boca rocha. E com mais um singelo assopro ele morreu, sangrando pelos olhos, orelhas e nariz.
O que restava agora era o corpo de um homem que comeu o fruto do conhecimento e morreu engasgado.

“Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus , sereis conhecedores do bem e do mal.”
Gênesis 3:5