O acaso vai nos proteger.

11 de Novembro de 2011 Marina Contos 1008

Rebeca nunca foi do tipo de gostar de ir para festas. Mas naquele dia ela abriu uma exceção, afinal era a festa de formatura de sua irmã. Significava muito para ela.
- Desculpa irmã, mas você vai ter que ficar com meus amigos, porque eu vou dar atenção para o meu namorado.

“Já estou vendo onde isso vai dar: eu, sentada a festa inteira, porque sou tímida demais para sair me enturmando e, principalmente, dançando com pessoas desconhecidas. Mas não vou ficar reclamando, porque hoje o dia é dela. É o mínimo que eu posso fazer.”

- Tudo bem, irmã. Acho que eu posso fazer isso. Contando que você esteja feliz, eu estou feliz.
Mas aquela noite reservava muito mais do que conversas constrangedoras com desconhecidos e tímidos passos de dança. Ao longo da festa, conversando com os amigos de sua irmã, Rebeca percebeu que seu pessimismo do início da noite tinha algum fundamento. Eles eram boas pessoas, mas ninguém com quem ela realmente poderia conversar mais profundamente. E além de tudo, se sentia um pouco deslocada, por mais sociáveis que eles fossem.

“Sinto que estou atrapalhando a diversão deles... preciso sair daqui.”

Aproveitando uma brecha na rodinha, Beca sai discretamente e procura algum lugar para sentar. Então, ela avista vários bancos preenchidos por casais se agarrando como se fosse seus últimos dias de vida. Outra coisa que ela odiava sobre festas. Ninguém gosta de se sentir sobrando, mas era a única opção.
Sua expressão facial não poderia estar menos convidativa. Mas isso não foi o bastante para afastar cantadas ensaiadas e perguntas sobre seu estado emocional.
E então, ela finalmente avistou alguém que valia a pena. No escuro, só o que ela conseguia ver era uma blusa dos Beatles e um daqueles sorrisos que te deixam instantaneamente feliz.
- Oi, tudo bem? Qual é o teu nome?

“Não foi uma cantada. Bom sinal.”

- Tudo bem. Rebeca, e o seu?
- M...
- Desculpa, o quê?
- M...

“Droga, não dá pra ouvir nada. Mas ele vai me achar retardada se eu perguntar de novo. Sorria, e finja que entendeu.”

Sorriso.
- Então, porque tu não está lá dançando?
- Ah, não é muito meu tipo de festa, sabe.
- Entendo... o meu também não. Por que eu nunca te vi antes?
- É que eu não moro aqui. Só estou aqui pela minha irmã.
- Eu estou aqui pelo meu amigo, a gente tem uma banda, sabe. Eu toco bateria.

“Pára tudo. Ele é músico.”

- Nossa, que legal! Eu toco violão. Quer dizer, eu tento né.
- Que tri!
- Ou meu, a gente tem que ir! – seu amigo disse.
- Desculpa, eu tenho que ir. Prazer te conhecer!
Enquanto ele ia embora, às pressas ela falou: “Prazer, também!”. Mas ele não ouviu.


Já ia fazer um mês de férias. Em poucos dias, Rebeca estaria embarcando de volta para casa. De volta para a rotina. A frustração de que nada de realmente extraordinário acontecera durante aquele tempo todo era inevitável.
Aproveitou seu tempo livre para ir à loja de lembrancinhas. Ninguém gosta de amigas que não trazem presentes da viagem. No caminho, ela ouviu alguém chamando atrás dela:
- Rebeca! Rebeca!
Quando ela se virou, não conseguiu acreditar. Era ele. Correndo na sua direção.
- Oi, lembra de mim? Mateus! – ele disse ofegante.

“Então esse era o nome, afinal.”

- Mateus! Claro que lembro.
- Desculpe o meu estado. É que eu te vi virando a esquina a um quarteirão atrás. Então vim correndo. Eu tinha que te ver de novo.
Rebeca não conseguia dizer nada. Só sorria. Esse tipo de coisa só acontece em filmes. Ali estava o seu algo extraordinário pelo qual ela tanto pediu.
- Tudo bem. Achei que nunca mais fosse te ver – ela disse sorrindo. Quer me acompanhar no caminho?
- Claro.
Eles conversaram o caminho inteiro. Sobre música, livros e filmes. Sobre o amor e o acaso. E esse último, ajudou a fazer os últimos três dias de Rebeca na cidade, os melhores.

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