Pensei que fosse apenas o início de um sábado tedioso. Como estava enganada! Aquele sábado estaria para sempre em minha memória. O telefone tocou e uma voz masculina começou a dizer:
_Olá, é da residência da senhorita Julia Alves?
_Sim, sou eu. Quem fala?_perguntei achando estranha toda aquela formalidade.
_Aqui é Alexandre Albuquerque. Desculpe incomodá-la, mas tenho um pedido a lhe fazer.
_Pode falar. _permiti tomada pela curiosidade.
_Sou amigo da senhora Audrey Hepburn e sei que a senhorita é fã de seu trabalho.
Ai meu Deus! Estava falando com um amigo da própria Audrey Hepburn! Porém sei que Audrey não era brasileira.
_Mas do que isso, senhor! Audrey é para mim uma inspiração de vida. Mas me diga como o senhor era amigo dela, se esta nasceu na Bélgica e morreu na Suíça?

Ele riu, acho que já esperava por isso.
_Audrey não morreu, senhorita. Ela apenas está morando em uma bela casa isolada aqui no Rio de Janeiro. E sou seu mordomo e amigo, por isso quero lhe pedir um favor.
Para tudo! Audrey está viva! E morando aqui no Rio! Parece ser algo impossível de se afirmar, mas aqui estou eu falando com seu mordomo.
_Pode pedir o que quiser senhor Alexandre! _disse mais alegre do que nunca.
_Preciso do seu endereço, porque o motorista irá buscá-la às 14 horas. Ele te levará até a casa, e a senhorita passará a tarde conversando com Audrey.
Isso está mesmo acontecendo ou será só minha imaginação? Vou conhecer Audrey!
_Claro! Muito obrigada senhor Alexandre! Mas devo dizer que esse é um favor que o senhor me faz e não o contrário.
_Agradeço a gentileza, senhorita. A senhora Hepburn está muito sozinha e deprimida nos últimos anos. Quando soube que a senhorita era fã dela, não pensei duas vezes.
_Fez muito bem! Até hoje à tarde! _despedi-me e logo fui me arrumar para o encontro com minha atriz preferida.
Às 14 horas, um carro preto e brilhante parou em frente ao meu prédio e um motorista desceu para abrir a porta para mim. Depois de uma hora, ele estacionou em frente a uma grande e linda casa. O senhor Alexandre abriu a porta e me indicou onde era a sala onde Audrey estava.
Fui andando devagar onde pude ver que ela estava sentada em uma poltrona de costas para mim. Apenas vi seu cabelo acinzentado preso em um bonito coque e logo me lembrei de sua personagem no filme ‘Bonequinha de luxo’. A diferença é que no filme seu cabelo não estava sem cor.
_Senhora Hepburn? _perguntei em português, mesmo sem saber se ela já falava minha língua no tempo que morava aqui.
Mostrando que entendia minha língua perfeitamente, ela virá sua poltrona e fica de frente para mim, sorrindo. Mesmo com idade para ser minha avó, Audrey mantinha sua beleza e ainda tinha seu sorriso jovial. Estava com o vestido preto e o colar de pérolas que foram sua marca registrada em ‘Bonequinha de luxo’. Ela levantou para me cumprimentar:
_Olá, querida. Seja bem vinda a minha casa. _disse ela em português com um forte sotaque.
_Muito obrigada, Audrey! Estou tão feliz por conhecê-la! _disse animada e não me contive ao abraçá-la.
_Também fico feliz pela sua visita, Julia! Não recebo mais visitas há um bom tempo. _disse voltando a sentar em sua poltrona e sentando na poltrona a sua frente, disse:
_ Todos acham que você morreu Audrey! E por isso!
Ela riu.
_Eu sei Julia, e me escondi aqui no Brasil propositalmente. Nos últimos anos ninguém ligava para o fato de eu estar viva, queria ver quantas pessoas sentiriam a minha falta.
_Mas Audrey, você sempre foi uma pessoa muito influente! Você foi a melhor atriz que Hollywood já teve com todos os seus clássicos e prêmios!
Ela riu mais uma vez, parecendo achar graça do meu otimismo.
_Oh Julia, como você é inocente menina. Bem, agradeço a sua admiração, mas a verdade é que nos últimos anos Hollywood esqueceu-se de mim. Agora foi a minha vez de esquecer Hollywood e terminar minha vida nesse lugar bonito e distante.
_Isso é triste Audrey, você merece ser conhecida sempre.
_Nem tudo na vida é como nos filmes, Julia. Bem que eu queria, e sei que você gostaria também. Tão jovem e admiradora de clássicos? Deve ser uma menina sonhadora.
_Sim, isso é verdade. Mas falando em filmes, se a senhora pudesse escolher ser uma personagem dos seus clássicos, qual escolheria? –perguntei curiosa.
_De que estou vestida, Julia? _perguntou com um sorriso irônico.
_De Holly Golightly, em ‘Bonequinha de luxo. ’
_Está ai a resposta. Oh Alexandre, venha nos servir o chá! _chamou seu mordomo.
_Sim senhora. _respondeu ele voltando para a cozinha.
Audrey voltou sua atenção a mim, e continuou:
_Quando era jovem, também adorei atuar como princesa Ann. Adorei as falas, as cenas e o trabalho no geral foi ótimo.
_Foi excelente, Audrey! Não precisa ser modesta, você é um ícone! _disse elogiando-a e ela riu.
Alexandre voltou carregando uma bandeja de chá e biscoitos, e deixou-a em cima da mesinha.
_Obrigada Alexandre, pode ir. –dispensou-lhe ela.
_Sim senhora. Com Licença. –disse ele voltando ao trabalho.
_Posso estar desconhecida, ignorada e aparentemente morta. Mas só de ver uma jovem como você admirando a minha carreira já é o suficiente para me fazer sorrir. _disse ela sincera fazendo meus olhos se encherem de lágrimas. Estava descobrindo que minha atriz preferida é a pessoa magnífica que eu sempre pensei que fosse. E não estava nos filmes, e sim no mundo real.
_Quero ser como você, Audrey. Uma mulher talentosa, forte e poderosa.
_Você será muito melhor que eu, Julia. Poderosa você já é, só terá que trabalhar seu poder para que todos saibam dele.
Sorri e bebi um pouco do chá.
_O chá está ótimo! É da Bélgica?
_Sim, sempre peço a Alexandre para ir até lá comprar umas coisinhas essenciais. Se precisar de algo, é só me pedir.
_Obrigada, Audrey. Você tem amigos aqui no Brasil?
_Tenho poucos amigos aqui. Normalmente os mais velhos acabam me reconhecendo por isso é mais difícil.
_Entendo, mas é a sua família?
_Meus filhos estão todos adultos e com uma família formada. Eu era só uma velha carente a quem eles tinham que dar atenção. Foi à melhor coisa para eles pensarem que morri.
_Sinto muito, Audrey...
_Tudo bem querida, eu já estou bem.
Conversamos mais sobre a sua carreira, os filmes e a vida glamorosa repleta de luxo. Até que anoiteceu e percebi que tinha que voltar.
_Acho melhor eu voltar para casa agora, não avisei meus pais. _disse triste porque queria conversar mais.
_Oh, claro eles devem estar preocupados. O motorista vai levá-la é só seguir até a entrada.
_Obrigada Audrey, foi ótimo conversar com você.
_O prazer foi meu, querida. Não esqueça o que eu lhe digo, Julia: Você é poderosa.
Abracei-a e fui andado na direção do motorista que já me esperava na entrada principal, mas antes olhei para trás. Quando Audrey me deu tchau, com seu sorriso elegante e superior parecia que o tempo tinha voltado na década de 60.
O ambiente passou do colorido ao preto e branco e a própria Audrey ficou jovem. Já não dava mais adeus a Audrey Hepburn, e sim a Holly Golightly.