O castelo de espelhos

27 de Dezembro de 2011 William Adriano Contos 1089

O castelo de espelhos
(de William Adriano)

A imprecisão perceptiva me impedia de identificar onde eu estava. Fui abrindo os olhos lentamente. O que vi foi como um corredor de um castelo medieval. Pela súbita conscientização do lugar onde eu me encontrava, em pânico e sem poder me mexer naquela penumbra, sem nem mesmo pensar, entrei na primeira porta que pude avistar. Era uma sala estranha, com várias colunas. A sala possuía um número incontável de espelhos nas paredes e nas colunas. Espelhos com molduras douradas e com adornos assimétricos. Espelhos quadrados, ovais, côncavos e convexos. Aos poucos minha curiosidade foi acalmando meus nervos, e por alguns instantes nem me perguntava o que estava fazendo ali.

Os espelhos refletindo-me, aos poucos foram se deformando e criando uma profundidade como numa janela. Então não era mais minha imagem que era refletida, mas minha alma que era exposta na minha frente. Com medo fui tentando fugir e ao olhar noutro espelho, pude perceber meu passado, meus erros, meus pecados. Naquele que refletia minha alma, passou a demonstrar uma imagem pálida e fria, sem vida e sem cor. Fui perdendo o ar e a razão. Queria fugir, mas não encontrava a saída. Queria acordar, mas não era um sonho. Foi ai que quase desmaiando, me deparei com um espelho pequeno, pendurado, torto, quase caindo. Media talvez uns dez centímetros quadrados. Ao me aproximar dele levei um choque. Pude ver a minha vida pela ótica das coisas que não fiz. Essa foi a pior das visões. Vi as pessoas que não abracei, os feridos que não curei, os desanimados que não consolei. O amor que não ofereci, a alegria que escondi, o olhar que desviei.

Achei que iria desmaiar. Meu corpo foi ficando fraco e minhas pernas perderam as forças. Cai de joelhos, e com a face voltada para o chão comecei a chorar convulsivamente. Não era um choro de tristeza nem de arrependimento comum, mas era um choro da alma. Algo que não apenas saía dos meus olhos, mas vinha de dentro do meu coração. E quando minhas lágrimas ao caírem no chão, formaram uma poça imensa ao meu redor, pude então perceber algo estranho. Como num lago límpido e cristalino, me vi refletido na poça que minhas lágrimas formaram sob mim. Arregalei meus olhos assustado, pois minha imagem começou a se deformar outra vez. Só que desta vez comecei a ver as coisas boas que tinha feito, e que não tinha percebido na minha vida. E o que me surpreendeu, foi que eram infinitamente maiores que minhas angústias e tristezas. Pois em cada pequeno gesto imperceptível de caridade e bondade, era Deus agindo pacienciosamente em mim.

Um sentimento de libertação começou a me possuir. Me levantei e senti meu corpo quase flutuando. Um barulho me assustou e os numerosos espelhos começaram a se partir e a se estilhaçar pela sala. E o que me chamou a atenção foi perceber que por trás dos espelhos existiam janelas que davam para o horizonte. Me aproximei e pude ver algo que me deslumbrou. Vi a beleza da vida nas coisas simples e humildes que passam despercebidas no nosso cotidiano. Vi pessoas angustiadas que padecendo de uma cegueira espiritual, caminhavam penosamente no meio de um jardim estonteante e florido. Imagens indescritíveis e extraordinárias que me levaram a quase perder os sentidos. Mas dessa vez de contemplação. Cheguei perto de uma das janelas, e ao sentir um vento forte que me fez fechar os olhos, de repente fui arrebatado. Não sei se acordei ou se ainda estou sonhando, mas posso ter certeza que depois dessa compreensão, comecei a perceber uma janela no olhar despercebido de cada um de nós.


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