Divã

18 de Janeiro de 2012 Caroline França Contos 1142

Estava sentada na desconfortável cadeira da sala de espera do consultório psiquiátrico. A secretária apoiava sua cabeça em sua mão, parecendo extremamente entediada e cansada. “Deve ser um porre trabalhar aqui”, pensou. Vez ou outra, o telefone tocava e ela fazia anotações em sua agenda, nada mais. O cômodo estava vazio e o único barulho provinha do tique-taque do relógio pregado na parede. Tomou um leve susto quando a porta se abriu e um senhor grisalho apareceu. “Entre, por favor”, disse ele. Levantou-se imediatamente e entrou na espaçosa sala. Havia um divã verde musgo, uma poltrona preta, uma mesa de canto e uma estante repleta de livros. O ambiente era confortável, talvez para aliviar a tensão do que é ter alguém invadindo sua mente.

Como não sabia o que fazer, optou-se por apenas sentar no divã. Seus músculos estavam rijos e mordiscava seus lábios a cada segundo, deixando transparecer o seu nervosismo. Não sabia o motivo que a levara a pegar o telefone e marcar uma consulta. Fora uma atitude impulsiva e, agora, tinha que lidar com aquela situação extremamente incômoda. O doutor sentou-se em sua poltrona, pegou seu bloco de anotações e a encarou atrás de seus óculos de aros de tartaruga. Não fez nenhuma pergunta e arqueou as sobrancelhas quando não obteve nenhuma atitude vinda da mulher. O que ele esperava, afinal? Que ela simplesmente... falasse? “Uhum”, pigarreou, “O que a senhora veio fazer aqui?”.

Aquelas palavras saíram de sua boca e atingiram-na como um tapa na cara. Seus olhos se arregalaram e sua garganta ficou seca, pois não sabia a resposta para aquela pergunta. Trouxe à memória, os dias em que se sentia extremamente bem. Ficava agitada e precisava, desesperadamente, canalizar sua energia. Era uma euforia e uma felicidade tamanhas, que o mundo parecia caber em suas delicadas mãos. Ela não tinha medo de tomá-lo só para si e aproveitar tudo o que ele lhe oferecia. Só pensava a melhor maneira de alcançar seus objetivos sem receio, e em dar a devida atenção às pessoas que amava. Depois, lembrou-se de suas noites mal dormidas, em que milhares de pensamentos preenchiam sua cabeça. Refletia sobre o caráter daqueles que viviam ao seu redor e começava a duvidar de tudo e de todos. Questionava-se se sua vida estava realmente boa ou se estava se enganando, se tudo não passava de uma grande e doce ilusão. Era um pessimismo eminente e que lhe fazia mal, deixava-a doente e estressada. Era como se, todo o vigor que possuía anteriormente, consumisse toda sua vitalidade e, de repente, transformava-se em uma pessoa fria.

O estranho é que, depois de passar por esses momentos tão distintos, sua sanidade era normalizada. Os dois extremos - satisfação e desprazer - apareciam para dar-lhe alguma percepção sobre sua vida. Era como se dois lados de sua personalidade ficassem em evidência para que, o seu verdadeiro ‘eu’ e a sua singularidade, fossem firmados. E era por esse motivo que estava ali, fitando o chão com uma expressão atordoada. Ela queria saber quem era ela, apenas. Gotas de suor começaram a brotar em sua testa e, ao senti-las escorrendo pelo seu rosto, dirigiu seu olhar ao psiquiatra. Ele a olhava com um misto de curiosidade e impaciência. Ainda esperava a resposta, mas não a pressionou.

Um choque de realidade percorreu todo o seu pequeno corpo, e concluiu que nunca obteria sua resposta em uma sala que, apesar de aconchegante, provocava-lhe arrepios. Sua confusão nada tinha a ver com alguma doença mental. O psiquiatra olhou discretamente para o seu relógio de pulso e checou as horas. No mesmo instante, ela visualizou o relógio pregado na parede da sala de espera. O tique-taque martelava em sua cabeça e podia ver os ponteiros se movendo, o tempo passando. Percebeu que a única maneira de se descobrir, era não perdendo o seu precioso tempo. Ela era a junção perfeita de todos os sentimentos e de todas as forças que constituíam o seu ser. Era preciso equilibrá-los; deixá-los em harmonia para que dúvidas não surgissem. Ela tinha que sair pelo mundo em busca de autoconhecimento. Ver, sentir e absorver tudo o que visse pela frente. Era preciso doar-se um pouco, pare receber o que realmente merecia. Era indispensável deixar o medo de se encontrar para trás.

“Quem precisa de um psiquiatra, afinal?”. “Encontrarei em mim mesma o que necessito. Não preciso de alguém dizendo o que devo fazer”, refletiu. Levantou-se subitamente, compreensão espalhando-se por seu rosto. Saiu sem dizer uma palavra sequer e correu para a manhã ensolarada. Não desperdiçaria seu tempo. Não desperdiçaria nada.


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