A Rosa da Margem

23 de Janeiro de 2012 Profroque Contos 1106

Nunca me disse por que ele todos os dias dirige-se ao rio. Imagino que vai pescar, embora não o veja levando caniço, anzol e iscas, afinal, pode ser que tenha tudo guardado em alguma cabana próxima. Às vezes penso na possibilidade de algum encontro amoroso. Se ele não me diz, pode ser por não perguntar. Toda vida fui assim: preocupado com os problemas dos outros, no entanto, detesto perguntar diretamente. Prefiro esperar até comentarem, de forma espontânea, suas vivências, dramas, dúvidas e ou alegrias. Só então começo a aplicar minhas habilidades conselheiras, sem, jamais apelar para mensagens lidas em livros de autoajuda ou vistas nas páginas da internet. Apenas falo do que me ocorre e baseio-me na vivência própria e nos exemplos concretos em acontecimentos com pessoas conhecidas.
O comportamento dele me intriga e sinto uma vontade quase louca em segui-lo para ver o que faz de tão importante lá no rio. Eu não acredito que vá tomar banho, as águas recebem esgoto da cidade por dois dos riachos afluentes. Não deve atravessar para o outro lado porque há uma enorme fazenda lá, com gado nelore, cercada com dez fios de arame farpado e, ainda por cima, há barranco muito alto e difícil de escalar.
Todas as vezes que fala comigo faz menção nenhuma acerca de suas idas ao rio. Seu assunto predileto? Esporte. Suas preocupações? As doenças dos pais: dele, hipertensão; dela um câncer contra o qual faz quimioterapia. Seus amores? Mulheres bonitas, mas sem silicone. Lê algo? Nunca fala de leituras. Perdeu algum objeto? Nunca mencionou. Não tem jeito, Susan, ele é misterioso, parece ter a ver com lobisomem, embora volte sempre antes do escurecer e ainda mais quando é sexta-feira.
Não quero esperar até o velório de pai ou mãe dele e nem até a semana que vem quando terei de falar na aula da professora Denise sobre um fato extraordinário. Para mim este fato é o dele e com ele, está ao meu alcance, porém, sem escândalos e muito menos com abordagem direta.
Se eu não penso em ir esconder-me perto do rio para observá-lo? Claro, Susan, eu pensei várias vezes, e confesso, já me escondi, mas então não pude vê-lo. Deve ter ido mais rio acima, ou abaixo, pois onde eu estava ele não apareceu. Se o vejo voltar e o que traz? Vejo, sim, nunca traz coisa alguma.
O quê? Largar de mão e pensar em outro caso, enfim, há tantos por toda parte? Quer dizer que o rompimento da aliança de sustentação do governo municipal é um bom fato extraordinário? Mas nunca! Isso é mais corriqueiro que trocar camisa, Susan!
Eu não tenho a mínima ideia de como me sairei desta. Mas que não vou desviar minha atenção para fatos políticos, ah, isso não vou!
Poxa! Ele vai mais cedo hoje! Isso é bom. Não me leve a mal, Susan, vou segui-lo. Como? Gostaria de acompanhar-me? Mas seríamos notados, sozinho dá para ser mais silencioso.
Perco-o de vista, mas imagino que esteja seguindo por esta estradinha. Não posso me mostrar para não parecer bisbilhoteiro. Logo adiante, na estradinha dois urubus levantam voo. Estavam comendo um gambá morto. Significa que ele não passou aqui, as aves não voltariam tão depressa. Retorno e descubro uma discreta entrada para a mata mais fechada. Observo um galho recém-quebrado. Embrenho-me disposto a observar os sinais de sua passagem. Logo mais a mata é menos densa e não dá para perceber onde ele deve ter passado. Sigo em frente pela descida e, não demora, ouço o barulho da cachoeira. Sei de uma bela clareira com gramado próximo da queda d’água. Quero chegar até lá. Para azar não percebo que um regatinho discreto abriu uma valeta funda e caio nela. Saio com muito sacrifício, mas a roupa ficou em estado lastimável: calça e camisa embarradas e molhadas. Penso em abandonar o seguimento dele, porém, a vontade de desfazer o mistério ignora o desconforto. Oriento-me pelos rumores da cascata e chego à clareira. Nada dele! Onde estará enfiado?
Vejo um banquinho feito de madeiras roliças pregadas sobre dois esteios. Isso significa que pessoas vêm aqui para sentar e conversar. Desde que o IBAMA proibiu fogueiras nesta área, ninguém vem fazer piquenique. Certamente algumas pessoas frequentam o local de vez em quando para um idílio, ou uma troca de ideias. Seria o caso dele? Mas não está sentado no banquinho e não há sinais de que passou por aqui.
Eu sento para pensar. Pensar no quê? Nele? Em Susan? Ela sempre se faz de confidente, nada mais que isso. Nas aulas flerta com um, dois dias depois com outro, comigo está sempre séria. Posso contar-lhe de tudo, jamais faz de minhas confidências qualquer fofoca.
Um sentimento súbito me invade. E se ela souber tudo dele? Claro, se não sou objeto de fofocas ele também não seria.
Levanto e vou à margem do rio. A água está bem crescida, por causa das últimas chuvas. Em ano de El Niño isso é normal, mais do que normal. Anormal, só minhas conjeturas e o mistério que quero desvendar. Se é que existe mistério!
Não o avisto, embora volva meus olhos em todas as direções. No mínimo não veio para cá. Deve haver outro desvio pelo que passei sem perceber. O remédio é voltar e procurar. É o que faço apesar de as calças e a camisa colarem no corpo e serem pesadas por causa do barro grudando nelas.
Chego ao regatinho e vejo outra picada discreta, despercebida antes por causa da queda que tive.
Sigo por ela e estranho que ela seja morro acima. Não demora e envereda morro abaixo outra vez. Vários pequenos galhos quebrados dão a certeza de que alguém passou há pouco por aqui. A esperança aumenta e desta vez parece que a sorte está do meu lado. O rio é silencioso, ouve-se pouco do barulho da cascata. Um sabiá canta enfiado na copa de uma pitangueira. Um sentimento de saudade da namoradinha de meus treze anos sobe pelo peito. Ela tinha um vestido justo que desenhava toda sua silhueta. Depois veio aquele rapaz com várias tatuagens nos braços e no peito e roubou-me ela. Sumiram de minha vida porque os pais dela se mudaram para a capital e o rapaz, ou foi atrás dela, ou ganhou o mundo. Também, o que adianta isso agora?
Lá está ele. Uma pequena clareira e um pequeno jardim. Várias plantas exóticas, tipos diferentes de flores. Mas o que é isso? Ele tem um jardim à beira rio! É por causa dele que ele vem! Não podia imaginar mesmo!
Aproximo-me devagar e vejo que ele está “todo cuidados” para com uma planta. Faço de conta que tusso para ele me perceber. Nem levanta a cabeça. Chego mais perto e percebo que balbucia algo para a planta. Tusso e ele não se importa. Parece surdo.
Estou a menos de dez metros dele e posso ouvir o que ele fala para a planta. Não acredito que possa ser verdade. Fico parado onde estou. Não é lícito quebrar o idílio de uma pessoa.
São minutos de uma tensão sem explicação a tomar conta de meu ser. Quero voltar, não contar a ninguém do que vi e ouvi; esquecer que tenho de contar um fato extraordinário. Não posso. Ele me percebeu, ele sabe que estou perto só se faz de surdo e despercebido. Sabe que sempre falo com Susan, que meus olhos comem as formas dela e que ele não quer ser inimigo de mim, jogamos no mesmo time, ele de lateral e eu de zagueiro.
O que ele falou para a planta? Não vou contar para Susan, não!
Súbito levanta e corre até bem perto da água, decerto lavará as mãos, afinal a água forte não é tão poluída assim. Aproveito para voltar, mas não esqueço que pude ver uma rosa vermelha, de um garbo nunca visto e à qual ele fez sérias recomendações: “não deixe que teu perfume se exale antes que chegue ao olfato dela, não descore antes das vistas dela te admirarem. Irei para casa, depois vou trazer a Susan para se inebriar de teu perfume e se admirar de tua beleza. Então posso dizer-lhe que a amo, porque cumpri a promessa de cultivar com minhas mãos uma rosa, na margem do rio, para provar de que a amo.”
Ele logo vem, Susan. Agora sei o segredo.
A professora Denise vai saber de qualquer coligação política sem fundamento.

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