Pegue as pílulas e deixe morrer

30 de Janeiro de 2012 Caroline França Contos 930

Tomei algumas pílulas e me entupi de vodka. O céu estava mais azul que o normal e, para alguns, o dia estava incrivelmente lindo. Menos para mim, é claro. Eu estava sentada encostada em uma árvore de um parque qualquer, observando as crianças correndo despreocupadas. Levantei-me, abri meus braços e comecei a girar, a girar... até que tudo ficou escuro e eu apaguei.

Abri meus olhos vagarosamente e uma forte luz atingiu os meus olhos. “Uau! Estou no céu?”, me perguntei. Era estranho pensar que pessoas que tentam suicídio vão para o paraíso. Quero dizer, sempre pensei que elas fossem para o purgatório ou algo assim. Franzi meu cenho e tentei focar minha visão, que estava turva. Desapontei-me ao perceber que era uma lâmpada que emitia aquela luminosidade toda. Eu estava no hospital. Eu estava viva.

Não sei o que tinham na cabeça quando resolveram me salvar, afinal, eu escolhi dar fim à minha própria vida e ninguém tinha o direito de interferir, certo? O grande problema, é que as pessoas não têm ideia do que acontecem na vida umas das outras e acabam tirando conclusões precipitadas. Eu, por exemplo, tenho transtorno alimentar, é a segunda vez que tento me matar e ninguém se interessa ou se importa com isso, mas deveria. Nunca me perguntaram o porquê disso tudo ou como eu realmente me sinto. Talvez, se todos soubessem o que se passa em minha mente, não me achariam esquisita ou maluca.

Meus amigos são ótimos, mas estão preocupados o suficiente com suas vidas para darem atenção à minha. Eles pensam que, só porque vivo em uma constante viagem mental, não sei o que se passa. A verdade, é que os observo meticulosamente e sei que, como eu, eles sentem medo. Dizer os nossos problemas em voz alta faz com que os tornem ainda mais reais e é justamente o medo da realidade que nos obriga a fugir, a ignorar nossos sentimentos. Acontece que, dado certo momento, precisamos tomar alguma atitude. Bom, no fundo, eu gostaria que eles tivessem mais respeito por mim e não me vissem apenas como uma garota estúpida que passa dias e dias sem comer. Queria ouvi-los ao menos uma vez e, também, dá-los a oportunidade de me escutarem.

Confesso que, todos os meus problemas psicológicos somados a uma decepção amorosa, me levaram àquela mistura fatal. É curioso o que um coração partido é capaz de provocar, não é mesmo? Nos sentimos impotentes e tudo perde o seu sentido, a sua cor, o seu brilho. É como se não pertencêssemos a esse mundo. A desilusão é tão grande que não acreditamos que algo ainda possa dar certo e, tudo o que desejamos, é escapar desse universo deprimente. Michael foi a única pessoa que tentou compreender o meu conflito e eu me senti extremamente bem por ter alguém me dando atenção. Eu pensei que o seu interesse estivesse entrelaçado ao fato de ele gostar de mim de uma maneira diferente. No entanto, eu estava enganada, pois seu coração batia por outra. Eu tentei mostrá-lo os meus sentimentos e fazê-lo perceber que me amava também, mas que era tolo demais para notar. Aqui vem a parte engraçada: ele, com sua tamanha tolice, foi atrás de algo ilusório e deixou a única pessoa que possuía sentimentos reais por ele, eu.

Amor provoca múltiplas sensações. Rejeição dói. Entre sofrer e livrar-me de toda a agonia, escolhi a última, e a morte veio como solução. Pensem o que quiserem, mas optei por aquilo que julguei ser o melhor para mim. Agora, o que me resta é viver e tentar superar todas as frustrações. Pelo menos, sei que, se tudo der errado, sempre haverá uma garrafa de vodka e algumas pílulas.


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