A CURA

03 de Fevereiro de 2012 wagner silveira Contos 1246

Relato minha história aos amigos e a todos aqueles que por curiosidade, em algum dia chuvoso de suas vidas deixem pender as pálpebras sobre estas linhas.
Por muito tempo chamei de obra divina o que aconteceu comigo e Tião, meu companheiro de senzala.Nós éramos escravos em uma das terras de cana-de-açucar do maldito coronel Magalhães, famoso por sua crueldade com seus negros, principalmente os fujões.Diziam que ele ia pessoalmente à minha terra, para capturar suas "peças".Os que não conseguia trazer, tinha prazer em matar.
Tião era um negro mais entrado na idade do que eu.Era muito bom de capoeira e de namoro, e quando não estava com uma de suas mulheres, uma ou outra sinhazinha vinha lhe prestigiar.Com sua malandragem, sempre escapava das surras do capitão do mato, e das escravas que ele partia o coração.
Eu sempre fui mais quieto, pensativo, vagabundo também, mas com uma centelha de inconformismo.Odiava minha condição e de meus irmãos.Não entendia porque nascer livre era só questão de nascer preto ou branco.
A fazenda do maldito era enorme, em um bom trecho nas terras de São Vicente.Trabalhávamos na plantação de cana, de sol a sol, sete dias por semana, sem descanso.Quando não estávamos plantando, colhíamos.Quando não estávamos colhendo, carregávamos.Quando não carregávamos, apanhávamos.Simples assim.
Esta era nossa rotina, até o dia em que Tião ficou sabendo da história de um tal de Zumbi dos Palmares.Dizia que o tal do Zumbi havia sido um grande guerreiro em nossa terra, que virara escravo e virara guerreiro novamente.À noite na senzala, todos se reuniam para ouvir os relatos esparsos sobre suas aventuras.
Diziam que ele havia fugido dos seus senhores, e criado um quilombo no meio da mata.Um lugar onde todos eram livres, sem grilhões e troncos.Quem lá conseguisse chegar, estaria à salvo, nunca mais seria escravo de ninguém.
Aquelas lendas deixavam todos ouriçados, tentados à fugir e correr para tentar achar o tal quilombo, que nenhum de nós tinha a mínima ideia de onde era.E o diabo era que ninguém tinha coragem para sumir dali.O Barreto, capitão do mato, era ruim demais e adorava torturar negro fujão.Eu mesmo vi uma vez ele cegar com ferro em brasa, um pobre coitado que tinha sido capturado.Coisa do demo!
Bem, eu achava que ninguém era louco o suficiente para tentar escapar, mas tinha me esquecido de Tião .Numa noite estrelada, ele veio me procurar.
-Acorda...acorda que eu quero te contar uma coisa.
-Que coisa é essa Tião?Me deixa dormir em nome de Deus.
Seus olhos faíscavam de ansiedade.
-Amanhã à noite eu e Damião vamos fugir, correr mato atrás do tal quilombo.Tu vem com a gente, já tá tudo combinado.
Levantei da minha esteira de palha quase acordando toda a senzala.Aquilo era loucura.Recusei o convite mas Tião tinha um ótimo argumento para me convencer.
-Tu não tem escolha, irmão.Depois de amanhã o coronel vai vender metade dos escravos,Quem for, sabe Deus onde e nas mãos de quem vai cair.E quem ficar, vai trabalhar dobrado até o couro rachar.Tu não tem outra saída.
-Ele estava certo, os boatos de que o coronel ia vender escravos e terras se intensificavam .Diziam que ele ia para a Europa se tratar de uma grave enfermidade que estava lhe corroendo vivo.
Aceitei a proposta e combinamos de fugir após todos dormirem.Damião era um bom conhecedor de trilhas e andava feito onça no escuro.Na noite seguinte, vencemos os limites da fazenda e nos embrenhamos mato a dentro em busca do lendário quilombo dos Palmares, sem a mínima noção de onde era.
Pobres e inocentes diabos fomos nós.Por dias e noites corremos com o latido dos cães e as tochas acesas em nossos calcanhares.A fome e o cansaço nos dominavam enquanto nós nos dávamos conta de que estávamos definitivamente perdidos, já que o Barreto e seus cupinchas em breve nos alcançariam.
Tião não desanimava e continuava acreditando que conseguiríamos encontrar o quilombo.Eu não tinha outra alternativa e nem ninguém pra chorar minha morte, o que me obrigava a fechar com ele.Infelizmente, Damião não pensava assim, e numa parada que demos para beber água e descansar, ele nos abandonou e correu de volta aos braços do capitão do mato.
-Deixe ele ir – disse meu amigo.-Covardes como ele nascem aos montes.Valentes como nós, é uma vez ou outra.”Bora” pra frente, que eu acho que estamos no caminho certo.
-Você está maluco?Estamos há dias correndo em direção ao nada.Você nem sequer sabe para onde estamos indo.E se tudo não passar de uma maldita história de preto velho, e esse Zumbi nem existir?Meus pés e minhas mãos estão sangrando e eu já não me aguento mais de tanta fome.Acho que o Damião é que está certo.Vamos voltar, quem sabe o coronel nos perdoa e...
-Damião já deve estar morto – respondeu Tião se aproximando de mim com um tom sério e determinado.- O capitão não vai deixar barato não e com certeza quer nos matar também.
-E o que vamos fazer então?-perguntei apavorado.
-Confie em mim, eu sei que estamos no caminho certo, posso sentir isso.
Dois dias depois estávamos perto do que atualmente chamam de “Vale do Ribeira”.Tião ia bem na frente, e embora estivesse exausto, parecia guiado por alguma força sobrenatural.
Eu já não podia dizer o mesmo de mim.Estava exaurido ao extremo, com a fome e a diarréia minando meu organismo.As feridas em meus pés impediam meus passos, e eu já não aguentava mais tanto sofrimento.
Jamais passou pela minha cabeça desistir da nossa empreitada.Não!Jurei que não seria mais escravo de ninguém, seria senhor de meu destino.Mas meu corpo não queria me obedecer e as bolhas em meus pés haviam se transformado em escaras.A dieta à base de banana e coco tinha feito um enorme estrago em minha flora intestinal, fazendo com que a fraqueza generalizada mal me mantivesse em pé.
Meu amigo bem que tentou me ajudar, me carregando por alguns metros, mas não pôde suportar por muito tempo meu peso de homem feito, e ao final do décimo oitavo dia de fuga, tombamos semi-mortos na entrada do que depois eu soube ser chamada de “Caverna do Diabo”.
Com muito esforço Tião me arrastou para dentro da caverna.Era úmida, escura e infestada de morcegos, o que para duas pobres almas no limite da exaustão, era o paraíso.Sem a menor resistência, adormecemos profundamente.
Ao abrir os olhos, após o que me pareceram longas horas de sono, não pude acreditar no que estava vendo.A caverna havia desaparecido!
O escuro teto forrado de morcegos, era agora de uma claridade insuportável, mal permitindo que eu abrisse meus olhos totalmente.Tentei me levantar, mas não consegui, estava amarrado pelos punhos, pés e cabeça à uma fria mesa de metal.Estava nu, com apenas um alvo lençol branco sobre meu corpo.
Virei penosamente para o lado esquerdo, o que me causou muita dor devido ao garrote em meu pescoço.Pude ver Tião, a poucos metros de mim, no mesmo estado, porém desacordado.
Isso me desesperou de tal forma, que comecei a me contorcer violentamente, na ânsia de me ver livre daquelas amarras.Sem sucesso, gritei o mais alto que meus pulmões aguentavam por vários minutos.Nada.
Apesar de a dor ser excruciante quando mexia minha cabeça, me acalmei e me virei para o outro lado.Percebi que estava em uma longa sala, totalmente branca e bem iluminada.Em nossos braços e em nossas cabeças, fios nos ligavam a estranhas máquinas ao nosso redor.À nossa frente, uma imensa janela espelhada contribuía para a sensação de amplitude e vazio do lugar.Percebi que era inútil lutar, pois por mais esforço que fizesse não conseguia me soltar.
Um discreto “clique” metálico, seguido de um “bip” curto, provavelmente vindo de uma das máquinas, me chamou a atenção.Quase ao mesmo tempo senti as veias do meu braço direito serem invadidas por alguma substancia que queimava como água fervente.Em pânico tentei mais uma vez me soltar, mas quanto mais me debatia, mais dolorosa era a entrada do estranho soro.
Meu coração estava a ponto de explodir, seus batimentos devem ter duplicado de intensidade.Não conseguia respirar, muito menos gritar por socorro, pois minha língua estava começando a enrolar.As máquinas que nos monitoravam, começaram a apitar e a rabiscar estranhas figuras em suas telas.
Eu estava tendo um ataque, um colapso cardíaco e sabia que em pouco tempo tudo estaria acabado.Nossa fuga, nosso sonho de liberdade, arruinados.
Foi quando me virei para me despedir do meu grande amigo, que os vi pela primeira vez.Não sei até hoje se a falta de oxigenação em meu cérebro e a estranha substancia que nos foi injetada, contribuíram para a insólita visão que tive.Mas o que vi, não tenho dúvida alguma de que era real.
No total, eles estavam em três em volta de Tião.Não eram altos como um homem comum, nem se pareciam com uma criança.As estranhas criaturas que examinavam meu parceiro de fuga, não eram em nada parecidos com qualquer homem, mulher, ou bicho que meus olhos já tivessem visto.
Eram bem magros, com a cabeça muito grande, desproporcional ao corpo mirrado.Não possuíam orelhas e seus rostos afunilavam-se até o queixo.Não tinham boca e no lugar do nariz apenas dois pequenos orifícios.Sua pele era seca, sem brilho e acinzentada.
O que mais me chamou a atenção foram seus olhos.Possuíam assim como nós apenas um par, mas muito maiores, negros e brilhantes como uma jabuticaba .Observei que se comunicavam apenas por olhares e toques, e concluí que deviam estar conferenciando a nosso respeito.
Súbito, um deles desviou sua atenção para mim.Por um instante, senti que seria meu fim, pois ele veio em minha direção.Me desesperei e me debati, mas mal tive tempo de efetivar minha reação.
Ele chegou na beira da minha espécie de cama, e colocou sua mão em minha testa.Olhei fixamente para aqueles imensos olhos, e o que senti, até hoje, tanto tempo depois, ainda me dá calafrios.
Toda a dor que estava me torturando, cessou como se fosse desligado algum interruptor em meu corpo.Meu coração começou a desacelerar e minha respiração se normalizou e uma deliciosa sensação de paz e alívio invadiu meu espírito.
De repente, os olhos da estranha criatura começaram a brilhar com maior intensidade, transformando-os em algo como duas telas, onde imagens conhecidas de minha vida começaram a passar como num filme.
Minha infância na África, meus pais, meus amigos, minhas mulheres.A chegada dos navios negreiros, a captura, a vinda para uma terra desconhecida onde éramos acorrentados e tratados como animais.A fuga.
Era a minha vida até aquele momento, sendo extraída pela criatura.Ele estava absorvendo meu conhecimento, minhas experiências, e o mesmo devia estar sendo feito com Tião.Tentei falar alguma coisa, mas não consegui.Só o que via eram aqueles olhos negros, aquele semblante assustador mas ao mesmo tempo pacífico.
Olhei mais uma vez para a mesa onde estava Tião, e ele estava acordado e me olhando.Estava só, os outros indivíduos haviam ido embora.
Ele me sorriu e eu sorri de volta.Tudo escureceu e eu adormeci.
-Negros malditos.Pensaram que podiam se esconder de mim a vida inteira, é?
Fomos despertados a chutes pelos homens do capitão do mato.Não podia acreditar na nossa malograda sina.Estávamos novamente no interior da caverna do diabo, sem criaturas, máquinas ou luzes fortes.Tudo fora substituído pelo latido dos cachorros dos caçadores de escravos e eu e Tião olhávamos atônitos um para o outro, sem saber o que tinha acontecido.Teria tudo sido apenas um sonho compartilhado por nós?
-Capitão – suplicou Tião enquanto éramos postos a ferros.-Não nos maltrate em nome de Deus.
***
Barreto era um negro nojento, que achava que era branco, só porque era mais um dos muitos filhos bastardos do coronel.Numa só braçada ele atirou Tião longe.
-Quem vai maltratar vocês dois não sou eu não, é o coronel.Ele já tinha perdido as esperanças de encontrar vocês.Confesso que eu também, foi pura sorte que nós encontramos vocês dois.Da última vez, paramos à poucas léguas daqui, mas os cachorros se assustaram com um baita de um clarão que vinha destas bandas.Os homens correram de medo dessa tal de caverna dos diabo, tive que arrumar outros, melhor de correr atrás de safados, e dessa vez demos sorte mesmo.o coronel...ah, desde que ele voltou das Europa, doente que nem um cachorro velho, que ele fala de vocês.
Interrompi bruscamente a narrativa do capitão, porque em dois pontos ela não fechava.
-Perdão capitão – disse de cabeça baixa, pronto para a paulada.-Vosmecê disse “da última vez”.Ora, a última vez foi no máximo há uns três dias.E como é que o coronel já “voltou das Europa”, se só pra ir leva quase um mês?
A gargalhada explodiu como um rastilho de pólvora.Primeiro o capitão arregalou os olhos e olhou para nós e para os seus homens sem entender o que tinha ouvido.Em seguida, desandou a gargalhar, seguido por todos ali, acho que até pelos cachorros.
-Eita diabo – gritou ele arreganhando os dentes amarelos e podres.-Essa pinga que ocêis trouxeram na viagem deve de ser danada de boa.Tão perdido inté no tempo!
-Perdidos como capitão, se faz poucos dias que fugimos – acrescentou Tião.
-Poucos dia seu negro fio duma égua.Nós tamo na bota de vocês já faz pra mais de seis meses, seus desgraçados.
***
Durante todo o trajeto de volta à fazenda, nem eu e nem Tião tivemos coragem de trocar uma única palavra.Estávamos atônitos, completamente desnorteados com o que estava se passando.A experiência na caverna e o imenso gap de tempo revelado por Barreto, nos enrijeceu até os ossos.
A única certeza que tínhamos naquele momento era a de que seríamos severamente castigados por causa de nossa fuga.”Seis meses!”, murmurava Tião logo que adentramos as terras do Coronel.
Ao passarmos pelo canavial, de longe eu já o avistava.Conforme íamos nos aproximando da casa grande , dava para vê-lo alisando a barriga, pronto para nos devorar.Estava mais magro, bem abatido por causa da doença que estava lhe carcomendo a carne, mas a cara de satanás ainda estava lá.Nos recebeu com um enorme sorriso.Estávamos definitivamente na cova dos leões.
-Sejam bem vindos – disse ele com uma fraca mas ainda assustadora voz.-Vocês não sabem o quanto eu estava ansioso em ver vocês de novo.
Nós dois ali, jogados aos seus pés, prontos para apanharmos até o osso, sermos chicoteados sem misericórdia, mas em vez disso, nada aconteceu.
A enfermidade havia realmente o debilitado, sorvendo parte da sua vitalidade e arrogância.Uma forte tosse o acometeu durante a nossa recepção, logo aparecendo duas criadas para acudi-lo.Da sala contígua, três homens com aparência de estrangeiros, devido suas roupas e maneirismos, entraram voando sobre ele, jogando as negras para longe.
-É uma síncope! - gritou um deles.-Tragam a cânula para ventilação.
-Franceses – sussurrou Tião.Observávamos o episódio rezando para que a mão suave da morte tivesse a decência de aliviar a dor do Coronel, o que certamente aliviaria muito a nossa.
Logo que conseguiu restabelecer um mínimo de oxigenação em seus pulmões, fez sinal para que o capitão do mato se aproximasse.Barreto voltou com uma leve expressão de desapontamento.
-Simbora negrada – rosnou enquanto nos erguiam pelo pescoço.-O Coronel mandou colocar vocês no “tratamento especial”.
Sorriu meio contrariado e cuspiu o fumo, mostrando mais uma vez seus poucos dentes podres.
Eu só pensava no que diacho era o tal de “tratamento especial”.
***
Fomos postos à ferros, mas para nossa surpresa, não relaram a mão em nós.Pelo contrário, nos dias seguintes fomos muito bem alimentados com carne, fruta, legumes e verduras frescas.
Durante nossa estranha pena, eu e Tião tentamos de todas as maneiras entender o que exatamente nos havia acontecido durante nossa fuga.”Seis meses!” repetia Tião.Como?
A nossa conclusão naquela época, era a de que Deus deve ter tido pena de nossas pobres almas e mandou seus anjos para nos proteger.Anjos bem feios e esquisitos, mas anjos.
Só para o enorme lapso de tempo e a estranha sala de equipamentos, nossa parca imaginação não achava explicação.
Alguns dias depois, os homens do Coronel vieram nos buscar.Crentes do nosso destino, eu e meu irmão nos olhamos e em silêncio nos despedimos.Porém, contrariando tudo o que estávamos esperando, nosso destino não foi o tronco.Em vez disso, fomos levados novamente para a casa grande, só que desta vez direto para os aposentos do Coronel.
Lá estavam os médicos estrangeiros, que ele deve ter mandado vir da Europa, todos em volta da cama onde o corpo surrado pela doença do Coronel jazia.
Ao nos ver, os três médicos mandaram nos soltar e ordenou que nos dessem água.Olhei para o canto esquerdo do quarto, e apesar da penumbra, vi que haviam mais dois escravos, dos quais não recordava os nomes.Tião estava apavorado, tremia da cabeça aos pés, enquanto eu tentava em vão entender o porque de estarmos ali.
Para nosso terror, logo ficamos sabendo.
O Coronel gemia de dor, contorcia-se e suava como um desgraçado que era.Um dos médicos lhe amarrou os braços e os pés na cama, enquanto uma negra secava o suor do rosto do maldito.
Um outro médico ordenou que trouxessem um dos negros que estavam no outro canto, enquanto confabulava com o colega.Ao se aproximarem de nós, pude reconhecer um deles.Era Bento, filho de Maria da Ajuda, prima de minha falecida mãe.Ele gritava muito enquanto o arrastaram e o sentaram em uma cadeira toda de metal perto da cama do Coronel.
Foi amarrado pelos punhos e pernas e amordaçado.Começamos a gritar e tentar escapar para ajudá-lo, mas os homens do Barreto nos dominaram mais uma vez.O que se passou em seguida, amigo que lê estas mal traçadas linhas, nos encheu de pavor, multiplicado por mil quando finalmente descobrimos a mundana intenção daqueles carrascos.
Um dos franceses pegou um aparato, semelhante a uma imensa seringa de cobre e enquanto seus dois cúmplices seguravam o pobre Bento, aplicou-lhe o contéudo direto na veia do seu braço esquerdo.
Bento urrou de dor, logo que o líquido penetrou em sua circulação, tão alto que fez as duas mucamas que assistiam a tudo, voarem dali.
O espetáculo surreal diante de nossos olhos parecia interminável.Bento estrebuchava, contorcendo-se como se um demônio quisesse estourar suas entranhas.Começou a sangrar pela boca, olhos e ouvidos, suplício que perdurou ainda por longos minutos, até que um último gemido surdo e abafado, atestou sua passagem.
Nenhum dos médicos canalhas tentou ajudá-lo, apenas observavam a tudo enquanto faziam anotações em seus cadernos.
Mais uma vez conversaram entre si, e ordenaram que trouxessem o segundo escravo para mais uma sessão diabólica.Nem é preciso dizer que o que aconteceu com o miserável foi um triste flashback do que aconteceu com Bento.Castigo e morte, mais discussões e anotações.
Os franceses pareciam intrigados com os resultados que estavam obtendo.Ao mesmo tempo em que nossos dois irmãos eram exterminados, o estado de saúde do Coronel Magalhães parecia piorar.Não havia muito tempo.
Mandaram Barreto buscar uma segunda cadeira de metal, idêntica à outra, e a colocaram lado a lado com a primeira.
Olhei mais uma vez para o meu amigo, que me retribuiu o olhar de despedida.Éramos os próximos, os dois de uma vez, pois a cada segundo que passava, o Coronel agarrava-se à foice afiada da morte.
Em segundos estávamos atados às cadeiras.O cobre das ampolas brilhou com o reflexo das poucas velas acesas.Mãos ensaguentadas aplicaram ao mesmo tempo em mim e em Tião, o que eu já havia batizado de “Elixir do diabo”.
Senti a droga penetrar meu braço e começar a queimar minhas veias, aumentando meus batimentos cardíacos rapidamente.
Só que para meu espanto e total euforia dos médicos, aos poucos o mal-estar ia se dissipando e meu corpo foi restabelecendo suas funções normais.Em menos de cinco minutos após ter sido inoculado, estava me sentindo completamente bem.
O delírio dos médicos explodiu em excitação, ao constatarem que Tião também estava totalmente normal.
Tiraram nossas mordaças e eu explodi em fúria.
-Desgraçados!Malditos!O que vocês estão fazendo?
O médico que estava me soltando, parou e mandou que nós observássemos atentamente o Coronel sendo preparado as pressas para a mesma experiência.
-Vejam meus amigos – disse ele com um nojento e arrogante sotaque.-O Coronel outrora forte e vigoroso, está morrendo de uma terrível doença que há dois anos nos enlouquece na busca de uma cura.Tentamos de tudo que estava ao nosso alcance em vão, e já estávamos perdendo as esperanças de salvá-lo, quando um nobre colega alemão nos apresentou uma nova droga, poderosíssima, mas que ainda não havia sido testada em seres humanos.
Eu não compreendia nada do que ele estava dizendo, todos aqueles nomes e termos técnicos confundiam ainda mais minha cabeça de escravo sem instrução alguma, naquela época.Só pude assimilar todas aquelas informações muito tempo depois.
-Assim – continuou ele – como não tínhamos muito tempo, e sabendo que o Coronel possuía muitas “peças” para utilizar, pensamos:Por que não?Podemos salvar nosso ilustre paciente e também ganhar muito dinheiro se este novo remédio funcionar realmente.
-Funcionar?Dois morreram com este maldito remédio – gritei.-Pode ser apenas pura sorte estarmos vivos.
-Bem – respondeu ele coçando o cavanhaque em tom irônico.-Só há um meio de descobrirmos.E você não tem como saber meu jovem selvagem, mas na medicina atual, cinquenta por cento de acerto é um ótimo número.
Virou-se em direção à cama do Coronel e pediu aos colegas que administrassem a fórmula no velho.Os outros dois chacais prontamente o atenderam, e todos nós ouvimos um terrível urro de dor vindo das entranhas do Coronel.Por alguns instantes ele se manteve estável, respirando apenas um pouco mais ofegante, o que provocou sorrisos e abraços entre os crápulas da equipe médica.
Tião me chamou e disse que talvez o “marvado” tivesse a mesma sorte que a gente.Na mesma hora balancei a cabeça negativamente e apontei em direção à cama para que ele não desviasse a atenção.Fiz sinal para que ele fosse tentando se soltar da cadeira, pois alguma coisa me dizia que o pior do circo de horrores ainda estava por vir.
Na minha cabeça analfabeta de escravo, eu ainda não conseguia amarrar lógicamente os motivos de nossa imunidade perante aquela satânica experiência, mas no fundo da minha alma eu acreditava que tinha a ver e muito com nosso contato na caverna do Diabo.
Infelizmente, para o Coronel Magalhães, eu estava coberto de razão.
O velho começou a se entortar de maneira bizarra.Sua pele estava rocha, e seus olhos pareciam querer pular das cavidades.
A correria transformou-se em pânico quando aos berros, excomungando Deus e os médicos, o Coronel começou a vazar sangue por todos os buracos do corpo.
Em poucos segundos, o que restara do moribundo se parecia mais com uma carcaça de animal atropelado do que com um ser humano.Assim como aconteceu com Bento e o outro garoto, o líquido injetado em vez de curar acabou de forma grotesca com a vida do Coronel.A expressão que a morte lhe pregou no rosto, faria gelar até o mais ateu dos céticos.Dava pra ver com clareza a expressão do demônio estampada em sua face.
Estupefatos, os franceses nos olhavam e olhavam de volta para o corpo já sem vida do Coronel, tentando entender o que poderia ter dado errado.Um deles gritou para Barreto e seus homens, para que não nos deixassem escapar, mas já não dava mais tempo.Nem ele, nem nenhum de seus cupinchas estavam mais no quarto quando o Coronel começou a agonizar.
Era a nossa deixa.Nos desvencilhamos das terríveis cadeiras inquisidoras e escapamos o mais rápido que pudemos daquela casa maldiçoada.Tião não se contentou apenas em fugir, e antes de sair jogou todas as velas que ainda permaneciam acesas nas pesadas cortinas, fazendo o fogo rapidamente crepitar pelas paredes e forros.
De longe, de onde finalmente paramos de correr, dava pra ver toda a casa grande ardendo.Uma enorme mancha amarelada no céu.
Resolvemos ali mesmo nos separar.Tião queria ver se restava mais algum escravo que ainda não tivesse se soltado no meio da confusão.Eu decidi correr outro rumo.
-Deus te proteja meu irmão – disse ele.-Espero te ver um dia pra gente dar boas risadas de tudo isso.
Eu concordei.Ele se virou e sumiu na mata.

Nunca mais vi meu grande amigo e irmão, nem botei mais os pés naquela região.Durante muito tempo em minha vida corri atrás de respostas sobre quem eram os seres na misteriosa sala da caverna do Diabo, o que eles queriam de nós, e o porque de tão valioso presente que eles nos deram.
Jamais cheguei a alguma conclusão satisfatória.E lá se vão quase três séculos...


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