Desejo secreto

08 de Fevereiro de 2012 Doug Mota Contos 1104

Ele era cheio de amor pra dar, dedicado como um lobo caçando, um bom rapaz reconhecido por seus feitos. Lia terror e suspense, assistia a comédias e drama, vivia romance. Tímido como um pardal, não encontrava coragem para se expressar da maneira que o satisfaria, muito menos para se declarar àquela pessoa específica. Não só por temer sua reação, mas principalmente a daqueles ao seu redor. Ele queria, mesmo que fosse às escondidas. O desejo o consumia de dia e à noite, na rua, nos sonhos, em todos os lugares que frequentava, física e mentalmente. Os olhos bola-de-gude avelãs; o cabelo jogado pra frente como se a erosão o tivesse modelado; o corpo médio e simples coberto por roupas retrô; o olhar humilde sempre cabisbaixo; o sorriso que, em conjunto com as maçãs do rosto, apertavam os olhos e os deixavam com um toque infantil; a voz fina, poucas vezes ouvida, não parecia pertencer a um adolescente semi-adulto, soava inocente; as visões eram tão frequentes e tão bem observadas que se tornara fácil se lembrar dos detalhes. As aproximações raríssimas não eram problema, com óculos para miopia tão poderosos, apreciar a vista sedutora de longe não era tarefa difícil. A proximidade e as coincidências que os ligavam pareciam absurdas! Moravam em bairros vizinhos, estudavam na mesma escola, já se visitaram virtualmente há anos, tinham centenas de amigos em comum e gostos semelhantes, e mesmo assim, não se “conheciam”. Um sabia tudo sobre o outro, o outro nem desconfiava do que se passava na mente conturbada do um. Através da técnica do stalk, o um saciava sua sede do outro. Ninguém jamais desconfiara da existência de sentimentos assim em sua cabeça, não sabia e não queria aprender a demonstrar essa face publicamente. Preocupava-se muito com sua imagem e postura. Por mais que às vezes um comentário vazio escapulia, sempre conseguia camuflar e esconder a dinamite dentro de si, graças ao vazio. Ia além de vontade carnal (o que já era de costume acontecer), ultrapasava os limites de atração. Apegou-se ao conjunto interno + externo, todos os aspectos se encaixavam perigosamente. Perigo que o tirava do sério há mais de ano, o distraía nos momentos de atenção. Quantas vezes dormiu pouco à noite por causa dos pensamentos fictícios soltos, imaginando um presente que garantiria um futuro sonhador. O tempo passou e o destino os uniu, não da maneira desejada, mas já era um começo. Uma chance de se apresentar ao pretendente, com tanto em comum seria infalível. Nem tanto, alguma força (natural ou não) os afastavam de encontros. A timidez de ambos os impedia de trocar ideias mais íntimas, nas poucas conversas que tiveram não saíam do campo técnico-profissional. Infelizmente, da mesma forma que o mundo conspirou para que se unissem, o mesmo aconteceu favorecendo a separação. Cada um seguiu um rumo na vida, porém, a proximidade geográfica permaneceu a mesma. Atitudes grossas e desrespeitosas quebraram aquele laço tão puro, cujos cacos caiam sobre sua pele com efeito de chibata. Não havia explicação para tal. Uma faísca de ódio acendeu e queimou parte das boas memórias, dos sentimentos. Uma guera de chamas se iniciou. De um lado, o fogo da paixão que estava acesso desde o início de tudo; de outro, uma chama negra e fria que acabara de brotar da faísca minúscula. Após uma série de conflitos psicológicos e tristeza aparente, uma tempestade de lágrimas doces interromperam a batalha. Dos restos que sobraram das cinzas, pode-se encontrar pequena quantidade de rancor e mágoas. Em contrapartida, salvou-se um pouco do que havia de bom anteriormente em tamanho maior. O contato quase inexistente e os restos carbonizados resultantes do incêndio cerebral ajudam o enfraquecimento da conexão entre ambos. Todavia, de tempos em tempos algo reforça a força moribunda. Seria a Física? Afinal, os corpos estão sempre se atraindo. Seria o sobrenatural? Afinal, a ciência não consegueria explanar metade do ocorrido. Seria o destino? Mas o que é o destino? Coincidências não existem. Seja o que for, se a tendência seguir, as chances de tudo se repetir são altas, afinal, sempre há a espera no interior do vazio.

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