Levante

19 de Fevereiro de 2012 Jeff V. Pavanin Contos 911

1. ato de levantar(-se); alevante;
2. insurreição contra alguém ou algo; revolta, motim;
3. lugar no horizonte onde o Sol se levanta; nascente;


O barulho dos freios a acordou do sono profundo. Quando dormiu, a estrada ainda estava seca e o sol despontava no horizonte. O caminhoneiro que lhe oferecera a carona não seguiria para a cidade de seu destino, mas disse que poderia deixá-la em uma estalagem no fim do mútuo percurso, onde então faria o desvio para outro estado. A noite já caíra há muitas horas quando o caminhão estacionou no cascalho molhado, à beira da edificação. Demorou alguns segundos para realizar que havia chegado a seu destino, erguendo-se do banco onde estivera desmaiada durante a viagem. Seus cabelos cor de areia não viam a cara de um pente há alguns dias – mas ela ainda se encontrava em bom estado para uma mulher que havia fugido de casa – e a maquiagem borrada explicitava sinais de choro recente. Pegou a mochila surrada e a pequena mala pelas alças e desceu do veículo com um pulo que levantou algumas pedrinhas.

? Obrigada pela carona, cara – disse ao caminhoneiro. Ameaçou tirar a carteira do bolso, para recompensar o homem de alguma forma, mas este a interrompeu com um gesto.

? Guarde seu dinheiro para pagar a estadia.

Dizendo isso, ele fechou a porta com um forte baque e seguiu seu caminho, sem mais palavras. Parada na beira da estrada molhada, com carregadas nuvens planando acima de sua cabeça, ela observou o mundo que a circundava: a densa cerração cobria metade do bosque de ipês que ladeava o prédio da estalagem e um pequeno monte se erguia do outro lado do asfalto. A grande maioria das árvores estava seca e quebradiça apesar da umidade que fazia naquela época do ano, mas ainda assim dava certa beleza ao local. Suas botas encontraram a trilha até a porta com facilidade, e sua mão livre ocupou-se em puxar a gola mais pra cima, a fim de proteger sua pele do vento cortante. Não estava nevando, mas os pneus haviam deixado visíveis rastros na neve que caíra mais cedo, e os carros se encontravam estacionados em vagas improvisadas à frente do prédio.

A porta rangeu pela falta de óleo quando ela entrou no aposento aquecido, e o sino acima de sua cabeça bateu anunciando sua chegada. À meia luz conseguiu enxergar que o lugar estava vazio, exceto por um gato malhado que se retorceu ao passar pelo corrimão da escada que subia para os quartos. Uma mulher pareceu ouvir o barulho da sineta e correu para ver quem adentrava: trajava um avental sujo e luvas de forno. Os cabelos grisalhos caiam-lhes sobre os ombros em uma cascata desarrumada, e os óculos pendiam na ponta de seu nariz adunco. Olhando por cima deles, a mulher avistou a silhueta da visitante, abrindo um meio sorriso ao ver que trazia malas. Tornou a desaparecer atrás da parede que separava os aposentos para depois retornar de mãos desnudas.

? O que te traz a esta estrada, moça? – disse ela. Pousou as mãos no balcão surrado com leveza, fitando os olhos da desconhecida com curiosidade.

? Incertezas. Preciso de um quarto...

O olhar da mulher se demorou ao fitar seu semblante. Talvez estivesse a examinar o poço vazio que eram seus olhos, ou o rastro negro que as últimas gotas d’água deixaram na pele fria. Não sabia como se portar diante daquele olhar meticuloso. Somou aquele aos muitos outros que havia recebido na noite anterior... Ao sair pela porta da desgraça, notou que muitos sussurravam uns aos ouvidos dos outros, lançando dedos tortos a julgar aquele que saía logo atrás... Talvez as raspas de esperança que haviam sobrado da lapidagem de seu coração não passassem de serragem. Desviou seu próprio olhar para o gato que agora subia as escadas. A mulher grisalha entregou-lhe uma chave gasta presa a uma fita vermelha. O chaveiro estampava o número 34 rabiscado com tinta verde. Antes de deixar que subisse, a mulher ofereceu um livro de visitas onde a outra registrou sua entrada no estabelecimento. Disse que em meia hora alguém subiria com uma xícara de chá verde bem quente pra apaziguar o gelar da noite. Pisou de degrau em degrau, tentando elevar o ânimo na medida em que elevava o próprio corpo ao andar superior.

O quarto não era grande, mas serviria. A cama pareceu ser confortável e, na mesa de madeira, a televisão antiga era o único elo que poderia manter com o mundo externo àquela estrada. Deixou a mala e a mochila no tapete de entrada e correu para dar vazão ao nó que subia à garganta, como lava quente de um vulcão, e despejou tudo no vaso. Ajoelhada, limpou os lábios com as costas da mão e afastou os cabelos para trás, perguntando-se se era o almoço do dia anterior que havia sido despejado, já que fora sua última refeição antes do... Lavou as mãos na pia suja, onde a água corria devagar. Ao sentar-se na cama, deparou-se com a questão antes não existente, mas que agora nadava à superfície de sua consciência: O que faria a seguir? Há dois dias não se penteava. A comida não alimentava a alma. O sono veio e se foi inúmeras vezes em menos de vinte e quatro horas... Sabia que algo deveria ser feito. Fugir não ajudaria a minimizar o dano causado. Mas... Que dano? Sentia-se machucada?

Deixou-se levar pelo peso de seu corpo e desabou sobre a cama. A porta do quarto ainda estava aberta, mas ela parecia não se importar. A mala estava lá, caída, como ela própria antes estivera, mas não ligava. Sentia dor, sim, mas pelos pés cansados e pela vida desperdiçada. A cegueira não a mataria, porém, seria responsável pelo rancor que certamente guardaria a sete chaves. A infiltração no teto do quarto parecia distraí-la mais que os fatos, e vista daquele ângulo até se parecia com algum animal... Um elefante, talvez? Não... Um canalha. Era com isso que se parecia. Um belo de um canalha.

A raiva momentânea a fez se levantar para fechar a porta. Ainda trôpega pelo impulso mal tomado, trouxe a mochila para a cama e começou a desfazê-la: Uma calça jeans e três blusas, um moletom, cinco calcinhas e os cigarros. Não trazia pentes ou escova de dente. Não trazia meias, brincos ou colares. A sorte vinha no bolso, e o juízo se escondia entre o medo e a coragem. A carteira ostentava o valor do último saque realizado na cidade, e talvez desse para arcar com as despesas de um mês, se ali continuasse hospedada. O mercado não era longe, e o posto ficava a menos de quinhentos metros... Flagrou-se pensando em conseqüências. Não poderia morar em uma estalagem à beira de uma estrada para sempre. Visava chegar à cidade algum dia, por mais que isso lhe custasse paciência, mas o comodismo e o isolamento pareciam sobressair-se à vontade de continuar.

Um leve baque repetido a fez sobressaltar-se. Havia alguém à porta. Não se dera conta de que já havia se passado meia hora desde que subira para o quarto de número 37... Ou seria 34? Não importava. Fez esforço para levantar-se da cama e receber o garoto que trazia seu chá. Devia ter menos de 12 anos e vestia-se de forma simples, trajando um moletom amarelado e calça de linho tingido. Ele adentrou o quarto e tirou da bandeja que levava um prato com dois pequenos pães e uma xícara de chá. Ameaçou sair, mas parou de repente ao encarar a mulher a quem servia. Ela não sabia dizer se aquele olhar significava pena ou desaprovação, e resolveu nem se importar quando o garoto voltou ao prato e depositou um terceiro pão. Ele ia saindo quando a mulher o parou:

? Vocês têm uma lavanderia?

? Tem um tanque nos fundos. Lavamos as roupas lá, e também os cachorros.

Serviria. Agradeceu ao garoto, que se demorou à porta.

? Qualquer coisa que precisar é só chamar, Sra. Porter.

? Cecília, por favor.

Acenando positivamente, ele fechou a porta. A moça, Cecília, dirigiu-se à única janela do aposento e acendeu um cigarro, esquecendo-se da refeição trazida. Olhou para a cena lá em baixo: o tanque estava lá, e dois cachorros dormiam em uma caixa de papelão aquecida com cobertores velhos. Além do tanque, os fundos da estalagem guardavam um pequeno lago parcialmente congelado ladeado pela metade seca do bosque de ipês visto de fora, e um banco de madeira, há essa hora vazio, encontrava-se ao lado das águas iluminadas pelos postes de luz. Apagou o cigarro no beiral da janela e desceu as escadas. A velha não estava no hall, e o menino brincava com o gato no primeiro degrau da escada. Cecília saiu para o vento frio da noite e rodeou o prédio. Encontrou o tanque e os cachorros. Foi sentar-se no banco ao lado das águas frias e acendeu um segundo cigarro. Abraçou a si mesma a fim de se proteger do frio, mas era quase impossível sentir-se quente naquele ambiente onde a natureza reinava. As folhas secas que restavam nos ipês desprendiam-se de seus galhos e caíam na relva molhada, e o vento encarregava-se de levá-las para a fina camada de gelo que cobria o lago.

A alvorada era quase visível no horizonte além do bosque, e o céu escuro ameaçava abrir-se para o sol vermelho da manhã. A fumaça que expirava subiu de encontro ao ar gelado e juntou-se a cerração, formando um único emaranhado de fios brancos, como uma nuvem em terra. Enquanto observava um cachorro se encolher nos trapos quentes, pegou-se devaneando sobre o ocorrido. Na noite anterior, quando saiu do banho, apenas enfiou-se em uma roupa qualquer e desceu as escadas da casa sem pentear os cabelos ou passar seu perfume preferido. Ouviu o ruído da porta se fechando, o que anunciava a chegada de seu amado, cansado depois de um dia de trabalho. Não havia fantasiado sobre o momento, apenas ansiava pela felicidade, cuja alegria antes vivenciada já vinha ajudando a transbordar.

A expressão no rosto do homem transformou-se em puro desespero, traduzido em sua fúria repentina e no baque com que quebrara a cadeira em sua frente. O soco destinado ao móvel transportou-se em um segundo momento para a face da outra, enrubescida pelo ávido encontro de pele com pele. Um virou dois, que virou três e quatro, seguidos por lamúrias e queixas guturais, concomitantes à réplica desesperada de uma inocente alma. Em questão de minutos o rubro agravou-se e os sons extrapolaram o concreto, atraindo a escuta de vizinhos curiosos que aos poucos saiam de suas casas sem entender o que acontecia. Ela não sabia, mas uma vizinha intrometida chamou as viaturas, que chegaram para acabar com a festa.

Nunca soube muito bem como os eventos seguintes de desenrolaram. Encontrou uma mochila velha e despejou nela as mudas de roupa e os cigarros, esquecendo-se do resto. Quando se deu conta já estava descalça, seguindo a rua escura em busca de uma solução. Encontrou-a no posto da saída norte da cidade, onde conheceu o caminhoneiro que lhe daria a carona até ali. Haviam lhe dito para comparecer à delegacia, prestar queixas, render-se à burocracia, mas a única vontade que tinha era de morrer e acordar no paraíso, onde certamente acolheriam a si e a alma que carregava no ventre. Por um momento sentiu-se enojada, suja e esquecida, como o cão que se enrolava na quentura de seus trapos, mas lembrou-se de que na vida ainda havia esperanças, e que a única semente de felicidade que possuía poderia gerar bons frutos.

Apagou o cigarro na madeira gasta do banco e respirou fundo. O futuro se abria em possibilidades infinitas, e ela estava disposta a aceitá-las. Sua existência não se resumiria a um fato desgostoso, e deixaria que a amargura daquele encontro fosse levada pelas águas passadas. Pensando bem, o rancor não precisava ser guardado a sete chaves. Talvez resolvesse guardar somente a três, o que daria tempo suficiente para, talvez, elaborar o presente, livrando-se do passado. Agarrou o maço quase vazio e lembrou-se que deveria zelar não só pelo seu próprio bem, dali pra frente. Pegou os cigarros restantes, um a um, e quebrou-os ao meio. Deveria substituir seu vício... Talvez pela leitura. O dia recebia os primeiros raios de Sol, que chegavam trazendo propostas de mudança.

? Levante, Cecília. Levante – disse a si mesma.

Seguindo seu próprio conselho, levantou-se para a vida.

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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