Ela estava completamente destruída. Mais uma noite havia se passado e ela estava ali sozinha, se arrastando pelas ruas mais uma vez. Era incrível como as pessoas sempre sumiam, como as amigas sempre tinham que ir para a casa de alguém no fim da noite e ela nunca era chamada. Certo... às vezes, ela era chamada... mas não para a casa das amigas, sim para casas daqueles homens que ela nunca tinha visto antes e ela sempre acabava indo, ela sentia como se ela não tivesse escolha. Ela não percebia que tinha. Mas depois, quando saía da casa deles e mal conseguia guiar os próprios passos ela sentia nojo de si mesma. O nojo que estava com ela quase sempre, talvez o que ela mais sentisse por si mesmo, nojo e uma espécie de pena, do pior tipo, daquela que você sente e não faz nada, só sente, de longe e nada nunca muda. E nunca mudava, ela continuava se arrastando pelas ruas totalmente fora de si, tentando lembrar do que tinha feito e bebido daquela vez, quantas pessoas, quantas bocas, quantos corpos. Ela nunca sabia. Ela nunca se lembrava. Não lembrava porque há muito tempo decidira esquecer, precisava esquecer. Tinha tanta coisa para esquecer que hoje quase não se lembra de nada, só está por aí, sempre por aí, se arrastando pelas ruas com suas roupas caídas, o rímel que já desceu até bochecha carregado por um longo caminho de lágrimas que dividem e mancham o rosto dela para mostrar aos outros um pouco de quem ela é. Ela cai, levanta, cai outra vez e decide ficar ali. Alguma hora alguém vai aparecer e ajuda-la a levantar. Esse alguém não aparece porque ela não tem ninguém, nem dinheiro para comprar amigos ela tem mais. Ela continua se vendendo e fazendo de tudo, mas nunca está satisfeita porque nunca é suficiente para ela, nem a dor, nem a dor que sempre foi sua companheira mais próxima parece querê-la mais. Então continua procurando qualquer coisa que a faça sentir viva, qualquer coisa que a machuque. Qualquer coisa, ela só quer sentir, caída no meu daquela rua suja, qualquer coisa que a faça sentir.