Quando o sol se põe

21 de Fevereiro de 2012 Caroline França Contos 1057

Estava sentada sobre a areia da praia e mantinha o olhar fixo no mar. Seus cabelos negros ondulavam conforme o vento batia, e seu coração pulsava lentamente, como se tivesse medo de bater forte e se estilhaçar. “Quem ama, está fadado a sofrer”, pensou. Ela tinha plena convicção de que, o amor, nunca seria um sentimento capaz de incitar o que há de melhor em cada um. Pensava dessa maneira por ter sido magoada seguidas vezes por alguém que dizia amá-la. Para ela, quem ama não fere e, se o faz, com certeza não possui caráter algum.

Relacionamentos são difíceis, pois nada mais são que ligações entre pessoas. Estas, por sua vez, possuem qualidades e características que as diferem umas das outras e, assim, nem sempre é possível sustentar um vínculo harmonioso. Ela compreendia essa questão, mas acreditava que todas as divergências poderiam ser superadas se duas pessoas realmente se amassem. Suspirou e lembrou-se de todas as discussões bobas que tivera com seu namorado e que poderiam ter sido evitadas se ele tivesse cedido um pouco mais. Ela sempre se entregou completamente e desapontava-se pelo fato de ele não fazer o mesmo. A verdade, é que ambos tinham grandes expectativas um para com o outro e nunca estavam satisfeitos.

Em meio a tantas discussões e suposições, veio o fim. Era algo inevitável, mas que ainda deixava um resquício de esperança em seu peito. O sentimento não mudara, porém, a dor pairava em seu coração. Havia um medo eminente de seguir o seu caminho, como se isso significasse esquecer todos os bons e maus momentos que vivera, mas não podia estar mais enganada. Enquanto observava o vai e vem das ondas do mar, pensou no quanto crescera ao longo de seu relacionamento e chegou à conclusão de que as situações ruins serviram para dar-lhe maturidade. Enquanto as boas mostraram-lhe que é possível sim encontrar a felicidade plena. A vida é cheia de vai e vens - como as ondas -, mas isso não significa que estamos predestinados a viver em meio à amargura e ao prazer. Estamos em constante evolução e renovação, apenas.

As horas foram passando e, ao fitar o horizonte, percebeu que o sol já estava se pondo. Luzes alaranjadas refletiam nas águas do mar formando uma paisagem tão bela, que desejou que o tempo se estagnasse para que pudesse admirá-la até que sua angústia fosse embora. Carregaria consigo todas as lembranças e nunca, em hipótese alguma, deixaria que se transformassem em ressentimentos. Conviver com a saudade poderia ser algo árduo, mas o tempo se encarregaria de amenizá-la. A noite foi aparecendo de mansinho e arrepiou-se com a brisa gélida. De repente, tomou consciência de que, se sofrer era o seu destino, faria de tudo para contorná-lo, pois quem ama, não fere. Ela se amava, antes de tudo, e não iria machucar a si mesma. Levantou-se, espanou os grãos de areia que estavam em sua roupa e deu as costas ao o horizonte já enegrecido. Sua angústia se fora junto com o sol.


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