insanidade

23 de Fevereiro de 2012 Lorena Trevisanuto Contos 1101

É manhã.
O céu é do anil mais suave que eu já vira. As nuvens movimentam-se lentas pelo vasto campo azul, no qual surge um coelho. A leve brisa o desfigura e dá origem a uma nova figura – ou é apenas minha mente? –, e esta é uma pescoçuda girafa.
Sentada na cama, giro o tronco num movimento brusco e coloco as pernas para fora, que ficam flutuando no ar como pêndulos distantes do chão. O pé direito encontra o chão primeiro – superstições tolas. O esquerdo vem logo atrás. Caminho para a porta do quarto e encontro um extenso corredor. O sigo e viro à terceira porta à direita: o banheiro. Tomo um rápido banho e volto ao meu ponto de partida.
Visto o uniforme do colégio – aquele verde estava me enojando. Sento-me à minha penteadeira e penso em como será minha maquiagem. Aproximo-me do espelho, apanho a base e um pincel. Molho as cerdas delicadamente e aproximo-as de minha face. Escondo as roxas olheiras e algumas imperfeições. Entretanto hoje, em especial, não são as imperfeições de minha pele que me frustram, e sim a garota do espelho.
A garota me encarava com olhos meigos e falsos. Seu sorriso acompanhava os olhos. O cabelo dela estava repartido de lado, caindo em várias camadas de coloração cara e hidratações italianas. Seu colar de ouro e o pequeno pingente de diamantes eram banhados pela luz do sol. A pedra reluzia em mil centelhas na parede.
Estendi a mão devagar e a garota fez o mesmo. Quando estávamos a centímetros de distância, algo impediu que nos tocássemos. Aquele maldito vidro espelhado!
Ali, a centímetros de distância, a garota sorriu para mim. Aquele era o maior monstro que eu já conhecera. Fui fatalmente distraída com seu sorriso incredulamente dissimulado. Não prestei atenção em mais nada, a não ser acabar com ela. E então eu vi: ela estava segurando o frasco de perfume mais caro de minha boutique particular, o Channel nº 5.
Em uma fração de segundos, o pequeno frasco não estava mais em suas mãos: fora arremessado contra o espelho, que explodiu em milhões de lâminas voadoras.
Os pequenos cacos me atingiram em cheio, rasgando minhas roupas e todo o tecido de minha frágil pele, ao mesmo tempo.
Tentei gritar, mas mal consegui abrir a boca ou mesmo mexer a língua. Meu corpo correspondeu da mesma forma. Era possível sentir uma poça de sangue quente coagulando sob meu corpo, então me concentrei em respirar e tentar me manter acordada o máximo do tempo possível.
Corri os olhos pelo quarto, mas eu não via nada além de uma poltrona branca, parte da porta de meu closet e a penteadeira. Baixei os olhos e então me surpreendi: à minha frente, um caco havia caído de pé e se apoiado na penteadeira, exatamente no ângulo reto de minha visão. E lá estava a garota e seu sorriso, que não era mais falso ou dissimulado. Era de satisfação, o que fez-me surpreender novamente.
Mesmo estando gravemente ferida, a garota reunira escassas forças para mostrar a dentição perfeita, mas que logo esgotariam.
E então fechei os olhos, feliz pela garota levar o fim que merecia.


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