A viúva áspera

13 de Março de 2012 Folheto Nanquim Contos 9533

Célia era uma mulher com seus quarenta e cinco anos de vida e muitos cabelos grisalhos, tinha uma pele branca e fina, boca pequena e olhos azuis. Era uma senhora rica, com dotes e jóias, conhecida pelas redondezas, não tinha tantos amigos, era um tanto ríspida com as pessoas. Seu marido fora morto em uma troca de tiros com bandidos, Euclides, era policial, um grande e belo deles. Tinha um pouco de covardia, mas em si nunca havia maltratado sua querida esposa.
O velório e as cerimônias espirituais e administrativas tinham acontecido fazia seis anos, ela era uma viúva misteriosa, não tinha filhos, nem parentes e nem amantes, era uma charada para as pessoas, o que se sabia de Célia era que tinha uma loja de tecidos e pouco era vista. Em mais ou menos tempo se não doasse seus pertences e títulos a instituições carentes, o governo se encarregaria de tratar isso sem menor relutância.
O comum entre as viúvas da cidade era apenas um chá de consolo, onde as recentes e as conformadas viúvas se reuniam a cada dois meses para conversarem e colocarem suas experiências sobre a mesa, junto dos quitutes e a bela e lustrada baixela de prata. Como de costume Célia não participava, nem ao menos abria o convite enviado pelo correio a cada dois meses, o convite era algo belo e escrito a punho pela Sra. Campos, fabulosa professora graduada na Inglaterra, de uma educação e caligrafia, excepcionais.
O convite era selado com cera e um carimbo em alto relevo, parecia cômico nessa altura dos anos, alguém ainda carimbar da maneira antiga, como se fossem velas derretidas, isso não era nada de obrigatório, apenas um capricho da Sra. Campos, que fazia questão de que todos ficassem idênticos e da maneira que ela gostasse – depois de ter aprendido essa técnica da Universidade Inglesa. Tinha espessura mediana, comum de um convite de festas, com nome, data e local, escrito no português fiel e respaldado. Havia um brasão da reunião das viúvas e era dissertado um a um, de acordo com os problemas expostos no último chá.
Célia, todavia ignorava esse encontro, achava um tanto insolente da parte das organizadoras a convidarem com tanta insistência e tinha a opinião de que as pessoas não deveriam saber dos problemas e sentimentos dela. Era uma mulher muito sagaz, não se podia saber se ela sentia falta ou não do Sr. Euclides, era um tanto sugestiva suas atitudes.
No dia em que o finado marido morreu, houve uma grande dor quanto a perda do policial, uma quantidade expressiva de pessoas foram no velório, dar se com a viúva, suas condolências, ela, no entanto toda de negro, não derramou uma lágrima sequer, não estava relapsa, mas sim firme e fortemente ao lado do esquife.
Sua casa era grande, tinha portas gigantes, com uma tapeçaria de dar inveja, tecidos finos e alguns raros, devido terem uma loja de tecido, obteve alguns vindos da Índia, feitos por encomenda e exclusivos no mundo todo, com bordados e beleza ímpar. Tinha três criados e um cachorro grande, o Billy, esse se encontrava sempre fora da casa.
Não só bastasse a fama de estranha, Célia era esquizofrênica, tinha alguns surtos quando tinha que resolver coisas pela cidade e em negociações com fornecedores e clientes complicados, a tecelagem era seu pior problema, devido mudanças e inconsistência de preços, sempre flutuando, e deixando com olhos de lince para os negócios.
- Senhora, posso me deitar? Se quiser que faça algo mais antes?
- Susie, boa noite!
- Com licença!
Susie aparentemente já estava habituada com a severidade da patroa, mas não se incomodava, tinha essa personalidade complicada, mas nunca em seus anos de casa a tinha sequer humilhado.
- Oh! Quantos impostos e mais impostos temos que pagar, ainda mais resolver todas essas diferenças na tesouraria. Será que estão esquecendo ou ludibriando títulos? – Pensava o tempo todo em tantas coisas ao mesmo tempo que se parecia realmente uma louca, o coração não podia ser lido se era perverso ou não, mas o que se sabia era, que sua educação era da mais fina linha.
Após o verão forte e fumegante, o outono já criara uma atmosfera costumeira no horizonte, folhas e caules no chão, pessoas agasalhadas, dias frios e sombrios. Os aspectos preferidos de um gótico, mas nada que mudasse o cotidiano de ninguém, era apenas uma das estações e com ela toda a beleza intrínseca.
A noite era estranha, e as pessoas pelo contrário do que se pensa, eram muitas, havia uma festa na cidade, cheia de carros e pessoas pra lá e pra cá. Mas o fato que ocorrera e repercutira na manhã seguinte foi a seguinte matéria do jornal:
...”mulher com estatura alta encontrada morta em sua casa, com escoriações pelo corpo, cabelos arrancados e pele perfurada, acredita-se que seja uma quadrilha de meliantes, mas nada se pode afirmar, se o caso foi deliberado ou não, supostamente foi induzida a hipótese que fora assassinos armados com facas, punhais e cordas. Não há vestígios de sangue nem pegadas em sequer parte do quarto, uma morte ritualista e sem vestígios. O relato da policia foi que Célia Nogueira havia sido morta na noite passada de causas desconhecidas”...
A notícia se espalhou pela cidade como um sopro de fumaça do charuto, a polícia investigou possíveis suspeitos, como seus criados e vizinhos, os demais possuíam um considerável álibi, principalmente a criada mais próxima, Susie, que fora visitar sua família na cidade vizinha, três dias antes do assassínio e voltara um dia depois, logo após o comunicado do jornal.
O caso deixou a comunidade perplexa, com receio e apreensão. Os pertences, a loja e a mansão Nogueira, não tinham sido consumidos pelo governo, o cartório municipal descobriu que havia uma parenta, uma afilhada do Sr. Euclides da cidade próxima, nascida e batizada aqui, mas que depois de um tempo se mudara para outro município. Ela por sua vez humilde e de bom coração, já casada e com quatro filhos, herdou uma grande fortuna e uma empresa para administrar. Era uma moça jovem e inteligente, e o tempo e algumas pessoas encarregariam de ajudá-la, seja para a glória ou ruína.
E os motivos pelos quais Célia foi morta não se sabem até hoje, o menos provável seria de que fossem pessoas, pois ninguém explicou, nem mesmo a perícia, como foram feitos os furos pelo corpo da morta e qual técnica usariam para matá-la, e não deixar uma gota ao menos de sangue pelo chão ou lençóis. Uma morte inusitada e sombria, assim foi rotulada, com cerimônias fúnebres sutis e dois ou três pessoas, fora o padre e o advogado.

- M.Leite

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