Havia sobre as nuvens um pequeno anjo, que sonhava apaixonado pelo mundo que sob ele viviam pessoas amarguradas com a vida. Num certo dia, Deus o chamou para uma conversa.
— Por que tanto olha aquele mundo, meu filho?
— Vejo as pessoas andando, Senhor, e tenho vontade de estar com eles caminhando. Não sei de exato, mas sinto que meu lugar é lá. — o pequeno anjo olhou almejante para Deus — Alguns anjos me dizem que o mundo é feio, que nunca trocariam suas asas para viver com os humanos.
— E o que você pensa sobre isto, pequenino?
— Sei que parece loucura, mas lá existe uma parte minha... Não sei explicar, apenas sei que necessito encontrar com esta parte para que eu possa ser completo. É como se um falcão aventureiro se despertasse dentro de mim.
— Filho, você sabe o fardo que suas palavras têm?
— Sim, Senhor! Mas não vejo problemas quando sonhamos. Não há peso exato para sonhos quanto à realidade. Eu estou nas nuvens, os homens sobre a terra, ou a grama e as águas neste exato momento... Mas ambos sabemos que tudo está no meio do universo, onde não há peso que me impeça de voar.
— Posso então lhe conceder este desejo. — disse Deus.
O pequeno anjo perdeu suas asas, mas nunca se esqueceu como era voar. É como sentir o vento batendo em seu rosto quando andamos de bicicleta pela primeira vez. Voar nunca lhe fez falta. Ele não permitiu que o mundo poluísse seus sonhos, que suas asas fossem cortadas em sua fantasia mesmo quando o pesadelo invadiu seu peito, perfurando sua carne e quebrando seu coração. Nunca permitiu deixar de sonhar e principalmente de acreditar mesmo quando aquela bala perdia o atingiu bem na sua máquina de sonhos.
Talvez fosse mais fácil para ele, pois antes era uma criatura que pertencia aos céus. Mas o mundo nunca lhe pareceu feio. Nem na hora em que seus olhos se fecharam com dor, escorrendo lágrimas pelas suas finas bochechas.
Nossos olhos enxergam aquilo que desejamos que eles vejam. Não entendemos a morte, mas às vezes a vida pode ser a própria, com direito até a missa de 7º dia.
O pequeno anjo partiu feliz, sem dúvidas foram os dias mais felizes que ele viveu.
E sua morte fora a mais dolorosa que existiu.
Ele nunca se importou...