Noite passada sonhei que estava em Paris

28 de Abril de 2012 Jéssica Severo Contos 1199

Engraçado é quando a gente começa a sentir saudade do que nunca viveu e se perde em sentimentos e emoções que ainda nem sentimos. É louco, mas acontece. É um desejo, um sonho camuflado que fica no inconsciente, lá no fundinho, no quartinho escuro que cada um tem dentro de si.

Noite passada não foi diferente, depois de um dia estressante e cansativo, capotei na cama a fim de ter um momento de paz, de silêncio comigo mesma, mas fui perturbada por um terrível barulho do vizinho de cima, que por incrível que pareça às 21h de uma quarta-feira, resolveu passar o aspirador de pó na casa inteira. Aquele barulho começou a consumir meu ser e a despertar outro lado do meu ódio que eu ainda não conhecia. Depois de tanto relutar de um lado para o outro, mas sem conseguir devido ao barulho incomodo, levantei-me para fazer um chá e tranquilizar meus ânimos, que até o momento estavam bem exaltados.
Preparei todos os apetrechos necessários para começar meu ritual e dentre tantos chás que eu possuía o de erva-doce sempre seria o meu favorito. Gosto de chás, mas não sou muito ligada na história de cada um e nem sei para o que cada um serve. Só sei que o de erva-doce remete a minha infância na casa da vovó, acompanhado com um belíssimo e delicioso bolo de fubá. Mas nesse caso, sem o bolo de fubá.
Coloquei a água para ferver, peguei a caneca mais bonita que eu tinha e mais três bloquinhos de açúcar, iguais àqueles que mostram no filme A Bela e a Fera. No meu caso, só faltavam às xícaras falantes e o relógio e candelabro dançantes. Com certeza minha noite teria sido mais alegre. Com minha bebida quente favorita pronta, voltei para o quarto e me aconcheguei na cama, saboreando delicadamente cada gole do chá. Depois de alguns longos minutos meditando em absolutamente nada, percebi que o barulho tinha cessado e a paz tinha reinado novamente em meu ser.
Terminei meu chá e coloquei a xícara ao lado do meu prendedor de papel em formato de Torre Eiffel que tinha ganhado do meu namorado e ali tinha um papelzinho escrito: “Ei mandona, eu te amo! Tenha bons sonhos.” Inevitavelmente sorri lendo aquilo e uma enorme saudade invadiu meu ser. Esse lance de ‘ser’ tá meio bipolar hoje, diríamos.
Repousei minha cabeça em meu travesseiro e fiquei por algum tempo encarando meu lindo prendedor até pegar, finalmente, no sono.
Acordei pela manhã com uma sensação incrível de que tinha dito a melhor noite de sono de todos os tempos e de como tinha sido bom. Encarei o teto e sorri ao lembrar-se do que tinha sonhado. “Vento refrescante de primavera, sol frio de outono, passeava por uma rua que nunca tivera passado, mas era belíssima, impecável em detalhes arquitetônicos e exalava uma energia jamais sentida antes. E lá estava ele, parado bem no meio duma praça, segurando uma única peônia em suas mãos e meus braços não eram suficientes para abraça-lo, e minha voz queria dizer tanta, mas tanta coisa, que preferi ficar calada um tempo enorme, só o obsevando sem dizer nada, só olhando e admirando-o cada detalhe de teu rosto, cada expressão. E então, quando me aproximei, pude enxergar a vista que aquele lugar nos proporcionava diretamente, sem interrupções a torre mais bela que eu já tivera visto.”

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