O RADIALISTA

14 de Julho de 2012 ROOSEVELT Contos 1451

Desde menino que Afrânio tinha a voz bonita. Quando menino ele gostava de imitar o povo do rádio. Afrânio era um menino magro, alto, sarará, e com uma voz grossa que era percebida por todos. As meninas adoravam ouvir Afrânio conversar, e com ele passavam horas. Afrânio era desde moço uma pessoa do povo.

- Vou chamar Afrânio essa feira para fazer a propaganda de minha loja.

- É verdade, seu Simonal. Sem Afrânio, a gente tá ruim.

O rapaz era convidado para fazer as propagandas da feira. Ele tinha de se dividir em muitos para atender às pessoas.

- Afrânio, a Paroquia de Tobias está precisando de você na festa da santa.

A santa foi achada num matagal perto do rio Jabeberi, e até hoje não saiu de perto dele. Afrânio fazia a propaganda da festa da Padroeira de Campos de Rio Real desde menino adolescente.

- Afrânio meu filho, tá sabendo que em Itabuna vai ter curso para radialista?

- Não! Ademais Tobias não tem radio!

- É, mas, você caso faça o curso depois vai para a capital.

- É isso seu Mundinho! Parece que meu destino é o radio, e quando eu me tornar famoso eu vou lutar pelos pobres.

- Pelos pobres quem luta é Deus!

- Pois, meu slogan vai ser: “Afrânio, o radialista do povo e que se preocupa com você”.

O tempo passou pela força de nosso bom Deus que acode o mundo. Afrânio, agora mais velho, formado em radialista, pois, o rapaz estudou as técnicas de controle de áudio, regras do uso do sistema de comunicação, noções de português e legislação específica para a comunicação de massa. Ainda no currículo tem noções de inglês para o radialista dizer aqueles nomes estrangeiros com a pronúncia certa. O primeiro programa de Afrânio foi: “The love is here”. O uso adequado do artigo saxônico não foi ensinado. Mas, isso é coisa de gringo. Isso passa e o povo nem percebe.

- Afrânio, meu filho como tá a vida na capital?

- Seu Guilherme, Eu diria que é outro mundo. A capital é outra coisa!

Foi seu Guilherme, representante de lideranças políticas fortes, que conseguiu uma vaga no radio em Aracaju para o jovem tobiense. “Meu filho se você der certo, sempre fique ao lado dos grandes, num queira confusão!” Afrânio trabalhava na Radio Popular – “A radio do trabalhador”. Durante o dia ele vendia horário no comercio, e às onze e trinta da noite, ele fazia seu programa de segunda a sexta. As empregadas domésticas adoravam Afrânio, as cartas não paravam de chegar. A população da periferia de Aracaju foi dominada pela voz forte do jovem de Tobias – Afrânio de Menezes Neto.

Afrânio passou a acreditar em seu sucesso. Acreditava também no povo, e que o que o povo dizia nas cartas, ou no ar em seu programa, era verdade ou podia ser confiado. Uma noite, Afrânio acorda suado. Um pesadelo o perturbou o sono. Ele se viu mordido por uma cobra que saía de dentro de seu microfone. O microfone estava nas mãos do dono da radio, seu Anízio, ou o popular bigodão, ou beiço de meia sola – O homem tinha mistura com o povo do congo.



“Valha meu Deus!” Gritou o radialista. Afrânio acordou muito assustado. Ligou para seu grande mentor espiritual – O padre Clodoaldo. Clodoaldo era um homem polêmico, pois, misturava o culto católico com o espiritismo de umbanda. Ele dizia que se pudesse deixaria a batina para ser pai de santo, ou Pai no Santo como chamavam os antigos.

- Sim, meu filho abra seu coração! Afrânio contou o sonho a seu guru.

- É, Afrânio seu corpo mental denuncia a existência de um sentimento de arrogância em você. Não se condene por isso, pois, essa doença é muito comum em pessoas do radio ou da mídia em geral. O uso da parole no microfone, o assédio do povo, etc., provocam no ego do ser radialista a falsa sensação que tudo está sobre controle e que aquele objeto – o microfone é mágico, portanto, tem poder para mudar realidades. Ademais, a prepotência surge junto com a fama. Meu filho, sua pessoa realmente crer nas boas intenções da mídia? Ou na liberdade de expressão no radio?

- Sim, acredito nos dois. Disse o jovem Afrânio. O pároco fez o sinal da cruz e orou por seu pupilo e se despediu de sua jovem presença.

Afrânio se recuperou de seus pesadelos. A Radio Popular viu a fama do rapaz, e lhe deu um horário quente ao meio dia. “Afrânio, você vai ser o âncora do programa ‘roda de fogo’; faça por onde, viu?” O jovem de Tobias foi às nuvens. O povo da Vila de Campos estava orgulhoso de seu filho mui amado.

As mulheres não deixavam o jovem Afrânio quieto. O homem tobiense, via de regra, sentia muito calor nas partes fracas, e com a fama e sucesso, a pressão térmica de Afrânio aumentou.

- Mulher, num te conto! Você tá sabendo que aquele Afrânio que é radialista virou um garanhão? Dizem que ele emprenhou a filha do vereador Lucifelino Estrada?

- Quem? Fale mais alto! Num tô ouvindo não!

- Lucifelino Estrada, mulher, o das ambulâncias!

- Ah, sim, mulher, graças a Deus por Lucifelino!

- Num é isso não! Filha de Deus! O radialista emprenhou a filha dele!

- E foi? Cabra safado! Eu sempre disse que esses radialistas são tudo farinha do mesmo saco!

Assim foi com a filha de Lucifelino, e com a filha de Otaviano Diaz, e com a filha de dona Almerinda de Gois – “A vereadora que defende os professores!” Todas embucharam do radialista.

Afrânio passou muito tempo sem vir a Tobias. Alguém disse que se ele viesse a Campos, ele ia tomar chumbo na cara. Alertado em sonho na figura de um velho negro, Afrânio não viajava mais para Campos do Rio Real – O ilustre filho da terra fora traído por sua sensualidade.

- Afrânio quando você vai a Tobias?

- Rapaz, tô ocupado demais. Sempre que essa questão era levantada, e por vezes, de propósito, o radialista saía usando o trabalho e os afazeres. O tempo passou, as grávidas foram esquecidas, e as pensões muito bem pagas. Agora, Afrânio era o salário mais alto entre os âncoras da Radio Popular – “A radio que move o mundo por você”. Contudo, sua vida não era só bênção. A Radio Popular abraçara a causa política do deputado Coronelino Freitas Dantas. Este era o chefe político de um terço do eleitorado local. Coronelino percebera com sua intuição política que um grupo político emergente, formado por pessoas emergentes, sem sobrenome ou pedigree havia apontado no cenário político, e que esses nomes estavam na boca do povo.

- Prefiro mil vezes a época da ditadura! Disse o Coronel Coronelino Dantas. Esses filhos da peste num estavam vivo não! É tudo uma ruma de comunistas! Revolucionários! Maconheiros! É isso que eles são! Desabafou Coronelino.

- Mas, mas, (...), hum, o sinhô tá cum razão mermo! Seu Coronelino! Disse o diretor da Radio Popular.

- Pois! Quero que vocês só falem mal desses filhos da peste e de preferência joguem a opinião pública contra o jovem candidato de Cabrobó.

- Mar, quem? Seu Coronelino?

- O radialista de Cabrobó, peste burra!

O rapaz de Cabrobó esteve dando muito trabalho ao deputado. Agora, ele estava tendo trabalho. Afrânio atacava seus patrocinadores políticos na Radio Popular. Por causa disso uma parcela muito poderosa da política do baixo São Francisco começou a prestar à atenção a briga no radio. De um lado, Afrânio elogiava o trabalho de Coronelino a quem ele se referia no ar como – “O deputado pobre que faz tudo pelo carente”. Do outro lado, em Cabrobó, “Francisquinho do microfone dourado”, dizia que o cara em Sergipe, e em particular em sua região era o deputado Zé Maria da Chesf – “Luz é vida, luz para todos”. Zé Maria estava instalando luz elétrica em todo o sertão do semiárido sergipano. A briga política e radiofônica persistiu por meses. O jovem radialista Francisquinho, em uma madrugada de sexta feira treze foi assassinado em um posto de gasolina na cidade de Urubu, antiga Propriá. Detonaram o rapaz com vários tiros no peito e na cabeça. Afrânio se sentiu aliviado com a morte de seu opositor. A princípio, ele sentiu pena, por se tratar de um colega de radio, depois, sem perceber falava mal do finado. As entrelinhas de seu discurso diziam que a verdade estava com os assassinos. O pobre radialista de Cabrobó tornou-se o vilão da história.

“Se ele tivesse respeitado as autoridades, ele estaria vivo conosco agora; é lamentável! Mas, essa é a regra do jogo e devemos jogar segundo elas!” Gritava Afrânio nos microfones da radio amiga do povo.

- Tá vendo como Afrânio tá diferente mulher?

- Ele é muito é sabido, Cleonice. Ele quer é se fazer!

- E os princípios dele para onde foram?

- Sei não! Essa palavra aí, nem se escuta muito na feira! Deixa para lá!

Após a morte de Chiquinho de Cabrobó, Afrânio cresceu mais em popularidade em todo o estado. Os telefonemas de elogios não cessavam. Os convites para jantar com pessoas grandes não paravam. As entrevistas com autoridades do estado e de outros colégios eleitorais faziam parte, agora, da rotina do menino da Vila de Campos – um rapaz pobre que tinha a voz grossa.

- Rafael! Tá sabendo que Afrânio tá de carro zero e importado?

- E é rapaz!? Bem que meu pai me mandou ir fazer o curso e eu num quis. Fiquei mesmo foi no magistério.

- É se você fosse ser da imprensa a coisa seria diferente na greve num é Rafa?

- Rapaz, sei não! No radio a gente não fala o que quer; nós falamos o que nos mandam, mesmo que isso fira os nossos fundamentos.

- E é compadre?

- É. Pelo menos é o quer parece!

Afrânio cresceu como radialista apoiado nas costas de Coronelino na Radio Popular – Aquela que faz tudo, mas, tudo mesmo por você! Um dia de domingo, dia de nosso Pai Oxalá, estava Afrânio na casa de sua finada mãe. O rato mordeu a mulher e com a diarreia depois do ocorrido, a filha de Oxum desencarnou. Afrânio estava só, ou melhor, estava com Deus. Ele deitava numa rede no quintal da casa de seus pais no Conjunto Pinheiro. Foi lá que ele cresceu e aprendeu as primeiras letras. Já perto das nove da noite, o jovem radialista ouve um assobio que vinha de uma moita de samba caitá plantada no quintal da casa. Em Tobias, todos tem uma plantinha no quintal, nem que seja um pé de capim santo, ou um anador para dor de cabeça. Afrânio acha aquilo estranho e grita com muita coragem: “Quem é?” “Venha filho da peste!” “Olha o que tenho para você!” Afrânio segurou em sua mão direita à pistola cinza sete meia cinco cheia de balas. Mais uma vez ele ouve um assobio vindo de lá. O rapaz se levanta da rede, caminha com cuidado e atenção, e chega à um canto de muro com uma cobertura rústica sobre um fogão de lenha. No seu lado esquerdo havia um pilão de madeira que o pai de Afrânio herdara de seu avô. Sentado num toco de madeira olhando as chamas do fogão de lenha estava um preto velho de olhar muito sereno.

- Boa noite moço! Disse o encantado de Aruanda.

- Quem é o senhor? Como entrou aqui?

- Baixe sua arma que ela para nada serve. Não tem serventia para os mortos! O velho de Aruanda se ajeita no seu assento, toma o cachimbo com a mão direita, dá umas tossidas, depois levanta a cabeça e inicia sua prosa:

- O moço cresceu aqui. Aqui aprendeu a falar. A terra de Campos é chão de muitas mentes idas. A poeira deles se misturou a terra.

- O amigo fala de que?

- Eu falo do caroço que cresceu aqui. O beiço das águas mudou o rapaz.

- O amigo tá dizendo que eu mudei em Aracaju?

- Sim. Suas palavras não eram essas que sua pessoa diz. O amigo dizia diferente do mundo e do homem. Por que num volta a tocar música de amor? Seria muito melhor.

- O amigo tá dizendo que devo parar a política?

- É sim moço. Melhor um pobre vivo que um rico morto.

- Quem é o senhor? Alguém chama o radialista na porta da frente e ele sai para atender. Quando voltou, o fogão de lenha estava apagado e no lugar onde o homem estava ficou o cachimbo de madeira.

Afrânio pensou na visão um bom tempo. Muitas vezes depois do programa ele parava um instante pensando no velho de Aruanda. Mas, o tempo leva tudo. Afrânio esqueceu a palavra do velho e aceitou a candidatura para deputado a pedido do Coronel.

- Muito bem Coronel Coronelino, eu aceito seu convite, e tenha certeza que farei o possível para não lhe decepcionar.

- Meu filho, você vai longe!

- Como assim doutor?

- Vejo você como um grande homem pelo seu povo. Contudo, macho véio, olho aberto porque Zé não vai entregar os pontos não! A sua vaga é a dele. Mas, não se preocupe.

A matança começou cedo. Primeiro foi um pistoleiro de seu Coronelino. O homem estava na casa da rapariga, no bairro Santos Dummont, em Aracaju, quando foi alvejado na cabeça por três projeteis dundum. O homem havia acabado de pagar a biz que havia comprado para 12 vezes. Depois morreu o amigo de confiança de Zé Maria. O rapaz lavava a van que usava para levar pessoas de Cabrobó para os sem-terra na divisa com o estado de Alagoas. Zé Maria dizia que todos tem direito a terra. Sua fazenda só podia ser vista de helicóptero. Seu rebanho de gado de lei era estimado em milhões. Não havia um funcionário com carteira assinada em suas fazendas. Todos o chamavam de Padrinho. Comenta o povo que se você matar alguém corra para roça de Zé Maria. Lá ninguém mexe com você. A matança continuou. Morria um cá e depois um de lá. A audiência do programa de Afrânio crescia assustadoramente. Finalmente, o jovem radialista assume de vez que é candidato a deputado estadual.

“Quero avisar a meus ouvintes que vou cumprir meu dever cívico. Vou lutar por você meu amigo! Pai de família, dona de casa! Afrânio, o radialista do povo, abraça agora, sua missão maior em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!”

Não se comentava outra coisa na Vila de Campos. Afrânio deputado renovou a esperança da terra de ter um filho ilustre defendendo o seu interesse.

- Seu Euclides, agora, se Afrânio for eleito deputado, a fiscalização vai fazer vista grossa.

- Será? Já tivemos deputado, e nada disso aconteceu!

- Mas, com Afrânio vai ser diferente!

- Sim, e outra coisa. Tem gente grande que num está gostando de um cachorro vira-latas representando Tobias, não. Rapaz, tanta família boa! Colocaram logo um emergente!

Afrânio se afastou do radio para se dedicar a política. Estava sempre em Tobias em busca de novas alianças. No entanto, uma grande parte dos políticos oferecia resistência a sua candidatura. Certa noite, numa quarta feira, dia de Xangô, dois homens batem à porta de Afrânio, em Tobias.

- Seu Afrânio, eu trouxe o rapaz que sua pessoa queria falar. Ele está aí na garagem.

- Mande o rapaz entrar, Nestor! Afrânio ouviu dizer que havia um vidente em Tobias. Não se sabe como, mas, ele descobriu que um antigo religioso havia encontrado a paz na fé nos Orixás Sagrados de Umbanda. Apesar dos falatórios sobre o passado do vidente, Afrânio sabia que era tudo invenção do povo de Tobias. O rapaz não era nada daquilo. Tudo que Afrânio queria era entender a palavra do Preto velho.

- Pronto professor! Sou só ouvido!

- Se tu fosses só ouvido eu não estaria aqui hoje.

- Como assim?

- O que eu tenho para te falar; já te falaram antes! O vidente põe um cachimbo de preto velho sobre a mesa bem na frente de Afrânio.

- Você se refere ao Preto Velho?

- Sim, Senhor!

- Professor, eu vou ser eleito?

- Meu filho os homens que vão te matar andam na rua a tua procura. Saía de Tobias e deixe a vida política! Faça seu programa de amor e viva feliz! O vidente se levantou para sair da sala, e Afrânio tentou detê-lo com palavras. Todavia, o vidente de Tobias não queria mais conversa.

- Tome meu telefone professor. Qualquer coisa ligue para mim!

A morte de Afrânio chocou Sergipe Del Rei. Estiveram presentes em seu enterro autoridades locais e de Aracaju. O homem era muito cobiçado pela classe política. O povo da Rua Itabaianinha não se conformava:

- Comadre! Todo mundo sabe quem matou Afrânio! Coitado! Quatro tiros a queima roupa! Que covardia!

- Quem foi mulher?

- Mulher? Você acha que sou doida de abrir a boca. Lei do silêncio bem! Sou pobre, mas, não sou burra.

O vendedor de bujão, Francelino Fontes teve uma parada cardíaca no dia do enterro do radialista. As mulheres de Afrânio compareceram ao sepultamento com muita ordem e decência. Não ouve nenhum momento de tumulto. A multidão de gente – aquela massa cobiçada pelos caçadores de votos estava presente no último adeus ao radialista – aquele que se preocupava com o pobre. O vereador Austeclínio Silva Santos comentou com seu colega de mandato em tom muito grave:

“Se demorasse mais, o homem ia mudar a ordem; o problema é a outra ordem, a ordem dele”.

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