Magnétika- capítulo XI

Os meses seguintes foram de muitas alegrias; minha amizade com o Seu Jô se firmava; tínhamos afinidades, pois gostávamos de ler e escrever; com Gabrielle havia uns senões, pois nunca fui de frequentar danceterias e baladas, o que  ela amava. Fomos a uma delas, aquele, tum, tum, tum e as luzes piscantes. Fiquei num canto:

-Vem, dança comigo!- ela me puxava pelas mãos. Eu, desajeitado, tentava me chacoalhar no ritmo da dança. Ela, parecia feita de borracha e com molas nos pés, jogava os longos cabelos de um lado para o outro numa graça juvenil que encantava.
Eu me sentia um peixe fora d´água; não era o meu meio. Acabei voltando para a mesa. Ela voltou aborrecida:

-Vamos lá, poxa! Não viemos aqui pra ficar parados!

E lá fomos nós de novo; queria ficar longe daquilo, daquele barulho que entrava nos ouvidos; não era como os rocks , mesmo os pauleiras que ouvia, pois tinham uma melodia, mesmo que estridente, parecendo que iam derrubar um muro. Isso era um tum,tum, tum, que todos, inclusive ela, respondiam com um “uh,uh,uh, ritmado”. Era engraçado, até, mas , de repente:

-Ezequiel, quanto tempo...!

Tinha encontrado uns de seus “amigos”; realmente, ela estava linda, naquela saia curtinha e com aquela maquiagem que realçava os olhos. Era vistosa; qualquer um a desejaria.

- Esse aqui é o ...., meu namorado!
-E aí, cara?-demos um soquinho de mão com mão, como fazem os jovens, mesmo eu não sendo muito  afeito a isso.-Muito bom gosto, velho; ela é gatíssima!

Logo depois estavam dançando juntos e eu lá, pasmado e apático.
No fim de semana seguinte, bolei um programa que parecia incrível:
 
-Tem um festival de filmes tchecoslovacos; incrível; tem filmes que não vi ainda do Ladislov Scoropopov!
Ah,...tá!- disse, sem muito entusiasmo; sabia que ia para me agradar.
Chegamos lá no cineclube, que não era daqueles cinemas que conhecia; a primeira coisa que notou:

 “Cadê a pipoca?”

Não, não tinha; aqueles cinéfilos frequentadores não admitiriam o barulho de um balde de pipocas nas cenas de seu cineasta favorito. Havia aficcionados  e outros meio pedantes, discutindo com as senhoras de echarpe qual a cena e o filme favorito. Repararam  na sainha de Gabrielle; ali não era um espaço muito jovem. Tivemos que nos contentar com o mil-folhas e com o éclair de chocolate, que nas padarias chamam de bomba mesmo.
Pior foi na hora da exibição; o filme foi todo rodado com câmeras a corda; a iluminação era horrível, concordo, mas o que valia era o conteúdo: closes de cinquenta minutos na cara de um ator. A imutabilidade e o tédio do dia a dia representado. Na saída, perguntei sua opinião:

-E aí? Gostou do filme?
´-É gostei...só não muito daquela meia hora filmando a parede e as formiguinhas passando...Meio chato!
-Aquilo representa o movimento da vida! – tentei ser didático.
-É mesmo!

 Não senti convicção. Semana seguinte, meus pais, quer dizer, meu pai, o mais entusiasmado, convidou-nos para irmos à apresentação da Ópera de Paris que  vinha aqui por essas plagas. Tinha até comprado os ingressos; queria mostrar para os amigos ricaços a “linda namoradinha do filho”- queria mostrar que eu não era estranho ou misantropo, mas eu não deixara de ser. Gabrielle estava linda, quer dizer, mesmo com aquele vestido de formatura alugado e um pouco amarrotado que Dona Zulmira não conseguira passar. Ela cumprimentou a todos, inclusive minha mãe , com beijinhos, mas ela só estendeu a mão:

-Como vai? Está indo bem na escola?

Os amigos de meu pai vibraram; polidos na aparência, na surdina, sussurravam: “que mulherão!”

Começou a apresentação; aquele silêncio, mas Gabrielle logo se entediou e fazia comentários:”shhhhh!”- faziam alguns e eu passava vergonha. Minha mãe estava furiosa. Uma hora, depois de uma longa ária, ela acabou cochilando. Mais vergonha ainda. Éramos incompatíveis mesmo...