O fardo da poeira me deixou no chão, por algumas décadas. Um copo vazio, sala cheia de retratos. A cortina vibrava ao fundo com o jazz que passava pelo assoalho, acariciando suavemente pelas paredes, trazendo lembranças de coisas que precipitariam a mais densa alma, em uma queda de pluma à um feixe de luz prateada. Sentado ali, numa sala colonial, o cheiro da madeira envelhecida conservara conversas nos raros ruídos amadeirados. Uma roupa confortável, dois ou três botões abertos, com uma das mãos apoiando o queixo. Barba por fazer. E um pequeno livro com dezenas de páginas lidas, levemente amareladas genuinamente pelo tempo.

Descritos pelos reflexos da sala, meus olhos náufragos em lembranças, como se fizessem releituras mentais dos acontecimentos daquela sala. Podia ver os pequenos riscos que o salto alto vermelho desferira marcados pela execução de uma valsa de Debussy. Fecho os olhos e me lembro da silhueta leve, única, harmônica, mãos delicadas, porte de uma princesa. A doce voz cantarolando a melodia juntamente com a música.

Quantas e quantas vezes despertei pela manhã imaginando como seria bom se recebesse votos de um bom dia. Como seria bom se pudesse estar presente para ouvir as sonoridades do piano aos fins de tarde. Simplesmente, como seria agradável afagar seus cabelos ou sentir a fragrância da sua pele, única, particular. Ou ainda, a indescritível sensação de estar ao lado em dias nublados e chuvosos que nos prendem um ao outro, numa fusão clara e distinta, natural. E quando chega a lua, no silêncio do meu sono me lembro da serenidade dos teus sorrisos, e volto a sonhar.

Imbatível dores da ausência. As janelas molhadas pelas gotas dramatizam nossa cena de adeus. Tuas mãos em mim, implorando em ações que fosse guardada nas mais fundas câmaras do meu peito. Malas feitas. Promessas. Lágrimas. Meus olhares de confiança. Seus olhares de saudade antecipada. Nossas despedidas arrastadas em minutos de horas, talvez segundos. Atemporal condição do pulso acelerado.

Enfim, só. Prometi a mim mesmo que jamais abalaria esta casa com lamentações. Mesmo que não o faça, abato meu corpo contra as próprias culpas de não ter mantido você por perto. Mas vou me perdoar, um dia, quem sabe. Espero que esse dia esteja marcado não em uma lápide contendo minhas iniciais. Questiono qual razão carrego de manter meus braços mortos. Ainda vou te procurar. Não hoje. Talvez amanhã. Quando terminar de juntar os pedaços dos motivos, das palavras, das emoções... E quando tudo estiver pronto, colocarei dentro de uma bagagem e enfrentarei as estradas, perguntando as pessoas se por ali passou a melhor parte de mim.