Em sua mente, conflitos entre ninfas solares irresistíveis e a brisa agradável da maturidade feminina ecoavam: Rita era mãe solteira de um menino — mas ainda tinha alguns atrativos. Ela acreditava.

Ponteiros rugosos denunciavam bem além do que uma balzaquiana; e Rita, cansada de rasgar páginas tortuosas de seu calendário mental da solidão, decidiu buscar companhia. Alguma coisa qualquer. Tarde da noite, preenchia seu perfil em um site de relacionamento.

Ela teclava animadamente, até o momento em que deveria falar de seu filho; ali, Rita foi envolvida por uma névoa estranha. Em alguns segundos, tudo ficou claro: a mulher escolheu omitir ser mãe por questão — claro! — de segurança para a prole. Esta mãe-natureza... Até na era digital.

Não tão longe da superfície, não tão em seu íntimo, Rita conhecia a verdade. Queria mesmo era reviver os dias de outrora: voltar a ser a sereia solteira, desejável, sem âncoras de carne, oh, apogeu sensual! Para tanto, tinha que despejar às sombras o fardo da realidade de um mosaico de DNAs — seu e de outro homem — a atrapalhar seus flertes, a perturbar sua prospecção de machos do mais alto nível. Mesmo que fosse apenas uma curta partida, ela desejava, mais do que tudo, voltar a jogar no tabuleiro do mercado sexual e afetivo: queria saber qual o seu valor como pura fêmea — sem um débito inicial tão injusto e certeiro quanto um rebento-empecilho.

E Rita pensava, de olhos fechados e sorriso no rosto, nas mensagens que, acreditava, receberia — de doutores, empresários e personal trainers de vinte e poucos anos... "Quantas possibilidades! Que delícia! Eu ainda posso..."

"Manhê!", rasga uma voz rouca, de menino, a escuridão profunda que pairava no lar. O sorriso murcha no rosto da mãe.




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