O HOMEM DO ANTONIO PRUDENTE

06 de Novembro de 2012 ROOSEVELT Contos 1300

O HOMEM DO ANTÔNIO PRUDENTE

A UTI do Hospital Antônio Prudente, em Fortaleza, estava cheia de pacientes e de parentes desesperados sem saber o que seria de seus moribundos. Quando estamos em uma UTI, a vida e a morte se angustiam, cada uma deseja o seu lugar no mundo. O paciente do leito 501 era um homem que nascera em Sobral e viveu em Fortaleza até aqueles dias de agosto de 2012. As pessoas dizem que têm algo a dizer sobre ele. Dizem, até que ele teve a morte que merecia, ou que merecia que seu filho homem mais velho dissesse em seu leito de morte: “Eu não o perdoo”.

- Nego veio pega a lata de sinteco no carro!
- Qual pai?
- A que está no fundo! Presta atenção rapaz! Esse povo vive no mundo da lua! Após, fechar o carro, pai e filho entram em uma casa na Avenida Desembargador Moreira. A casa era imensa, cheia de quartos e detalhes que a transformavam em uma casa de “novela”.

- Pai! Olha a escada! A escada que unia os dois pavimentos da residência era do tipo helicoidal. Ela foi construída toda em vidro e metal. Isso chamou a atenção do rapaz que acompanhava o sobralense.
- Pai, que casa bonita é essa!
- Pertence a uma juíza de direito. Os dois deixaram os materiais na casa espetacular e seguiram de Belina vermelha para Rua Francisco Holanda 360. Na Francisco Holanda, as coisas eram sinistras, no entanto, o mundo para um menino autista de 10 anos podia ser bem diferente. Muito mais que os sons dos fonemas, a expressão facial do interlocutor dizia mais. Naquela velha casa que hoje passo quando torno ao Ceará, estava uma mulher morena, sentada em uma cadeira, no hall de piso ladrilhado verde. Seus olhos olhavam o mundo sem foco. As risadas de pai e filho cessam. Era hora de chegar ao santo lar.

- Alô! Sim, meu irmão como vai?
- Rapaz, o papai está muito mal na UTI. Venha para cá! Mas, como?
- Negão, ele caiu e daí enfraqueceu e está na UTI.
- Na UTI!
- Sim.

No aeroporto estava o filho mais velho de Pimentel a espera de seu filho mais novo que morava em Sergipe. De lá ambos seguem para o Antônio Prudente. Na UTI, debaixo de um lençol azul estava o velho sobralense.

- Rapaz, quando eu era moço, eu num dispensava uma cabocla não!
- Pai, é verdade que na guerra, Hitler mandou matar os judeus?
- Meu filho, fique certo de uma coisa. Se Hitler tivesse ganhado a guerra, ele hoje seria um herói.
- O judeu quebrou a Alemanha!
- E foi pai?

Uma enfermeira baixinha, com aparência de cabocla sarará se aproxima dos dois irmãos. “A visita está liberada, mas, só entra um de cada vez!” Ele entrou e eu fiquei. Alguns minutos depois ele volta. Seu rosto dizia muito. Ele estava triste, porém, as lágrimas, tão necessárias ao equilíbrio psicológico não chegavam, estas eram parentes muito distantes do moribundo. Entrei na UTI sob o som de respiradores e bipes de aparelhos esquisitos. Ouvir sua respiração, mesmo cansada, me era uma alegria. Meu coração não sabia o que sentir – a tristeza de estar perdendo-o ou a alegria de vê-lo depois de tantos anos fora.

- Meu filho, um homem tem que lutar pelo que quer. O Brasil nada vai te dar, exceto impostos para pagar. Meu pai dizia que este não é um país sério.
- Pai, eu vou estudar e procurar ser um médico.
- Isso meu filho! Olhe para mim! Tenho que trabalhar nas máquinas de sinteco para ter uma melhora de vida. Sua mãe se formou em direito, mas, não advoga.
- E por que pai?
- Olha, Helenice é meia (...), sei lá!
- Pai, eu vi minha mãe no hall falei com ela e ela nem me respondeu parecia estar dormindo de olhos abertos.
- Ela é assim mesmo, o Dr. Raimundo Vieira tinha esse jeito também.

O cheiro de éter e dos produtos de lavagem de roupas hospitalares enchia a pequena UTI particular onde estava seu Pimentel. Sua perna esquerda estava um pouco levantada, seu corpo imóvel e seus olhos cerrados. Pensei, confesso que ele não me ouviria.
- Pai se me ouves mexa a mão! Ele mexeu o ombro. As batidas de seu coração subiram de setenta e nove para oitenta e cinco. Alegrei-me muito em saber que meu velho pai me respondia ainda com vida. Logo depois veio a triste realidade – ele estava em coma e seu quadro não tinha mais volta.

Na copa de setenta, meu pai pôs a tevê, preto e branco, no hall de nossa casa, na Rua Francisco Holanda. Conosco estavam os cunhados e amigos da vizinhança. Lembro-me muito bem das festas na beira mar depois das vitórias do Brasil. Meu pai era um homem que, embora muito responsável com o trabalho, gostava de curtir a vida.

- Moço! Moço! Terminou a visita! A enfermeira sarará falou baixinho, mas, sua voz ressoou dentro de mim. Era um impedimento para ficar com ele. Tão pouco tempo! Fui conduzido por meu irmão vidente ao apartamento de sua residência no bairro Papicu. Um local muito bonito e repleto de gente granfina. O sertão; devo eu admitir, me fazia muita falta – a impessoalidade do povo da cidade torna a existência ainda mais reificada.
- Mano, vamos comer alguma coisa! Sai com meu irmão e minha cunhada para um restaurante. A picanha mais badalada da metrópole cearense. Comi o quanto pude, mas, o homem do Antônio Prudente não saia de minha cabeça cansada de tanta cabeçada.

- Nego veio o que foi isso? Perguntou Pimentel a seu filho mais novo.
- Foi uma pedrada que levei.
- Mas quem te atirou essa pedra? Tá sangrando!
- Eu, eu, joguei xixi neles e eles me atiraram pedras.
- Mas, você tá ficando doido? Como é que se joga xixi nos outros?
- Eles me chamaram de beiço de tamanco!
- Nego veio, você vai apanhar para não fazer mais isso. Meu irmão dava risadas enquanto o cinto castigava minhas costas que era pele e osso. Logo depois, todos estavam rindo das minhas loucuras. Parece que sai um pouco diferente do resto da família. Recordo-me de uma pousada que fui cujo nome não devo dizer. O armário do quarto me seduziu – deixei um pacote fecal apara a arrumadeira – estudei a psicanálise para entender isso, mas, confesso ainda não logrei sucesso!

Durante duas semanas íamos a UTI ver o nosso velho, que ora melhorava e ora piorava. A segunda parte foi a pior. Uma bactéria sem vergonha se instalou em meu pai. Tentei de tudo: Dizer que ele podia derrota-la mentalmente; clamei o sangue do cordeiro; impus as mãos; implorei aos espíritos, e por último chamei os Orixás. Nada adiantava. Pimentel queria partir. Nessas horas, o ser humano é tão pequeno que ele faz uso de qualquer coisa para obter o bem de quem ama. Minha alma sabia da partida dele, todavia, ela não queria dizer adeus.

“Pai, até hoje eu tenho orado para o senhor ficar conosco, mas, se é pior, é sofrimento, então, por mim, vá!” Ali, ao pé de seu leito de morte chorei e o encomendei a Cristo. Eu estava certo de viajar na sexta feira. Retornei ao apartamento de meu irmão. Fizemos antes o que a rotina impunha - fomos comer carne. Depois de noite, e no seu silêncio me perdi em meus devaneios. De meus lábios fluíam um poema muito lindo sobre a morte – “Oh, amiga morte!” O poema sumiu até hoje, mas, sua autoria parece não ter sido minha.

- Leite, Ana está grávida. Precisamos ir a João Pessoa!
- Mas, como pode? Vou matar esse filho da p...
- Ela telefonou hoje.
- Eu não a receberei aqui no apartamento, ela se vire com a barriga dela.
- Mas, leite. Onde a menina vai ficar?
- Se vire!

Eu olhava meu pai e minha mãe pelo canto dos olhos para eles não perceberem minha curiosidade. Eu tinha 12 anos, era um menino, mas, entendia que minha irmã não merecia aquilo e nem a criança que estava em seu ventre. Seu Pimentel fora ferido em seu orgulho. Fizeram com sua filha o que ele fez com a filha dos outros, nada mais justo. Tudo isso eu pensava. Uma tarde de 1976, quando o sol declinava escondendo-se no horizonte do mar de “Verdes Mares”, nas terras do “Dragão do Mar”, meu pai toca a campainha do apartamento 307, do Condomínio Parque José de Alencar, na Av. Barão de Stuart, em Fortaleza.

- Meu filho! Venho pegar minha rede.
- Pai, o senhor vai para onde?
- Não se preocupe, eu me viro. Só quero minha rede. Entrei em seu quarto, peguei sua rede e a entreguei dizendo: “Pai, eu te amo”. Acompanhei com as vistas até sua imagem sumir nas escadarias. O tempo passou, foram quase dois anos sem vê-lo, até que um dia à tarde, meu velho apareceu na casa da Silva Paulet. Meu irmão, já andava com ele, e eu andava sozinho. Aquele encontro foi muito ligeiro, rápido, mal deu para matar a saudade. Até que, finalmente, me distanciei da pessoa de Pimentel. Fui salvar o mundo da perdição e quase perdi a minha alma, e agora vivo no sertão entre juremas e mandacarus.
- Negão, tá aonde?
- Tô na casa de Sônia. Pois diga a ela que o papai piorou. Agora tem outra bactéria, ainda mais resistente aos antibióticos. Ele está fazendo hemodiálise, os rins pararam.
- Tô indo já. Fomos para o Antônio Prudente. Até então, eu acreditava em um milagre e que não veria meu pai morto. Eu o havia liberado, meu tempo em Fortaleza estava se esgotando, precisava retomar o ano letivo. Os sinais vitais de Pimentel estavam fracos, o coração de atleta sobralense, de um homem acostumado com a dureza da vida, pois, foi assim que ele conseguira o conforto na terra, estava se entregando aos poucos.

- Vou derribar esse pé de mamoeiro agora.
- O que pai?
- O mamoeiro morreu eu vou arrancá-lo.
- Pai, malta tá latindo muito. O velho se levantou e foi ao quintal já perto do canil improvisado. Lá estava uma cascavel que tinha vindo do quintal vizinho. Seu Pimentel tomou o gadanho e foi matar o anfíbio horrendo. Eu vi a coragem do homem e a força de seus braços brancos de veias azuladas. Ele ficou em pé ao lado do defunto da cobra; parecia que estava fazendo uma pose para um retrato que jamais sairia de minha cabeça. A bermuda caque, o gadanho na mão esquerda, e a direita encostada na parede branca do quarto das meninas. Sônia estava em Campina Grande e Ana em João Pessoa. Todos foram e voltaram, mas, eu fiquei, e parece que não mais tornarei a morar nas terras do caju.

Aquela noite em Fortaleza, três dias antes da passagem de meu velho Franzé foi muito marcante. O poema misterioso, as lágrimas, o vento suplicando na janela um pouco de atenção. E na minha mente a certeza que nunca mais o veria na terra dos vivos. Despedi-me de meu velho; no outro dia tomei o ônibus de volta para Sergipe Del Rei. Na viagem, no estado da Paraíba encontrei pessoas em Patos que conheciam a família Pimentel. Elas me receberam na entrada da cidade em frente ao cemitério. Eu nunca os vi antes, mas confesso, e quero que as estrelas caiam sobre mim; eles me acordaram antes de chegar a rodoviária. Uma alegria muito grande tomou conta de mim. Logo desci do carro e me dirigi ao balcão do restaurante; eu estava ansioso para saber que lugar era aquele.

- Senhora como se chama esse lugar?
- É Patos da Paraíba. Disse a mulher galega de beiços finos e olhos azuis. Logo seu marido chegou e se juntou a nós.
- Vocês sabem se aqui negociavam peles de animais? Na verdade, minha pergunta foi mera curiosidade. Meu pai dizia que seus ancestrais andaram por aqueles sertões. Eles eram negociantes de peles de animais. Eram os Sanfords do Ceará, descendentes de John Oshroe Sanford, um negociante de peles de Nova Iorque. Essa família se enraizou em Sobral, e se espalhou por várias partes do Brasil. Os Pimenteis, os Gomes, os Arrudas, e aí continua; dizem que são parentes diretos ou indiretos dos Sanfords de Nova Iorque. Esse tal John se casou com uma sobralense da família Monte que era parente de judeus. Eu, um caboclo cearense, de beiço de tamanco, sou um deles.
- Sim. Dizem os antigos que andou um povo aqui que era parente de um gringo. Ao dizer gringo, o homem coçou a cabeça e disse não se recordar do nome.
- Sanford! Sim, mas quem ficaram aqui foram os Pimenteis.
- Quem?
- Era um homem da família Pimentel que continuou a coisa até quando o negócio de peles perdeu a força. Os parentes desse povo ainda moram por aqui. Eu tirei a carteira de identidade do bolso e disse para o homem paraibano: “Veja o nome de meu pai – Francisco José Pimentel leite”. O galego arregalou os olhos e ficou a pensar no ocorrido. Foi uma coincidência de viagem. Contudo, aquelas pessoas que vi dentro do ônibus bem em frente ao cemitério, me deram muita alegria naquela noite de sexta feira pouco menos de 48 horas antes da passagem de seu Pimentel. O que significava tudo aquilo? Será que faço uma viagem que não é minha, ou que alguém já fez. O que faço nos sertões? Agora, pele só de cobras!

Seus órgãos pararam de funcionar na madrugada do dia 19 de agosto de 2012. Foi nesse dia que o guerreiro cearense deixou de ser uma lagarta para ser uma borboleta. Na há mais agulhas, ou canos ou tubos, ou máquinas para sustentarem uma vida artificial. Ele dessa vez não pediu uma rede antes de me deixar. Mas foi eu quem o disse: “Pai, pode ir. O senhor foi sempre um guerreiro e nessas condições humilhantes sei que sua pessoa não suportaria viver”. Seu coração passou das noventa pancadas naquele instante. Eu o deixei naquela cama do Antônio Prudente em Fortaleza. Nunca mais o vi. O que ficou em minha mente, e foi o que eu sempre pedira a Deus: “Pai, não me deixes ver meus pais mortos!”. Deus me respondera a oração, pois, o que ficou de meu pai conhecido, carinhosamente, por Franzé foi esforço de mexer o ombro esquerdo, o do coração – o que me disse: “Eu estou te ouvindo”.

O homem do Antônio Prudente, conto baseado em fatos reais. Tobias Barreto, 7 de novembro de 2012. Por Roosevelt Vieira Leite.

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