Helena e a Cigana

20 de Novembro de 2012 ROOSEVELT Contos 3871

Esta é uma estória não muito difícil de contar, mas com certeza você nunca a esquecerá. Recordo-me de tudo, embora, fosse minha pessoa, naquela época, muito nova. Eu morava em Sobral no Ceará. Esta estória nunca foi contada antes; ela aconteceu no ano de 1924. Em frente a nossa casa morava um português, dono de uma padaria na Rua Aurora. Ficava bem no alto do Cruzeiro, perto da praça Dr. José Tomáz. Na verdade era a única padaria pelas redondezas. A mulher do português sempre foi muito curiosa e por esta causa se encontrava em missões, como dizia: “missões secretas em nome da moral e dos bons costumes para que as famílias de Sobral vivessem a pureza de Jesus”. Seu nome era Helena de Lió, o pai dela era conhecido em Sobral como Seu Lió.
Na mesma rua morava uma cigana casada com um caixeiro viajante, este por força de sua labuta, sempre estava ausente. A mulher do português não deixava a pobre cigana viver, e havia jurado ao pé do cruzeiro da igreja que um dia flagraria a maldita no adultério. Dona Helena de Lió nunca desistia de seus objetivos e a cigana nem imaginava o que a aguardava.
Era uma terça-feira à tarde, e chovia muito em Sobral; o ano de 1924 foi de muita água no Ceará. Sobral estava debaixo de um dilúvio; as pessoas ficaram presas em casa ou na rua sem poderem voltar. A cidade parou. Alguns místicos disserem na Praça do Arco do Triunfo que era o fim do mundo, e que o Cristo voltaria em forma de mulher, porque assim os homens O respeitariam mais.
Dona Helena caminhava rumo à porta de sua residência quando ouviu a voz rústica do marido babando de raiva:

-Mulher, vais sair neste tempo?
- Sim, vou. Disse ela em tom suave.
- Estás louca, sua desnaturada? Sair debaixo desta chuva? Replicou o velho lusitano.
- Sim, vou. E preciso de teu guarda-chuva. Acrescentou a missionária de Cristo.
- Nem pensar! Como vou à padaria ver as coisas lá? Não senhora. Meu guarda-chuva, não!
- Mas, homem, como vou resolver meus problemas?
- Que problemas sua bisbilhoteira, pensas que não sei de tua reputação?

Com isso dona Helena se amargurou e trancou-se no seu quarto até a chuva passar. A danada não queria ir embora. Por volta das quatro da tarde, ela se aquietou tomando a forma de um chuvisco tímido. Dona Helena pensou consigo: “É agora ou nunca”. Caminhou de ponta de pé até a porta da frente, não disse nada ao marido, ouviu apenas o som desconfortável de seu ronco grave, e saiu.
A casa da cigana ficava no oitão do cemitério dos brancos. Em Sobral havia o cemitério dos pretos e o cemitério dos brancos. Conta o povo que os escuros eram enterrados em outro chão santo. A casa da pobre de Nossa Senhora de Cali tinha janelas que davam para o oitão do cemitério, duas para ser preciso. Dona Helena sabia disto e com certeza usaria essa informação a seu favor. Todas as terças um moço branco de feições finas, olhos claros ia à casa da cigana, entrava pela porta da frente, ficava lá até a noitinha, hora em que ele se despedia com um beijo na testa da senhora ainda na saleta de entrada. Helena sabia de tudo, pois a observava há tempos, contudo, nada podia provar, pois tudo não passava de especulações; era preciso o flagra. Embora as duas morassem na mesma rua, Helena nutria a ideia de observá-la de uma forma nunca feita antes: A visão de dentro do cemitério, a que dá para o interior da casa. Esse seria o flagra. Em vez de ficar olhando a casa à distância para ver quem entra e quem sai. Helena decidiu entrar no cemitério sem ser vista. Assim o fez, e logo dentro da terra santa, escondeu-se entra as carneiras de frente à casa da pobre cigana. Helena disse consigo mesma: “É hoje sua sem vergonha, pois, todos saberão de sua fornicação!” De repente, Helena escuta um psiu. Olha em sua volta e nada. Uma segunda vez, ela faz o mesmo e nada. Pensou ela consigo: “Será feitiço da maldita, feitiço de cigana?” Enquanto Helena conjecturava sobre os psius, uma forma de homem negro se aproxima de sua figura branca como pó de arroz:

- Você anda muito nervosa. Disse o velho escravo.
- Quem, eu? Você está falando comigo? Continuou Helena.
- Sim, sim senhora, falo com vosmercê.
- Você é real? Não estou sonhando? Disse a pobre Helena tonta com o que estava acontecendo.
- Tome um chá de folha de maracujá, é bom para teus nervos. Disse o velho Joaquim.
- O que fazes aqui minha filha? Continuou o velho com muita seriedade.

Helena estava com medo e não entendia o que estava acontecendo. Mesmo com dificuldade respondeu ao velho Babalaô com voz trêmula.

- Estou a flagrar uma mulher sem fé, sem Deus. Disse ela resumidamente.
- E é filha. Parece que a filha tá muito ocupada com isso, né?
- É.
- Que lugar é esse, minha filha? Perguntou Joaquim.
- O moço não está vendo, não! Disse Helena com ignorância.
- A filha não vê que os mortos estão descansando? Retornou o velho.
- Sim, é verdade, eles dormem, eu não!
- A filha acha que vai ver algo naquela casa? Perguntou Joaquim.
- Tenho certeza. Falou Helena com muita fé.

Joaquim olhou para a mulher da casa e para Helena e riu baixinho. Quando Helena virou-se para o velho, ele havia desaparecido. “Puxa, que velho rápido. Parece alma de outro mundo”. Pensou Helena. O jovem havia chegado à casa da cigana, com isso Helena dobrou a atenção nas duas janelas. Ali esteve imóvel quase sem piscar os olhos e por isso perdera a noção do tempo. A jovem senhora cigana conversava despreocupadamente com o estranho, enquanto isso, Helena come as unhas na esperança de um flagrante. Seus olhos estavam atentos às janelas quando ela ouviu um barulho de garrafa de champanhe quando a rolha explode do frasco. Ela virou-se para olhar ao redor e nada viu. Quando retorna sua atenção à janela é surpreendida com um som de chorinho, era “Jurity” de Benedito Lacerda. Curiosa Helena pensou: “De onde vem este som?” Saiu a jovem senhora de sua posição estratégica seguindo o toque de chorinhos como o de “Tocando para você” de Luis Americano. Sua curiosidade aumenta a cada passo, havia em seu peito uma estranha intuição. A pobre Helena está agora defronte a um grande Mausoléu que pertenceu à família Lepprevi de Sobral; gente muito grande. Sentada sobre uma lápide estava uma senhora de meia idade, cabelos loiros, pele de seda, e olhos azuis que doíam de se olhar. Sua boca pintada de batom vermelho escuro combinava com sua saia preta e vermelha e com a maquiagem de suas maçãs faciais. As listras eram pretas no todo vermelho do tecido de alto valor comercial. No busto havia uma peça de roupa, era uma blusa que seguia o mesmo estilo da saia. Seus sapatos eram pretos com salto alto. Suas meias eram pretas. Sua mão direita segurava uma taça do melhor champanhe francês e a outra um cigarro preso a uma cigarrilha. Agora quem cantava chorinho era Araci de Almeida, “flauta, cavaquinho e violão” e as duas mulheres se encontraram no cemitério São João Batista de Sobral.

- Oi, moça? Aonde vais? Estás perdida?
- Não, estou aqui, bem, não sei mais. Disse Helena confusa.
- Quer uma taça de champanhe?
- Não, não, se meu marido sentir o cheiro, me mata.
- Rá, rá, rá, rá. Riu-se a estranha, e depois continuou:
- Esses homens são todos iguais. Não achas?
- Sim, bem, não sei, são?
- Eles acham que podem tudo, não é?
- É.
- Tenho uma pessoa que quero que você conheça. Disse novamente a estranha.

Helena estava totalmente atônita e não entendia mais nada; havia nela a mistura de medo e curiosidade. Procurava olhar na direção da casa e não havia mais casa. O cemitério estava iluminado e com um som de chorinho incessante. Agora era a vez de Ernesto Nazareth com “Apanhei-te, cavaquinho”.

- Sabe moça, nós somos mulheres livres, nós duas fazemos o que queremos. Você não acha? Disse calmamente a estranha com a taça de champanhe dando uma tragada no cigarro.
- É, não sei, não entendo, o que é isso? Não sei mais de nada, onde estou?
- Está onde sempre estivestes. Este é seu lugar e de todas as outras.
- Como assim?
- Ainda estou perdida.
- Espere um pouco e verás.
- Espere o que?
- Espere acabar o chorinho.

Agora estava tocando “Brejeiro” de Custódia Mesquita. Helena o ouviu até o lugar ser tomado por um silêncio sepulcral. A noite densa cobria todo o local não se podia mais ver nada, a casa da cigana desaparecera, e nada restava de seu antigo intento. Helena não sabia mais se ela era ela mesma. O silêncio foi quebrado bruscamente por uma risada irreverente. Rá, rá, rá, rá, rá, é mojubá! Helena vira-se em todas as direções, tenta gritar, seu grito não sai, lembra-se de Maria Santíssima, mas a reza não flui. Do meio do nada, das sombras entre as catacumbas aparece uma figura masculina de traços finos, cabelos negros como a noite, alto, pele branca como a neve, e olhos azuis como diamantes, um homem cuja beleza encanta qualquer mulher. Helena viu-se sozinha com um estranho, e em vez de escuridão, o lugar estava tomado pelo clarão de velas vermelhas.

- Oi moça, você me chamou?
- Não, acho que não. Helena sentia uma profunda vontade de tocar naquele rosto. Seu coração saltava em seu peito. Suas entranhas revolviam-se como um estômago faminto.
- Então, o que fazes aqui? Esta é minha morada.
- Eu vim olhar... Bem, eu estou numa missão para desmascarar uma vagabunda.
- Que vagabunda? Todas as mulheres de minha casa são dignas. O rapaz aproximou-se de Helena e esta o abraçou dando-lhe beijos cheios de prazer. Havia nela uma paixão escondida como as almas daquele cemitério. Eles continuaram até Helena pegar no sono.

A chuva era intensa na antiga Sobral. Suas gotas grossas acordaram a mulher do padeiro português que havia vindo ganhar a vida nessas caatingas e nunca se arrependera de ter feito isso. Helena de Lió acordara pela força da chuva que logo cessara. O céu agora estava claro embora nublado e cinzento. As janelas da casa da cigana estavam abertas e dentro da casa saía perfume de sândalo. Helena levantou-se da sepultura onde estava e percebeu que sua roupa estava toda amassada e aberta. Seus seios estavam de fora, seu corpo suado. Havia uma sensação de ter feito amor. Podia sentir ainda a paixão encravada a suas entranhas. Compôs-se, e seguiu rumo ao portão passando por entre covas e sepulturas de luxo. Sentado embaixo do cruzeiro principal do cemitério estava o velho escravo cortando um pedaço de fumo de rolo.

- Lembras das músicas, senhora?
- Que música, moço?
- Aquelas de chorinhos: O “Flamengo” de Jacob do Bandolim? Diga-me, num dá para dançar?
- Não entendo o que o senhor fala!
- Nunca pensei que seria tão bem tratado por uma ilustre dama da sociedade.
- Como? Nunca tratei ninguém mal, e o que vi, foi só um sonho.
- Os sonhos falam grandes verdades. Disse Joaquim.
- Mas são somente sonhos! Não seja impertinente.
- Bem, viva com eles, pois sem eles é difícil viver. Onde está a vagabunda? Continuou Joaquim.
- Que vagabunda? Todas as mulheres são dignas; cada uma tem sua razão.
- A filha não pensava assim, num é verdade? As coisas mudam. A chuva dá forma às pedras. E nós nos alegramos com isso.
- Bem, boa tarde, moço!

Helena sumiu molhando-se na chuva que retornara subitamente. Parecia não ligar. Nunca mais a vi. Soube que ela passou a frequentar as rodas de choro da lira da cidade. Mudou-se de rua e seu marido nunca mais teve crises de ronco. Os dois tinham um segredo. O de Helena estava no cemitério, e o de seu marido, ah! Esse deixe para outra hora. O velho do cemitério um dia me encontrou aqui em Aracaju e me falou sobre o beiço das águas e que Oxalá falaria com o povo dessa terra de Tupinambá. Mas essa também é outra estória.

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