- É agora. - Sussurra ela. E imediatamente atira-se da ponte.
No percurso que segue o seu corpo até encontrar a água gelada do mar, lágrimas embaçam sua visão, e só o que ela vê é um céu cinza, com gotas de chuva e nuvens escondidas. Lembranças, aquelas que ela afastara da sua mente tantas vezes, voltam como num turbilhão. Os momentos bons, que nunca mais voltariam. Ela nunca pensou que lembrar de momentos assim causariam tanta dor. Talvez fosse melhor que nem houvesse acontecido, ou não... A dois anos descobriu que o namorado tinha câncer, e a três ele havia partido. Desde que ficou sabendo da doença, sabia como iria acabar. Ela queria esquecer, deletar. Mas não conseguia. Era dele que ela precisava, não da sua mãe, ou de um outro amor. Ela precisava dele. Dele, somente dele. Mas ele foi embora, e levou com ele, uma parte dela. Um grande vazio tomou conta, e ela não aguentava mais. Ela não aguentava mais desde o momento em que o câncer fora diagnosticado. Mas insistiu, resistiu, e finalmente desistiu. Ela não vivia somente no passado, pois ele era o motivo do seu futuro. Com ele não existe agora, nem depois. Só existe o nada. E sem ele não dá. Não dá pra acordar de manhã e não admirar o seu sorriso encantador. Os seus olhos curiosos. Sua boca macia. Os toques das suas mãos. Coisas tão simples, que pra ela, faziam, e ainda fazem, muita diferença.
O corpo penetra na água, e de longe pode-se ouvir o estalo do seu corpo furando o mar. Ela permanece de olhos abertos, prende a respiração, e espera, silenciosamente pela morte.