Solto um gemido baixo ao sentir os cascalhos e galhos arranharem meus pés. Tento para-los, mas, sem sucesso, continuo correndo com velocidade incomum. As árvores cobertas de neve transformam-se em borrões. Meu corpo desvia de todos os perigos naturais que surgem. Meus cabelos loiros e lisos debatem-se com o vento que é produzido pela minha velocidade. Não consigo manter o controle sobre meu próprio corpo! Meus ouvidos não captam o som, mas eu sinto que alguém grita desesperadamente.
Meus pés, de repente, encontram uma superfície fofa. O chão, em pouco segundos foi coberto por uma grande camada de neve. Minha velocidade vai diminuindo aos poucos. Uma sensação de alívio faz meu corpo relaxar, até ele desabar sobre o chão e meu corpo ser tomado por dores infernais. A minha frente avisto uma espécie de monstro, com a pena tão pálida e com os olhos tão sem vida que eu poderia dizer que ele estava morto. Eu poderia descrevê-lo com garras enormes, chifres pontudos e bem afiados, olhos vermelhos como pimenta, corpo forte e extremamente dotado de músculos e pelos. Mas ele não era assim, bom, eu simplesmente sabia o tamanho de sua fúria, o quão ele era perigoso, e o mais importante: sabia que ele não era normal, sabia que ele não era como eu. Mas o que realmente me intrigava é que eu nunca havia o visto, mas parecia que eu já estivera em sua companhia.
Segundos depois de fitar meus olhos intensamente, ele inspira o ar de um modo bruto, como se ele quisesse sentir o cheiro de algo, mas não estivesse conseguindo. Na minha cabeça, eu ainda estava tentando criar algum argumento lógico, para isso estar acontecendo. E ainda estava tentando me encaixar nisso. Eu sempre fora sem graça. Bom, talvez eu fosse tão sem graça, e tão ínutil que estava sendo punida. Ou não...
Sou arracanda de meus pensamentos quando ouço sua voz.
- Você sabe por que está aqui, e o que vai acontecer depois, não sabe?
- Se eu soubesse, eu já teria tentado fazer algo a respeito. - As palavras saíram como um jato. Nem pude freiá-las, porque elas ao menos passaram pela minha cabeça.
Eu me sentia estranhamente segura.
- Ora ora, temos aqui uma garota atrevida. - Ele sorri, sarcasticamente. -Mas deixe-me explicar, Groe. Devo começar por onde? Ah, já sei! Você não está sendo punida, mas tenho que concordar que, você é sem graça. Sua mãe, como todos nós sabemos, foi morta. Certo? Certo. Aquela bruxa desgraçada teve o que merecia. Opa, acho que disso você não sabia.
Silêncio. Então o tal demônio continua:
- Quando você estava prestes a nascer, sua mãe foi sequestrada, e forçada a me ressuscitar, caso o contrário, você não nasceria. Então as duas vontades se cumpriram: Você nasceu, e eu renasci. Só que, para acabar com a monotonia que havia tomado conta da minha vida, resolvi caçar vocês duas. Admito que me surpreendi com a força da sua aura. Achei que seria mais fácil eliminar você, mas estava totalmente enganado. Hum, sabe aquele dia em que você estava jogando bola com aquela garota estúpida que você achava ser sua amiga, e a bola caiu dentro de um lago, você foi buscá-la e algo lhe puxou pra baixo, querendo lhe afogar? É, era eu. - Ele diz, deixando transparecer todo seu orgulho.
E prossegue:
- Mas aí eu me dei conta que seria uma morte sem graça, e de sem graça já basta você. - Ele solta uma risada alta.
- A mãe da garota que estava comigo aquele dia, nunca mais deixou eu vê-la, pois pensou que eu estava ficando louca. Ela... Ela era a minha unica amiga. Como você pode? - A única coisa que eu queria era chorar, e morrer. Minha vida sempre fora um fracasso, e agora eu sabia porque.
- A raiva é uma característica bem comum dos demônios, Groe. Vá se acostumando com isso. Mas mudando de assunto: E seu pai? Já se perguntou aonde ele está? Por que ele nunca veio vê-la?
- Minha mãe sempre evitou falar sobre ele. E então eu pensei que ele havia morrido, e ela pra não me machucar nunca tocou no assunto.
- Ha-ha. Sua mãe mente muito mal, de verdade. Seu pai as deixou. Deixou porque é um canalha, e não queria morrer junto com vocês. E do mesmo jeito ele foi caçado, e no seu ultimo momento de vida, resolveu doar sua alma ao diabo. Como se isso fisesse muita diferença. - Diz o demônio, caçoando. - Diga-me, como quer que seja?
Esforço-me para não deixar transparecer o nervosismo em minha voz e digo:
- O que exatamente?
- Isso.
Todos os meus sentidos são vetados. Não consigo ouvir, falar, e nem ao menos ver. Tento me mexer, mas é impossível. Algo me trava, e é como se eu não tivesse mais corpo, não tivesse nada. E, através dos meus olhos não consigo ver nada. Nem uma imagem, uma lembrança. É como se meus olhos, que muitas vezes me serviram como uma espécie de televisão, estivessem fora do ar. Em seguida uma dor infernal me atormenta. Seria como se algo estivesse me rasgando por dentro. Como uma tesoura em chamas. Cortando tudo que há pela frente. É insuportável. É, realmente insuportável. Sinto, escorrer do meu corpo um líquido quente. Mas... Sangue? Ah não, sangue! Meu sangue era como ácido puro. Uma vez sobre minha pele, ia penetrando e entrando pra dentro, corroendo tudo que tinha após de sí. Era estantâneo. De repente escuto dentro de minha mente algumas palavras, mas minha dor faz com que eu não consiga manter o foco nelas. Sinto que minha coluna está desabando. A seguir a dor almenta. Eu pareço uma boneca, sendo desmontada, e queimada. E ainda por cima, viva. Sinto que meu cérebro está em chamas. E sinto também, meus miólos sendo queimados lentamente. Tento gritar, mas nada.
Meu coração de repente explode em mil pedaços e eu fico totalmente inconsciente.
Sussurros abafados acordam-me. Amedrontada inclino minha cabeça para fora dos cobertores que me aquecem. Meus olhos vasculham meu enorme quarto a procura do que sussurrara a instantes atrás. Mas nada encontro.
Cubro minha cabeça com o cobertor, e fico por um longo período tentando dar sentido ao que eu sonhara. O sonho foi muito real. Meu coração está acelerado. Sem perceber adormeço.
Acordo com uma forte dor de cabeça. Vou imediatamente para o banheiro, e tomo um banho demorado. Com a água quente para relaxar os músculos. Após me vestir para mais um dia de faculdade e deixar um bilhete para tia Rebbeca, dizendo que eu chegaria um pouco mais tarde nesse dia, saio pela porta da frente e noto que está nevando. Corro imediatamente para dentro de casa, e volto com um gorro verde, minha cor preferida. Sigo tranquilamente até chegar em um lugar que eu nunca notara antes, paro diante ele e fico a observá-lo. Como é que eu nunca percebi esse túnel do lado do restaurante onde mamãe trabalhava?
A neve começa a cair freneticamente. Eu nunca fora curiosa, mas, me senti estranhamente atraída por esse túnel. É como se algo lá dentro fosse revelador, e fosse meu dever checar o que era.
Depois de alguns passos lentos me infiltro no túnel. Por fora ele não parecia tão escuro e nojento. O teto estava dominado por musgos e plantas que eu tinha certeza de nunca ter visto. Ouço o barulho de gotas se espatifando no chão. Me viro pra trás, para olhar novamente a saída, mas ela não está lá. De repente entro em pânico.
- Minha nossa, como é que eu vou sair daqui!
Sinto algo cutucar meu ombro direito. Fecho os olhos com força. Vou virando-me sem pressa. Abro os olhos calmamente e me deparo com... A verdade é que eu não sei dizer o que é exatamente...
Quando meus olhos focalizam naquela figura, eu sei, instantâneamente que estou morta. Olho para minhas mãos, mas elas não estão mais lá.
A neve começa a penetrar dentro do túnel, por uma entrada de ar que fica na lateral. E o sangue que ainda restava no corpo de Groe escorre pelo chão tomado pela neve. O túnel desaparece, e permanece ali, somente neve e sangue.