Desabafo de um cidadão ao presidente da República

28 de Fevereiro de 2013 José Orlando Contos 969

A mídia estava presente, fotógrafos, repórteres e toda a equipe de jornalismos de TV. Ambos fechavam a rua junto de uma multidão de curiosos. Equipes de socorro e viaturas policiais também transitavam a avenida.
O fato era que um homem ainda não identificado fazia uma moça como refém na janela do segundo andar de um hospital. Não se sabia porquê, as pessoas simplesmente se deram conta da situação apavorante e alertaram as autoridades.
Agora todos aguardavam respostas, o comandante do GATE (Grupo de Ações Táticas e Especiais) iria finalmente negociar com o individuo.
__Aqui é o comandante Almeida do GATE, como é o nome do senhor?__ se apresentou pelo megafone.
Todos olhavam para cima esperando a resposta do malfeitor, este mantinha a vitima envolvida com um dos braços e apontava a arma para sua cabeça. A mulher não se mexia, deixando à mostra seus cabelos loiros compridos.
Um avião de papel foi lançado pela janela, caiu entre a multidão de curiosos mas foi logo interceptado pelos policiais e levado até o comandante.
Almeida o desfez e viu que se tratava de um numero de telefone e ligou conforme determinado pelo bandido.
__Quem está falando?__ indagou.
__Meu nome é José Carlos, eu não pretendo fazer mal a ninguém__ disse o homem com a voz tremula__ É só vocês colaborarem comigo que tudo sairá bem, passe o telefone para uma repórter.
__Senhor José nós estamos aqui para negociar, solte a refém e poderemos conversar tranquilamente...
__Passa logo essa droga!
__Sinto muito, senhor. Mas não posso fazer isso, eu sou responsável por esta operação.
__O senhor vai sentir muito quando alguma coisa mais séria acontecer. Eu quero negociar com alguém da mídia senão coloco tudo a perder!__ gritou.
__Tudo bem__ e passou a mão pelo rosto__ Atenderemos às suas exigências. Fique calmo.
Como ordenado o comandante obedeceu e passou a ligação para a primeira repórter que se dispôs a entrar na negociação, mesmo sendo um procedimento incorreto. A moça, bem vestida e de boa aparência mostrou-se nervosa ao mesmo tempo em que privilegiada pela oportunidade.
__Alô?__ ela disse.
__Com quem estou falando?
__Com Ângela Sandoval, sou repórter da...
__Ouça bem, eu quero que o país inteiro esteja vendo isso. Eu não confio na policia.
__Tudo bem, senhor__ e acenou para o câmera-man__ Estaremos ao ar em poucos segundos.
O rapaz se aproximou e iniciou a gravação dando todo o suporte necessário para a exigência do marginal.
__Já estamos no ar, senhor...
__José Carlos.
__Sim, seu José...
__Eu vou explicar pra você o motivo por estar aqui nessa situação e eu quero que repita tudo o que eu disser diante das câmeras. Você entendeu?
A moça passou saliva em seco, o suor brotava em seu rosto. Por um breve momento se arrependeu de ter aceitado a tarefa mas agora já era tarde, agora teria que ir até o fim.
__Sim, senhor pode falar eu passarei todos os detalhes para quem está nos assistindo.
__Meu nome é José Carlos da Silva, tenho 38 anos e vivo um momento de desespero. Minha vida teve uma reviravolta muito grande depois que minha esposa Sueli teve problemas de saúde...
. . .
Sueli era uma mulher madura, dona de casa e trabalhadora. Era um ano mais velha que o marido. Cabelos cacheados e um autêntico corpo de dona de casa já surrada pela vida.
Poderia ser detalhado a relação do casal desde o casamento há mais de dez anos, mas isso fugiria do contexto.
Nossa estória se inicia em uma manhã de domingo...
__Sueli, você está bem?__ José levantando da cama urgente.
__Não sei__ respondeu ela mostrando dificuldade em falar__ Estou com um aperto no peito, não estou conseguindo respirar direito.
__Nossa, vamos ao médico já.
Eles se dirigiram ao pronto socorro, de fato a mulher não estava bem. Era visível seu desconforto. O médico checou seus batimentos cardíacos, mas não disse nada. Encaminhou a moça para a enfermaria e chamou o marido de canto:
__Senhor José__ disse o senhor de cabelos grisalhos__ Eu não disse nada a sua esposa exatamente pelo descontrole de seu batimento cardíaco, eu vou fazer um encaminhamento para um cardiologista.
__Doutor, o que o senhor acha que é?
__Eu não posso afirmar com certeza, mas provavelmente seja sintomas de uma doença arterial.
__Puxa vida, então encaminhe o mais depressa possível...
__Esse é o problema, nosso sistema de saúde abrange um tempo de espera às vezes bem longo.
Uma consulta particular com o cardiologista não era barata, ainda mais para um humilde auxiliar de produção. Sem alternativa tiveram que esperar cerca de um mês para finalmente aparecer uma vaga, sendo que Sueli lutava todo dia contra a mesma situação horrível de dores no peito.
Foi constatado que duas veias arteriais de Sueli estavam entupidas, ela foi encaminhada a um cateterismo cardíaco para ser visto de fato quais veias deveriam ser desobstruídas. E nisso mais alguns dias de espera e sofrimento passaram, Sueli podia apenas manter-se livre de estresse para não correr o risco de um infarto.
Mas não era somente a mulher que estava passando por maus bocados, José já começava a sentir o peso da pressão ao imaginar o que de mal podia acontecer à esposa. Seu rendimento no trabalho caiu e sua estima já estava em baixa.
Após fazer o cateterismo foi marcada uma cirurgia que deveria ser feita com urgência, o caso já começava a ficar mais grave.
__Minha filha , é urgência não sabe ler?__ José protestava para a recepcionista do hospital.
__Senhor, o hospital passa por um período de greve. Alguns médicos estão em greve, estamos sem condições de realizar cirurgias, falta luva, mascaras, sem condições de assepsia enfim...
__Mas isso é absurdo!
__Mas é a realidade, temos que aguardar e assim que resolverem o problema retornaremos o contato__ explicou a moça com “aquela cara”.
Sueli entrou no assunto:
__Calma, José__ e o segurou pelo braço__ Vamos pra casa e esperar, não há outro jeito.
Ele concordou, teve que aturar o desaforo já que não havia outra maneira:
__É, pra isso que eu peguei aquela enorme fila no dia da eleição.__ ironizou.
Os dias se passaram e eles aguardaram aflitos algum telefonema do hospital, mas ao que parecia havia muito tempo pela frente.
Mas o tempo não foi fiel ao casal e o pior aconteceu: o infarto veio abatendo de vez Sueli.
A mulher foi levada para o hospital e socorrida pelos enfermeiros que ainda resistiam à greve, estimulados pelo amor ao trabalho.
Pelos corredores, enfermos e famílias revoltadas pela situação de descaso. Faltava administração e informação.
__Meu Deus, minha esposa! Como ela está?__ José gritava, angustiado.
O médico apareceu no corredor, pela expressão as coisas não eram boas:
__Doutor, como ela está?__ indagou em desespero.
__Acalme-se, senhor. Conseguimos impedir o pior, mas não por muito tempo. Se uma cirurgia não for feita hoje para desobstrução...__ e não terminou a frase.
__Mas... não há outra alternativa?__ com os olhos lacrimejando.
__Não, senhor. Poderíamos transferi-la mas os motoristas estão em greve.
__E se eu pegar um táxi?...
__E vai levar o equipamento em um carro comum? Vai levar um enfermeiro junto para fazer massagem cardíaca? Faça-me o favor.__ e saiu.
José ficou ali sozinho, em meio à confusão. Desolado e sem saber o que fazer segurava as lágrimas para não perder o único resto de força que ainda restava.
__Existe uma alternativa__ disse consigo mesmo__ E eu vou mostrar a eles.
. . .
E ali estava o homem com uma arma apontada para a refém desconhecida explicando finalmente sua situação aflita a repórter.
Já fazia uma hora que Sueli estava internada sob os cuidados dos enfermeiros e todo o tempo era pouco para a realização de sua cirurgia.
__Então a senhora sua esposa está neste momento internada no hospital, é isso?__ confirmava a repórter Ângela.
__Exato, e se não for prestada uma assistência urgente uma tragédia poderá acontecer.
Ela transmitia tudo ao publico, o titulo de vilão começava a ter menos efeito visto a situação tensa a qual sofria o homem.
O comandante Almeida interveio:
__Avise a ele que em meia hora será prestada toda a assistência a sua esposa, mas em troca queremos a promessa de que a vitima estará bem.
Assim foi feito e o homem concordou que faria conforme dito.
E neste meio tempo ele aproveitou o tempo para dizer aquilo que estava engasgado na garganta:
__Dona Ângela, eu quero que a senhora repita tudo o que eu vou dizer é um chamado muito importante. Tem muita gente assistindo esse programa, não?
__Sim, senhor José__ ela concordou__ Todas as emissoras estão transmitindo a ocorrência ao vivo. Pode falar, que eu transmitirei.
__O que eu vou dizer é um recado para o nosso querido presidente da Republica.
Ângela a partir de então repetiu todas as suas palavras:
__Senhor Presidente, estou aqui em nome de todos os brasileiros injustiçados e que assim como eu passam por esse constrangimento todos os dias. Pessoas que como eu levantam de madrugada para ir trabalhar, enfrentam filas em ônibus e dão o sangue pelo pão de cada dia. E enquanto nos matamos por um salário que mal dá pra cobrir o aluguel, temos que assistir pela TV a corrupção e lavagem de dinheiro rolando solta no plenário, justo por aqueles a quem confiamos nossos votos. É muito duro também saber que a cada passo que damos são cobrados impostos, talvez até mesmo pelo ar que respiramos. Eu por exemplo precisei de um hospital até porque é um direito meu, mas vejo que os preparativos para a copa estão mais organizados que esse lugar. Esse foi o único jeito que encontrei de arrumar tratamento para a minha esposa, talvez no país que vivemos seja a única maneira de impor nossos direitos. Espero que assim como eu os brasileiros imponham seus direitos nem que seja a força, é disso que esse país está precisando.
Houve alguns segundos de silêncio após as palavras da repórter, mas não por muito tempo. Os curiosos presentes começaram inexplicavelmente a bater palmas, emocionados pelo desabafo de José. E logo uma salva de palmas de todos ali presentes foi iniciada acompanhada de gritos de alegria.
Neste momento o comandante Almeida tomou o celular da mão da repórter:
__Senhor José Carlos, sua esposa está sendo atendida neste exato momento.__ disse.
__Muito bem, como prometido eu soltarei a vítima.
A janela do prédio foi aberta, e todos assistiram boquiabertos a vítima ser jogada pela janela.
__Não! __muitos gritaram em coro.
Policiais correram para salvar a vitima, mas tomaram um choque ao ver o que aconteceu: tratava-se de uma boneca de plástico e não muito longe estava jogada uma arma de brinquedo:
__Senhor comandante__ José disse em tom irônico__ Eu não ia querer que minha mulher fosse salva e eu fosse pra cadeia. Vão me prender por ter feito uma boneca de refém?
Este não respondeu nada apenas autorizando a entrada dos policiais ao hospital mas ainda com o celular no ouvido:
__O governo usa de outras formas para usar leis a seu favor para cobrar impostos. Eu utilizei de outra forma para cobrar o que é meu por direito, nada justo dar o troco, não é?__ e riu.

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