“Às memórias dos geniais escritores JEAN DE LA FONTAINE (França, século XVII d.C.) e ÉSOPO (Grécia, século VI a.C.), dois dos maiores autores da Literatura Infantil em todo o planeta.”



A LENDA DOS OVOS DO BOSQUE VERMELHO


Conta-se que há muito tempo, nas verdes e vastas florestas européias, os animais reinavam absolutos e protegiam a Natureza com suas próprias vidas. Porém, como diz a Sabedoria – “um reino dividido não subsiste” – eles não conheciam a plena harmonia.
Os lobos, carnívoros insaciáveis, dominavam a Cadeia Alimentar, pisoteando até suas primas, as raposas. Fuinhas, esquilos, texugos, castores, as aves e todos os outros animais eram vítimas subjugadas pelos sanguinários predadores. As raposas, também carnívoras, não ousavam enfrentar seus parentes superiores e seguiam suas regras como segundo grupo na Cadeia Alimentar.
- Focinho calado é futuro assegurado – gritava HARDONIX, o chefe da Alcatéia.
O lema definia perfeitamente a situação caótica das relações entre os animais do Bosque Vermelho. Quem fosse massacrado por alguém acima, massacrava quem estivesse abaixo, num círculo vicioso de violência. Foi então que a coruja ALADINA, rica em sabedoria, reuniu, secretamente, os animais da floresta, exceto os lobos e as raposas.
- Precisamos fazer algo, meus amigos, a situação já é insustentável. – iniciou.
- Nada podemos fazer Aladina, a não ser fugirmos! – disse GIMELLA, esposa do velho castor.
- Espere Ginella, ouça Aladina. – ponderou DÉRION, o velho texugo.
A sábia coruja palestrou sobre a Cadeia Alimentar e falou a cerca da escassez de recursos naturais que o clima e o domínio dos caninos agravavam. Lutar era a única solução para muitos, mas a líder da reunião obteve sucesso em conscientizá-los de que a união seria inútil se usassem a força bruta.
- Mesmo juntos, enfrentá-los é loucura! Suas mandíbulas podem nos matar com apenas uma mordida! – exclamou.
De repente, o esforço de Aladina foi recompensado. JUDITTHE, a galinha matriarca, deu o esboço para solucionar o problema:
- Se nós somos as presas, devemos nos substituir por outra fonte de alimentação!
Uns, como Aladina, aprovaram a idéia, já outros zombaram da galinha e reafirmaram a posição de lutar.
- Que idéia imbecil, galinha! Vamos à luta, animais do Bosque! – bradou FÉLIX, a fuinha.
As conversas tomaram um tom acalorado e o barulho incômodo trouxe os lobos ao local. Os machos da Alcatéia, liderados por Hardonix, atacaram de surpresa, espalhando os bichos pela floresta.
- Vocês estão vendo, meus irmãos?! Nem foi preciso morder ninguém, pois todos estão subordinados a nós. – chacoteava o lobo-chefe.
Escondidas numa gruta, Juditthe e Aladina se recuperaram do susto e finalizaram o plano.
- Juditthe, entendi perfeitamente sua idéia, apenas não sei como colocá-la em prática! – disse a coruja.
No outro dia, logo após o alvorecer, a reunião foi retomada, já em clima tenso.
- Vamos, Aladina, assuma que não há maneira de vencê-los. – dizia Gimella.
- Há sim, meus amigos! Vamos lutar! – repetia Félix, tentando tomar a frente do suposto motim.
- Cale-se, fuinha, deixe Aladina falar! – irritou-se Dérion.
- Temos que substituir o alimento dos lobos e das raposas até que consigamos aumentar nossa população para, enfim, dominá-los! – declarou a coruja.
Os burburinhos aumentaram novamente. “Devemos dar folhas a eles” – zombava a fuinha – “Nós prometemos dar nossas nozes, coruja!” – riam os esquilos. Tudo estava incerto, até que subitamente surge uma raposa entre as árvores e cala a assembléia:
- Ovos. Dêem ovos aos lobos.
O silêncio ecoava entre as respirações dos animais. Estáticos, eles ouviram a manifestação solo de Aladina:
- Quem é você, raposa? O que faz aqui?
- Sou VULPIX, filho do chefe da VULPÉIA, o grupo das raposas. Tenho o auxílio para seu contra-ataque, perspicaz coruja – respondeu respeitosamente.
Antes de ser questionado sobre sua idoneidade e lisura, Vulpix esclareceu a situação semelhante que sua classe vivia diante da hegemonia da Alcatéia. Ele contou que jurou por sua vida que libertaria sua espécie e todo o Bosque da tal dinastia violenta, e encontrara, na reunião, o caminho para sua ofensiva.
- Por que os ovos? – indagou a coruja, já acolhendo a raposa.
- Há certo tempo, antes de eu nascer, segundo conta meu pai, os lobos da região passaram a caçar descontroladamente e feriram gravemente o processo cíclico da Cadeia Alimentar. Então, famintos, se arriscavam trepando em árvores para comerem os ovos dos pássaros, já que não os podiam caçar, pois voavam. A medida insana tornou-se hábito e vigorou por muito tempo. Hoje, a situação que descrevi se aproxima novamente e usar ovos é a solução mais oportuna! – relatou Vulpix.
A coruja suspirou, enquanto era observada pelo Conselho abismado; sua expressão serena aprovara a intenção do canídeo. Juditthe se responsabilizou pela missão de ofertar, diariamente, os ovos aos lobos famintos. A galinha, lúcida e compenetrada como nunca, organizou a produção do alimento entre as aves e os répteis ovíparos. Entretanto, murmurações ainda ecoavam entre os carvalhos rubros do Bosque Vermelho: “entregar ovos com filhotes é o mesmo que oferecer sacrifícios” – diziam alguns. A tarefa de domar a resistência dos animais parecia, ás vezes, menos árdua que tentar confrontar a Alcatéia. Foi aí que Vulpix, a essa altura cúmplice de Aladina em inteligência, realizou a façanha de controlar os ânimos.
- Toda grande vitória depende de um grande sacrifício! – pausou – Se não forem ofertadas aos lobos agora, as vidas dentro dos ovos serão dilaceradas quando estiverem fora deles! – a manifestação da raposa mesclou choque e coragem dentre os bichos.
E a missão começou. Num canto do Bosque, oculto por grandes árvores, Juditthe comandou o início do depósito pelas fêmeas ovíparas da floresta. Enquanto isso, Vulpix retornou à Vulpéia e expôs o que acontecia para seu pai:
- Pai, o senhor já deve imaginar o que fiz nos últimos dias.
- Sua imprudência exacerbou os limites, meu filho. – respondeu-lhe com ar de desapontamento.
Em meio à conversa, duas outras raposas chegaram esbaforidas e em desespero.
- Sr. VULPENUM, a Sra. VERÂNIA foi pega pela Alcatéia! – gritou uma delas.
O líder das raposas não fez qualquer pergunta, apenas ordenou que as mensageiras o levassem até o local onde sua esposa estava, e Vulpix os seguiu, mesmo contra a vontade do pai. Quando lá chegaram, não havia mais ninguém, apenas se via um rastro de sangue entre os arbustos.
- Papai, eu sei que esse momento não é o melhor para retomar o assunto, mas vedes agora a razão de tudo o que fiz?! – disse Vulpix.
- Não sei como farão, mas se irão se levantar contra aqueles carniceiros, estou aqui, filho! – Vulpenum sacramentou.
Toda a fúria do mandatário das raposas contagiou subitamente toda a vida no Bosque. Assim que soube do seqüestro de Verânia, Aladina reuniu-se com Gimella, Dérion, Juditthe e Félix, numa clareira silenciosa. A produção dos ovos seguia de modo ágil e ajustado, mas a reunião dos líderes ganhou nova atmosfera tensa.
- Senhores, Hardonix raptou a raposa-mãe, Verânia. – declarou Aladina, em tom melancólico. – Antes que me digas que deveríamos ter te ouvido, Félix, eu confesso que talvez não seja possível conquistar nossa liberdade sem ferocidade. – completou.
Os outros presentes consentiram com a coruja. O silêncio natural do lugar tomou aquele instante; Dérion pediu a palavra:
- Aladina, nosso plano deve prosseguir, contudo, não creio que Vulpenum abrirá mão do uso da força.
Mais uma vez, a concordância manifestara-se, e todos concordavam que a guerra era iminente. A reunião de poucas palavras encerrou-se com muitas idéias, e a coruja convocou uma nova Assembléia do Bosque para a alvorada seguinte. Entretanto, antes que a conferência animal estivesse agrupada, Vulpenum convocou seu bando, traçou um ataque repentino e seguiu as pegadas de sua companheira. Na calada noturna, as raposas marcharam silenciosamente na trilha deixada pelas patas dos lobos e da refém Verânia; Aladina acertara: a brutalidade era inevitável.
À beira do Grande Rio Negro, maior fonte aquática do Bosque, a Vulpéia avistou o alvo. Vários machos estavam assentados, formando um círculo em volta da raposa-mãe e de Hardonix, que a fitava raivosamente.
- Então quer dizer que os animaizinhos da floresta estão tramando uma rebelião, Verânia?! – ironizava ele.
- Só queremos viver! – respondeu ela.
- Sábios antepassados meus diziam que o segredo da vida entre nós é a Cadeia Alimentar, raposa! – gargalhou – Que petulância é essa que os faz querer destruí-la?! – berrou o lobo.
- A Cadeia é sagrada, Hardonix. Mas vocês não estão agindo como ela manda, pois matam por soberba, por arrogância; aliás, matam por medo de perderem o topo, medo de o todo o Bosque finalmente compreender que vocês são minoria e que podem ser derrotados! – declarou ela de maneira suntuosa.
A cólera do lobo-alfa pairou no ar e seus comandados previram o que ele faria em seguida: com um golpe certeiro, ele cravou as mandíbulas no pescoço de Verânia. O sangue jorrou de sua jugular, enquanto a Alcatéia vibrava com a cruel sentença dada à raposa. Uma lágrima esfolou o focinho do chefe das raposas, que ordenou furiosamente o ataque: - Não matem somente, dilacerem esses bichos nefastos!
A cena foi atroz. Os primos canídeos se chocaram em garras, dentes e furor. A investida foi sucumbindo diante dos dominadores lúpulos – vorazes guerreiros – que dissolveram a rebelião da Vulpéia. Ferido por todo o corpo, Vulpenum gritava para que seu grupo abortasse a ofensiva: - É insano prosseguir! Fujam! Vivendo, terão nova chance de derrotá-los! Rápida e desordenadamente, as raposas acataram a última ordem de seu líder. Em um sofrível suspiro, a raposa-alfa fitou sua companheira nos olhos e, ainda viva, ela correspondeu-lhe o olhar; ali ficaram por alguns deliciosos momentos. Suas vidas expiraram juntas, unidas para sempre.
O silêncio da tragédia dos rebelados foi rompido por um longo e poderoso uivo de Hardonix. Estava altivo por sua atrocidade, elevava-se pelo triunfo final sobre as raposas, traidoras em sua concepção.
- Bradem ó lobos do Bosque! A pérfida Vulpéia ruiu, e com ela emerge ainda mais nossa soberania! Bradem ó senhores, pois hoje cearemos fartamente! – discursou ele.
A notícia da lúgubre madrugada correu veloz até os ouvidos de Aladina. Pouco antes do amanhecer, a coruja foi despertada por dois amigos canários:
- Senhora, senhora! Vulpenum e Verânia morreram! As raposas atacaram os lobos secretamente e foram subjugadas!
A coruja ficou pasma por alguns segundos. Um estalo lhe incomodou a mente: - Vulpix estava lá? A resposta negativa de seus parceiros acalmou-lhe; foram procurar por ele. Num vôo veloz, as três aves chegaram à pequena gruta onde a raposa habitava. Estava vazia. Os pássaros sobrevoaram a área e um dos canários gritou:
- Senhora, Vulpix está ali, há uns cinqüenta metros de nós.
- Sozinho? – indagou a coruja.
- Não, um bando de animais o acompanha! – exclamou o canário.
Em uma grande clareira formada entre as maiores árvores do Bosque, Vulpix urrava ordens e frases inflamadas a uma multidão de machos de todas as espécies. Aladina se aproximou junto à sua escolta aérea, pousou no galho mais alto de um carvalho vermelho e assistiu à cena.
- Machos do Grande Bosque Vermelho, o sangue das raposas convoca nossas vidas! Até meu fim, eu prometo, os lobos serão derrotados! À liberdade, filhos do Bosque! – a raposa finalizou o discurso.
O exército formado às pressas rompeu o silêncio do amanhecer e marchou até o Grande Rio Negro. Contrariando sugestão dos canários, Aladina não se uniu ao bando e foi encontrar-se com o Conselho do Bosque, onde a produção dos ovos do dia estava começando. A notícia dos acontecimentos da madrugada e da alvorada deixou atônitos os companheiros da coruja.
- Teremos que lutar, Dona Aladina! – estabeleceu Félix, a fuinha–macho.
- Chegou o dia crucial do nosso intento, Aladina. – concordou Dérion, o texugo.
- Sei disso tudo, senhores, eu apenas lamento que ele tenha chegado tão rápido e dessa maneira! – disse a coruja.
Os conselheiros e todas as fêmeas ali presentes consentiram com a situação e também seguiram o caminho por onde as tropas de Vulpix marchavam. Como disse o velho texugo, realmente o dia decisivo chegara. Todos os machos adultos e todas fêmeas adultas fora de condições maternas uniram-se a Vulpix no confronto final. Pelo caminho, outros animais iam se juntando à armada; inclusive o Conselho.
- Vulpix, nós estamos aqui com e por você! – rendeu-se a coruja.
- Senhora, nós venceremos! – a raposa resumiu a ela tudo o que seu coração exalava através de sua ofegante respiração.
Assim que avistou a Alcatéia, o líder–herdeiro da Vulpéia chocou-se ao ver seus pais estendidos no chão; mortos. Seus olhos lacrimejaram por não ter podido evitar a tragédia. Uma lágrima esfolou seu focinho – sentiu o coração de seu pai pulsar em seu peito.
- “Legião dos Carvalhos Vermelhos”, ataque! – ele bradou.
Os animais acataram instantaneamente à ordem da raposa. Hardonix, que dormia numa toca perto dali, despertou sob os urros agonizantes de seus comandados. Três raposas que sobreviveram à batalha que matou o casal real da Vulpéia, levaram Vulpix até o abrigo do lobo. Na entrada da toca, a raposa-chefe ordenou que seus escudeiros ficassem escondidos atrás de um arbusto. De dentro, Hardonix viu seu maior inimigo sozinho e mordeu a isca. O líder dos lobos saltou sobre seu oponente, o último conseguiu se esquivar e as outras raposas atacaram e imobilizaram o perverso canídeo.
- Seus dias tirânicos findaram-se hoje, Hardonix! O Bosque todo lhe verá morrer! – enraiveceu-se.
As quatro raposas arrastaram o lobo até o centro da batalha, onde a Legião, esmagadora maioria, já havia dominado a Alcatéia. Quando viram o lobo-alfa totalmente inofensivo, as tropas fizeram ressoar brados, urros e uivos de vitória por todo o Bosque.
- Essa é a nossa vingança! Sagradas espécies do Bosque Vermelho, hoje, vós vereis nossa redenção com o vil sangue do inimigo! – sacramentou Vulpix.
O suave sorriso que Aladina estampou no rosto ao ver o triunfo deu lugar a um semblante pasmo e reprovador. Com o auxílio de alguns camaradas, Vulpix deitou Hardonix sobre uma grande pedra chata e sentenciou:
- Bosque, eis a nossa íntegra liberdade!
A raposa escancarou as mandíbulas vagarosamente; seus dentes aproximaram-se da garganta do lobo; Aladina foi ágil, voou até a pedra e gritou:
- Não o faça, Vulpix! A fidedigna alma do Bosque não é nem parcialmente semelhante à tirania da Alcatéia. Nós não somos iguais a eles!
O filho de Vulpenum não compreendeu, afinal, todos os desígnios arduamente traçados haviam alcançado sua meta. Dérion saltou de seu lugar e agarrando-o, disse:
- Senhor, nossa soberania emana dos instintos mais puros, sábios e eternos dos animais. Quando nos oprimiram, os lobos negaram a verdadeira razão de nossa existência: cultivar e equilibrar todas as obras do Sumo Criador.
As manifestações de piedade da coruja e do texugo enterneceram o imo da raposa.
- Filhos do Bosque Vermelho, nossa verdade renasceu, infelizmente com sangue, mas nenhuma ferida será curada senão por misericórdia. Sábia Aladina, sábio Dérion, estais certos. Ordeno, portanto, a Alcatéia que fuja para longe e não volte nunca mais! – sentenciou Vulpix.
Entretanto, na sublime voz de um rouxinol, a sabedoria mais uma vez concluiu seu propósito. De um alto galho, SILVIUS declarou:
- Meus senhores, permitam-me. Creio que todo nosso intento dos ovos não deve ser desperdiçado jamais, sendo, portanto, entregue aos seus destinatários, os lobos. Por fim, também acredito que se os expulsarmos nós feriremos gravemente a Cadeia Alimentar que com imenso fervor defendemos. Essa é minha modesta apreciação, meus senhores.
Num gesto simples, Aladina aprovou a idéia, precedendo a vibração positiva dos animais presentes. Acuada, a Alcatéia agradecia a bondade dos vitoriosos, enquanto revoadas de pássaros se lançavam aos ares anunciando o triunfo. Vulpix teve um lapso, fitou o nada, e como se ouvisse seus pais, finalizou o ilustre momento:
- Pela memória de meu pai e de minha mãe, quero entregar a Aladina o governo do nosso Grande Bosque, para uma nova era de paz e de todos os puros instintos dos animais.
Dessa vez, foram as penas da coruja que foram embebidas por lágrimas jubilosas. Os bichos vibraram, coroando a nova líder com urros, uivos e brados de louvor. Entre os imponentes carvalhos rubros, a raposa desapareceu sem ser notada.
Havia chegado o tão sonhado tempo em que nenhuma gotícula de suor e sangue torpe molhava o chão, mas apenas as gotas da chuva tocavam o solo ao entardecer, anunciando outro dia de paz, equilíbrio e eternidade...