Memórias

11 de Maio de 2013 Silenced by night Contos 774

“Leve-me para casa
Eu não tenho medo
As estrelas nos meus olhos
Eram luzes cintilantes
Leve-me para casa
Não me deixe desaparecer”
(The Killers – Carry me home)


Sofia procurava por entre os bilhetes uma memória esquecida. Sentia seu estômago revirar a cada nome que encontrava escrito nos papeis. As palavras, harmonicamente desenhadas, evocavam as vozes que tanto a atormentava, mas ela se sentia realizada por ter mantido aquelas lembranças – eram as melhores que podia ter e compensavam por muitas outras que não gostaria de ter. Mas lá estava, um pedaço de papel de caderno, rabiscado por letras ilegíveis, aquele que ela procurava.


“Querida Sofia...” ela não tentou concluir a leitura. Lembrava-se de cada letra, cada palavra, até de cada pontuação errônea que lhe dava nos nervos. Lembrava-se dele. Do seu sorriso maroto, do seu olhar cativante, da sua voz suave e rouca, dele. Não tão distante, teve de se despedir. Abandonar todos os risos que com ele dera, todos os abraços que dele recebera, todas as palavras que um dia já ouvira. O tempo passa, e a mudança é inevitável. Separaram-se para nunca mais se encontrar, mas o sentimento perdurou por todo o tempo. Até agora.


Em suas palavras restou o pedido: não permita que isso acabe. Mantenha a chama viva da tua alma, deixe com que as memórias se imortalizem, lembre-se sempre de mim que, assim, me lembrarei de ti. Sofia levou consigo, em sua alma vermelha de paixão, todas as lembranças, como se fossem sagradas para toda a vida. Mas, conforme o tempo passava, e a distância aumentava, sua alma tornou-se de um tom vermelho vivo para um esverdeado vibrante – a esperança era tê-lo de volta. Pobre Sofia, mal sabia ela que o retorno não aconteceria.


Perdeu suas esperanças, enegreceu sua alma. Já não sabia o propósito de mais nada, mas ainda mantinha, bem guardadas, as cartas a ela endereçadas. De início, lia e relia cada frase, procurava sentir as memórias. Sentava-se próxima a janela, perdia-se ao meio dos montes de papeis. Mas, por cada vez mais que insistia naqueles rabiscos, Sofia já não encontrava o sentido. Naquele dia mesmo, em que se decidira abandonar as lembranças que só a impediam de seguir, o sol brilhou mais forte e o céu, num tom de azul pacífico, tornou-se limpo. Era um grande passo, que ficaria para uma outra história, mas não custa dizê-lo aqui mesmo.


Sofia desprendeu-se do passado, o seu olhar brilhava ainda mais do que antes. Estava livre e sentia-se bem. Aquelas cartas não foram destruídas, mas deixadas de lado. Sorria alegremente ao ver o dia amanhecer. Sorriu ainda mais quando reencontrou o olhar que cintilava ao encontrar o dela. Os olhos castanhos e aconchegantes, o sorriso perfeito e o calor do toque fez com que Sofia se esquecesse daqueles montes de papeis que tivera separado. Mas, embora ela não percebesse, a memória se fazia, naquele outro alguém, eternizada. Aquela era a lembrança que não desvanecia.

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