Fênix

11 de Maio de 2013 Silenced by night Contos 834

“Eu quero reconciliar a violência no seu coração

Eu quero reconhecer a sua beleza, não só uma máscara

Eu quero exorcizar os demônios do seu passado

Eu quero satisfazer os desejos secretos do seu coração”

Undisclosed desires - Muse

Dizem que vermelho é a cor da paixão. Eu discordo. Deparei-me com essa cor em diversas situações e em nenhuma delas havia paixão. Vi olhos vermelhos de raiva e o sangue, num tom de vermelho que eu desconhecia, de pessoas com quem me importava escorrer, levando suas vidas neste rio. Às vezes tento fugir da minha realidade, escapar desses falsos vínculos que, para mim, não significam nada.

Os meus dias são sempre os mesmos. Sigo uma rotina e tenho de sempre tomar cuidado com quem contato e, até mesmo, com quem percebe a minha presença no decorrer do dia. Sou uma fugitiva, como já disse, da minha realidade. Mas nem sempre essa sou eu. Meus pais foram mortos há doze anos, quando eu ainda era uma criança. Eu teria sido pega, se os criminosos fossem competentes e se eu não fosse silenciosa. Mas me escondi debaixo da minha cama – que clichê. Como o meu quarto estava ainda arrumado, como se ninguém estivesse ali o dia inteiro, os bastardos não se deram ao trabalho de me procurar por lá. Presenciar uma cena dessas pode mexer com o psicológico de uma criança.

Cresci procurando por vingança. Aprendi a ser rápida e silenciosa, tornei-me uma lutadora daquelas de história em quadrinhos, invencível. Toda noite eu ia num armazém abandonado para golpear alguns sacos de areia, era lá que eu voltava à minha realidade. Quando tudo isso começou, eu buscava fazer aqueles desgraçados pagarem pelo o que tive de passar, ainda mais pelos meus pais que não voltariam. Mas era a minha chance de fazer a coisa certa, de vingança e justiça. Decidi, então, praticar um pouco mais para estar pronta quando eu os encontrasse. Isso acontecia com os pequenos bandidos, alguns ladrõezinhos... Fui pegando o gosto pela coisa e não tardou para eu estar nas manchetes dos jornais. “Garota Misteriosa cuida de nossos cidadãos”, “Salvo mais uma vez pela Garota Misteriosa” e por assim ia.

Apesar de eu ser a ‘salvadora’ da cidade, nem todos concordavam que isso era bom. Aparentemente eu oferecia algum tipo de risco, segundo alguns detetives. Disso eu sei, porque eles não são nada discretos e, com certeza, não falam nada baixo. Eles estavam procurando pela Garota Misteriosa, contatando aquelas pessoas a quem prestei meus serviços e fazendo delas testemunhas para chegar até a mim. A única tática que podia funcionar. Entretanto, eles ignoraram o fato de eu não ser estúpida ao ponto de me identificar. Eu arranjei um figurino, obviamente, para não ser reconhecida. Mas os meus motivos eram diferentes. Não me mascarei para proteger as pessoas com quem me importo, aliás, todas elas estavam mortas, mas para manter o elemento surpresa quando encontrasse os meus alvos.

A minha rotina passou a ser um pouco mais difícil, eu tinha de cuidar dos cidadãos – que agora eram ‘meus’, porque passei a sentir uma obrigação quase que disfuncional de protegê-los – e tinha de me manter fora do radar daqueles detetives, que mais sabiam comer do que realmente investigar. Até que um dia eu tive a sorte de salvar um cara de uma execução. Afugentei os caras maus e fui me certificar se o outro estava bem. Talvez a sorte dele fosse o meu azar. Reconheci-o só quando estava próxima demais e presenteei-o com uma foto bem nítida. Aquela criatura era um jornalista, o mais insistente e insuportável que eu podia ter em minha cola. No dia seguinte, todos os jornais nas bancas tinham a minha foto estampada na primeira página. Maldita hora que fui dar uma de justiceira. “Justiceira: Garota Misteriosa salva jornalista”. Esse povo é tão criativo, mas não para me encontrar um codinome decente. Justiceira... Por favor.

Tive de sumir com o antigo figurino, o que não foi fácil, pois era tão bonito e sexy... Abandonei as máscaras, adotei um visual novo, mas mantive a minha identidade. Seria perigoso sair por aí salvando as pessoas dos criminosos, mas essa era a parte que mais me excitava. Começava, ali, um novo nível de desafio. Alguns dos antigos hábitos tive de atualizar, pois seria um tanto que impossível manter se eu fosse encarar desmascarada. Por exemplo, não podia mais encarar os bandidos diretamente, se eles podiam me identificar. Encontrei duas soluções para este impasse: eu estaria vigiando, de longe, e, qualquer coisa suspeita, contataria a polícia. Se isso não funcionasse, teria de encarar os criminosos e, sendo assim, não poderia deixá-los escapar. Ou seja, se a polícia não fosse eficiente, teria de apagar os caras, não poderia correr o risco de ser identificada.

Este dever que me impus toma, praticamente, todo o meu tempo. Não sou uma desocupada, é claro, mas o que me resta de tempo – que deveria ser de lazer – eu uso nesta atividade emocionante. Vida pessoal, para mim, não existe. É só trabalho e mais trabalho. Como advogada, já tenho vários inimigos. Não sou apenas uma advogada, sou a melhor advogada da firma. Cuido dos contratos impossíveis, dos processos exorbitantes e, sendo a melhor, tenho as minhas regalias. Pode ser uma visão egocêntrica, mas a firma não progride sem mim. Mas enfim, se não estou cuidando de processos e contratos, estou caçando os bandidos pelas ruas. Tempo é o que não me sobra. E eu que, um dia, já cogitei uma vida normal, com um namorado, que seria, posteriormente, meu marido e o estresse comum do trabalho. Bobagem. Nas minhas condições isso seria impossível. E eu não podia estar mais aliviada, porque esta é a minha vida e, fugindo ou não, esta é a minha realidade.

Apesar destes termos, não deixei de ser suscetível aos truques dos sentimentos. Acho que, por mais que a pessoa seja fria ou insensível, não há quem consiga fugir. E comigo não seria diferente. Tornar-me sempre indisponível a qualquer envolvimento passional atraiu curiosos. Especulavam de tudo e sussurravam quando eu passava. Esses boatos são sempre absurdos, mas eu nunca pensei que não existisse limite. Já me perguntaram se eu não fazia terapia e indicaram bons terapeutas, para que eu pudesse superar os abusos que sofri quando criança. Como eu disse, um absurdo. Mas são memórias, tornam-se pensamentos que se esvaem no leve vento da noite, quando volto à minha realidade. E lá estava ele, de novo. Incrível como esses jornalistas se encrencam, para eu ter que limpar a bagunça que fazem. E, dessa vez, os bandidos não tiveram sorte. Tive de ser rápida e manter-me irreconhecível. O que este maníaco não facilitava. Parecia que ele me perseguia, pois toda noite estava envolvido com esta gente e lá ia eu ter de salvá-lo.

Teve uma noite que eu cheguei um pouco atrasada para evitar que o tal jornalista fosse nocauteado e, só assim, pude observá-lo de perto. Ele tinha uma boca nem tão fina, mas nem tão grossa, era ideal – para os meus padrões. O nariz era perfeito e a voz, que eu já ouvira várias vezes depois de tanto salvá-lo, era suave e um tanto rouca. Aquela rouquidão era o charme daquele maníaco insistente. Não sei o que me aconteceu, mas esqueci de toda a discrição e cometi o meu maior erro. Levei-o para minha casa. Quando ele acordou, deitado no meu sofá ainda tonto, e me perguntou onde ele estava, eu petrifiquei. Aqueles eram os olhos azuis mais claros e mais lindos que eu já vi. Como a minha razão falhava com ele, expliquei que o encontrei, na noite anterior, em frente ao prédio e acabei acolhendo-o, para que não passasse a noite na rua. Foi a história mais ridícula que já inventei. Ele agradeceu e partiu. Só para eu ter a privacidade para me odiar.

Achei que não o encontraria mais depois daquele episódio, mas a criatura esqueceu a carteira no meu apartamento. Então ele foi me fazer uma visita, uma surpresa completamente inesperada. Ele até que, em circunstâncias normais, era agradável. E os encontros não acabavam por ali. Era um convite para um café, outro para um sorvete e continuavam. Eu só recusava os encontros noturnos, afinal, não conseguiria me duplicar para cuidar dele e dos outros cidadãos simultaneamente. As coisas iam bem para nós. Ele respeitava os meus limites, era compreensivo – até demais. Mas era o fato de tudo estar bem que me atordoava. Eu lembrava, depois dos nossos encontros, que ele era um jornalista e que não hesitaria em me revelar ao mundo. E assim que fizesse, aqueles detetives viriam atrás de mim. Eu não podia permitir um prolongamento disso tudo. Aquele seria o fim de qualquer futuro problema. Eu só precisava definir como fazer. Isso se eu retomasse a razão.

Comecei evitando os encontros, recusando os convites. Mas de nada adiantava se eu tinha de salvá-lo todas as noites. Esses jornalistas encontram problemas para o resto da vida, uma proeza notável. Mas isso já não me surpreendia mais. Continuei a minha rotina, como se nada tivesse acontecido. O que antes começou como uma sede de vingança tornara-se uma obrigação pela justiça. O meu verdadeiro objetivo não foi esquecido. As noites tornavam-se calma aos poucos, as ruas estavam seguras. E eu continuava nos telhados, espreitando, para ter uma garantia. O que eu relutava em admitir é que procurava pelo jornalista, mas ele havia sumido do meu radar. Mas, de repente, um homem surge do nada. Ele não era um justiceiro, como eu, era apenas alguém que conhecia a Garota Misteriosa – quem ele já havia revelado ao mundo – e aquela que encarava, a Justiceira, era quem ele jamais apresentaria àqueles inquietos para conhecê-la. Ele sempre soube deste meu segredo.

Dizem que vermelho é a cor da paixão. Eu ainda não concordo. Não sei o que dizem sobre o azul, mas foi essa cor que me resgatou da escuridão quando aquele homem acordou no meu sofá. Como uma fênix, ressurgi das minhas cinzas, das cinzas do meu passado para dar um novo sentido ao meu presente, um agora que crio com ele. Faço mistério quanto ao nome dele porque, pela primeira vez em doze anos, eu me escondo para proteger alguém com quem me importo, alguém que eu amo. Nada da minha rotina mudou. Talvez só o meu endereço e o fato de não estar mais sozinha quando acordo. A minha busca por vingança foi completamente substituída pela justiça. E até chegar aos meus alvos, passei por bons bocados. Admito que procurar pelos responsáveis pela morte dos meus pais tornou-se um assunto pessoal, mas quando passei a proteger as pessoas de qualquer perigo, a vingança ficou em segundo plano. Afinal, não posso ser descuidada, ainda mais quando aceitei colocar a vida de mais um em risco – o que não acontecerá. Cada detalhe tem de ser calculado, até em suas mínimas particularidades. Agora tenho que cuidar de um assunto pendente há doze anos...

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