As vozes o enlouqueciam, não o deixavam dormir. “Esqueça”, dizia a Razão. “Não desista, ela é uma boa moça. E gosta de ti.” dizia a Emoção. “Não se rebaixe procurando toda hora por ela, tenha um pouco de amor próprio!” resmungava o Orgulho. O que fazer quando se tem tantos dando palpites? Como saber qual seguir? Como ignorar o resto? Haveria um equilíbrio? Porque ele procurava incessantemente por um.

As noites mal dormidas resultavam num mau humor matinal. Não sabia lidar com ninguém nessas circunstâncias, era grosseiro com todos. Principalmente com ela, o que partia seu coração. Não queria magoá-la, mas não conseguia trabalhar com seu humor alterado. E vi em seu olhar, no sussurro de suas palavras o que provocava. Magoava-a sem intenção, e ela recuava propositalmente.

Um dia tentou mudar. E foi assim que percebeu que Alana se distanciava. Não só dele, mas de quem a cercava. Ela estava tão solitária, sentada num canto, com o olhar distante e ele não teve a coragem de se aproximar. Então os olhares se cruzaram, ela sorriu-lhe um convite, ele timidamente recusou. De todas as coisas que pudera ter feito, por que recusar-lhe um convite? Quando tanto queria se aproximar, quando queria voltar…

Procurou-a noutro instante. Concentrada num texto, mal lhe deu atenção. Mas suas palavras ríspidas, diretas, confirmaram seus receios. Era o próprio motivo de seu distanciamento. E ela o fazia com tanta classe, tão bem que criava uma barreira intransponível. “Posso falar contigo?” Alana olhou-o cética, admirada, contrariada. “Claro que sim. Diga-me o que te aflige.” “Eu sei que não tenho sido um bom…” Não sabia como rotular-se, afinal eram um pouco mais do que amigos, um pouco mais íntimos. “Amigo.” Completou Alana. “Bom, se é isso que eu sou…” “É um amigo quando não estamos juntos. Enfim, se veio dar explicações, poupe saliva, pois te entendo e não te obrigo a me dar satisfações. Agora, se me dá licença, vou continuar o que estava fazendo, preciso acabar para já!” E assim Alana encerrou a conversa.

As vozes insistiam mais e mais, o Orgulho insistentemente gritava para ser ouvido. O que acontecera não se pode explicar. Antes ela era tão carinhosa, mas agora suas palavras tornaram-se afiadas. A ideia de perdê-la por não lhe dar atenção era insuportável. Nunca gostara tanto de alguém como gosta dela. Decidiria o que fazer. O mais rápido possível, pois aos poucos ia perdendo seu lugar na vida dela, à medida que ela encontrava alguém para substituir. “Alana!” Ela fez um sinal para que esperasse. “Sim, Miguel. Esse é o meu nome, cuide para não gastá-lo, senão terás que me comprar um novo.” Ela disse, sorridente. Por trás do sorriso, pode-se ver a mágoa que guardava. “Compraria o mesmo, gosto tanto desse nome.” Sorriu-lhe em resposta. “Precisamos conversar.” “Podemos fazê-lo aqui.” Ela não parecia curiosa, embora forçasse a expressão de interessada. “Desculpe, estou um tanto ocupada. Encontramo-nos em algum outro lugar, pode ser? Mais tarde.” Dito isso, ela voltou sua atenção ao trabalho inacabado.

Sentiu que não a tinha mais. A Razão adotara o discurso “Avisei”, o Orgulho reclamava sobre a falta de amor próprio. Miguel já estava cheio daquela gritaria. Não queria mais escutar, não queria mais os palpites, não queria mais nada, somente tê-la. Para isso, teria de fazer valer a pena. Marcou um jantar em sua casa, uma sessão de filmes de suspense – Alana adorava pensar e concluir junto aos atores do filme – tentaria reconquistá-la. “Então, eu andei pensando e…” “Não, esse meu distanciamento não tem nada a ver com a nossa situação. Ainda continuo gostando de ti, mais do que deveria, até. Mas acho que alguns assuntos meus devem ser discutidos somente com o meu Eu, sabe. Esses espaços que tu me dás são ótimos, agradeço a ti pela compreensão. Mas não te preocupes, nada mudou!” As palavras dela lhe foram reconfortantes, e não tinha mais dúvida. Sempre a tivera, e continuaria a tê-la. O sorriso que ela lhe abriu extinguiu todas as desconfianças que teve, todos os problemas que o estressavam. Acalmou-o. E ali teve certeza: amava-a, e lutaria por ela. As vozes calaram-se, e a Emoção, vitoriosa, suspirou em paz.