A fuga para um sonho, o final de mais um de seus c

11 de Maio de 2013 Silenced by night Contos 785

Seus dedos enrijecidos pairavam sobre o teclado. Não sabia o que escrever, sobre o que escrever. Suas dúvidas o cercavam, já não se tinha certeza de mais nada. O sol não o esquentava, o silêncio o inquietava, queria não querer. Tantos dilemas, tantas perguntas, nenhuma resposta, nenhuma luz para guiá-lo. Seus papeis permaneciam jogados pela mesa, assim todo o resto se mostrava numa organização caótica. Não tinha namorada, não precisava de uma, embora muitas o desejassem. Sua cabeça latejava, a luz irritava seus olhos. Queria gritar, mas silenciar-se no volume de suas palavras. O que ele iria levar no final da sua estrada, quando tudo se acabasse? Do que iria se lembrar? O que valeria a pena no final? Realmente se lembraria de algo? Não tinha com quem conversar, se afastou de seus melhores amigos. A única pessoa que o ouviria não estava em condições, tinha seus próprios problemas para resolver. Às vezes, ele mesmo se pergunta como pode chegar a tal ponto. Por que não o impediram antes? Para essa pergunta ele tem a resposta: não podia ser impedido, se tivesse algo a aprender teria de ser feito por si mesmo. Não saberia se levantar se outrora não tivesse caído. Há algumas coisas que se devem ser vividas, e é impossível impedi-las. E lá estava ele, sozinho. No entanto, havia alguém que nunca o abandonara. Ironia era estar sozinho estando acompanhado. Lembrava-se dela nitidamente. Sentia seu cheiro, sentia seu toque quente sobre suas mãos enregeladas. Via o seu olhar meigo, seu sorriso mordaz. Tinha-a em sua frente. Passou os dedos por entre as madeixas, sentindo a maciez de seus cachos em meio ao cabelo liso. Olhou-a nos olhos, afogando-se nas profundezas de um olhar magnético puramente verde. Havia algo de diferente, podia ver e sentir. Seu olhar era frio, seu toque, que outrora o esquentava, agora gelava seus dedos suavemente. Seu cheiro era diferente. O perfume de chocolate e frutas vermelhas não se sentia mais do pescoço dela. Por entre seus dedos havia um toco de cigarro. Dissera a ela que a essência se perdia misturada ao do tabaco. Ela lhe fora indiferente. Dissera-lhe palavras que preferiu esquecer, agiu como se tivesse sido abduzida, afinal aquela criatura não era quem ele conhecia como tantos contos que escrevera. Magoado, afastou-se. Esqueceu-se de tudo e todos à sua volta. O mundo girava, agora, só para si mesmo e para mais ninguém. Criou uma barreira impenetrável. Esqueceu-se até de quem era. Seus contos já não faziam mais sentido. Quem era ele? Ele poderia ser qualquer um. Ora um herói, ora o vilão. Quem ele realmente era? Era um tolo, não, fora um tolo. Agora ressurgia do chão, caído, mas tão mais forte. Seus olhos no espelho refletiam um oceano azul, calmo, mas imprevisível. Agora este era ele. Então, que ele iria levar no final da sua estrada, quando tudo se acabasse? Todas as oportunidades que um dia perdera. Do que iria se lembrar? De todas as ironias a ele dirigidas, de todas as demonstrações de carinho e desprezo. De tudo pelo que passara. O que valeria a pena no final? O arrependimento, a raiva, as alegrias e as realizações. Realmente se lembraria de algo? Nunca se esqueceria. Não se esqueceria de todas as transformações, de cada olhar, de cada toque. De tudo que um dia escrevera. Afinal, agora sabia quem ele era e não se importava se tudo se acabasse ali. Seria seu final mais perfeito, o fim de mais um de seus contos.

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