No chão frio tinha um mendigo. Deitado em meio á uma manta velha e suja, tinha o seu costumeiro pesadelo.
Uma porta.
Uma porta batendo. E por trás dela existia uma vida inteira.
Família, Amigos, Sonhos.
E o tal batedor de portas do lado de fora.
Depois tudo ficou escuro, e logo vira um homem de lágrimas nos olhos, ele tinha voltado e ninguém estava na casa. Ninguém mais o procurara.
Acordou e se viu em prantos, enxugou o rosto barbado com tudo o que lhe restou: Uma manta e um livro que ganhou no seu 30° aniversário. Nunca o lera, nunca conseguiu ler.
Em uma manhã decidiu ir á praça e sentou em um banco. Olhou para cima, olhou para si ,e olhou para o lado, e ao seu lado estava uma simpática estátua com óculos redondos, cabelos encaracolados e os braços cruzados. Feita de bronze e de esquecimento. Os dois tinham muito em comum.
Na manhã seguinte o batedor de portas voltou com suas trouxas e um prato de comida, sentou-se no banco, que agora parecia mais confortável e gentilmente ofereceu um prato de comida ao moço banhado em bronze. Sem respostas, voltou a saciar-se.
Chegada à noite, o tal devorador de pratos recostou-se no banco e adormeceu. Sonhou e acordou chorando. Virou-se para a estátua que parecia estar pronta para ouvi-lo, e começou a falar, as palavras saíam flutuando de sua boca, e em uma conversa amigável, o mendigo sentiu-se melhor.
E todas as outras noites seguiam assim, em meio a choros e desabafos, o batedor de portas sentia-se cada vez mais á vontade, cada vez melhor. A estátua era boa ouvinte, mais fiel que qualquer outro amigo que tivera muito mais humano, muito mais verdadeiro. Seu melhor amigo. Seu único amigo.
Certo dia, no meio da noite pegou o seu livro e decidiu abrir junto á estátua, era um livro azul em letras douradas e indecifráveis. Na contra capa, tinha a foto de um homem de cabelos encaracolados, de óculos e sorridente.
O mendigo sorridente virou-se para a estátua e disse:
- Leia para eu dormir, Escritor.
Passado alguns dias, o clima só piorava, e em um dia de extremo frio, em que a cidade parecia recolhida, a única proteção do batedor era a sua manta e um par de luvas achadas, a estátua estava descoberta, e apesar da aparência normal, o mendigo sabia que seu amigo estava com frio, e carinhosamente, cedeu-lhe um pouco da coberta. Já era noite e o frio parecia cortar a pele e penetrar a espinha do mandigo, mas pela primeira vez na vida ele estava feliz, feliz com o único e verdadeiro amigo que ganhou, chorando granizo e com o coração já parcialmente petrificado, abraçou forte a estátua, e cada vez que apertava mais forte seu coração aquecia, e sussurrou nos ouvidos do homem de óculos:
- Obrigada, amigo.
Logo, os braços cruzados da estátua pareciam se desenrolar e a corresponder o abraço do mendigo, o envolvendo de volta em sua manta velha. Foi a última coisa que o mendigo pensou ver, e sorridente, com os olhos flutuantes em um mar de lágrimas de alegria, adormeceu para sempre.