Como se pudesse evitar o fim os dedos languidos agarravam a vida, que escorria pelos vãos, temendo entregar-se para mais absoluta escuridão a face marfim enfincada formara uma mascara rígida de dor, uma expressão horrenda, onde o corpo e mente pedirá descanso, mas o sopro de vida humano relutava em assumir a fraqueza e entregar-se ao descanso do corpo. Os dedos já pútridos estavam se afrouxando, soltando o laço que unia corpo e alma, mente e espirito e ao fundo uma presença estranha, como se do camarote alguém assistisse o desfecho de uma ópera.
A dificuldade de se encontrar no abismo profundo, o corpo dormente e a visão coberta por um véu acentuava aquele trágico cenário, onde um homem encontra forças onde não há, e luta contra quem nunca sequer imaginara lutar, um demônio invisível que o carregava para o poço do fim. Insistente e impiedoso. Que não deixa marca nem rastros. Que suga o último sinal de um coração que palpita amedrontado ao esconder-se do monstro.
Deitado eternamente, petrificado até que os vermes começassem a consumir a carne, o único som que se ouvia era o último rufar lento do coração, a respiração inaudível, as pálpebras pesadas, o roçar da língua no céu da boca, e a tentativa de dizer adeus fraquejando, imperceptível.
Um afago gentil nos cabelos molhados pelo suor o carregara. Era ela. O demônio invisível, o gênio que suturava paz e desespero.
Não tinha nome, não tinha rosto. Mas por um momento foi gentil e o entregou ao descanso eterno.