Quando criança dançava em cima da laje imaginando que era uma princesa em um gigantesco vestido rosa com flores na calda.
E deitava-se no chão molhado de chuva esperando o seu príncipe chegar para salvá-la daquilo que nem ela mesma ainda tinha consciência.

Quando ia tomar banho na lagoa perto de casa, imaginava ser uma grande sereia e com o seu canto maravilhoso atrairia peixes para a pesca da tarde ao lado da mãe.

Conhecia aquele vilarejo de cor, longe do barulho da cidade e da maldade civilizada. Sentia-se protegida e segura nessa vida tranquila.
Seu pai a abandonara quando ela ainda estava na barriga da mãe, ao saber que tinha engravidado a mulher, desapareceu por esse Brasil adentro, como um coelho fugindo do caçador.


Mas isso era comum na Vila. Alguns homens de fora, lá da cidade, vinham pra vila depois que desembarcavam no Porto de Vitória e em busca de "romances" encantavam as moças do interior e depois partiam.

Chegando da lagoa após um banho da tarde delicioso naquelas águas cristalinas onde dava para ver os peixes nadando e brincando não acreditou quando ao abrir a porta de casa viu a sua mãe pálida, caída no chão da cozinha. A boca espumava. Tinha sido envenenada por um peixe que tinha acabado de comer.
Chamou a vizinhança para ajudá-la.

Já era tarde, estava morta.

Se sentiu sozinha.
Foi a primeira vez que se sentiu sozinha e morta por dentro.
A adolescência acabava de surpreendê-la com o sabor amargo do sangue da realidade.
A infância tinha acabado de lhe escapar e a vida começou a pesar em seus ombros.

Noites e noites em claro, chorando ao vento, pensou várias vezes partir em busca do pai, à socorro de sua alma aflita e desesperada.
Não sabia ler nem escrever, ninguém na vila sabia. Todos eles se conheciam e nada precisava ser "oficializado", eles confiavam um nos outros.

Foi-se então para cidade, em busca de si, de respostas para sua dor, em busca da vida serena que tinha quando era criança, quando o mundo era um lugar lindo de se viver e não tinha nada a temer.

E a cada gemer de seus clientes desse bar mais conhecido popularmente como "zona", ela sacia o desejo deles enquanto se entrega ao seu sagrado delírio de um dia, naquele mesmo bar, encontrar o seu príncipe encantado que irá lhe salvar daquele lugar sujo e imundo que havia se tornado a sua alma, lhe curando talvez, de toda a dor de existir, lhe devolvendo quem sabe, a paz que lhe foi tirada quando tinha apenas 12 anos. E quem sabe talvez, ela possa encontrar algum descanso aqui onde os sonhos são somente sonhos, onde a esperança sempre foi comercializada, onde a morte caminha à nossa sombra lentamente todos os dias e é ao mesmo tempo, a única saída de todos e um possível fim de todo esse tormento.