Do Outro Lado

21 de Agosto de 2013 Elias Lima Contos 2752

O dia amanhece calmo como sempre.
O menino escova os dentes enquanto a empregada faz o seu café.
Sua mãe está se maquiando no quarto e seu pai está dando o nó na gravata e o cachorro já está acordado esperando todos eles na cozinha.

O pai e a mãe tomam apressadamente o café da manhã preparado pela a empregada enquanto Luiz sai do banheiro com as bochechas cheias de pasta de dentes. “Que isso meu filho, vai se limpar, vai, querido!” disse a mãe dele passando os dedos carinhosamente em seu rosto.

A mãe se despede dando um beijo na bochecha do filho.
O dia promete movimento na sua loja.
O pai está na garagem ligando o carro.
O menino toma o seu café alimentando o cachorro com biscoitos e leite.
Sempre atrasado, sempre.

Tudo em paz, graça a Deus.

O menino corre para pegar carona com o pai e ir pra escola.
Sua mãe já foi.
A empregada limpa a mesa e se prepara para mais um dia de limpeza nessa casa enorme onde só moram três pessoas. (Três pessoas!) (Minha casa é tão pequenininha e cabe cinco...)

Tudo está no seu lugar, como de costume.

Do outro lado da cidade,
Onde se aglomeram os marginalizados, a doméstica (Sim, ela não tem nome!) faz o café para o marido que a agrediu ontem com um soco no rosto. O filho dorme mas já já levanta para tomar seu café. Ela ainda não foi a padaria comprar o pão.
Então, tira o avental correndo e vai a padaria, usando óculos escuros para passar despercebida pelas pessoas.

Quando voltou da padaria percebeu que o marido já tinha acordado e com um semblante repleto de ódio percebeu que ele não tinha gostado de sua saída à padaria.
(O que essa safada estava fazendo na rua uma hora dessa? Tava vadiando atrás de homem? Ahh...)

Ele está com um fio de telefone nas mãos.
Ela já sabe o que tem que fazer.
E se agacha.
E ele começa.
1, 2, 3, 4.. E assim vai..

Dói, marca, sangra mas ela não chora mais, ela não quer acordar seu filho e deixá-lo mais traumatizado depois de tudo que o coitado viu ontem. Ele não merece isso..



Do outro lado da cidade, onde o dia parece amanhecer sempre bonito, mesmo que nublado, onde o ar condicionado no verão está sempre ligado, o pai se despede do filho em frente à escola com um beijo na testa prometendo voltar para buscá-lo às 17 horas para depois os dois passarem na loja e buscar a mamãe para juntos, tomarem um açaí, como de costume nas quintas-feiras.

Tudo calmo, tudo em paz..

Ele dirige novamente.
(Vou ouvir um jazz..)
Amy Winehouse.

Ele desvia o seu olhar para o rádio e atinge fortemente algo contra o seu carro.
Ele para o carro e sai apavorado.
Tem uma mulher caída no chão, sangrando pela cabeça.
O sangue jorra sem parar.

“Meu Deus! O que eu fiz?”
"Eu matei alguém ??"
"O que os outros irão dizer ?"
"O que o meu filho vai achar de mim ?"
"O que irão dizer no consultório ?"
"Meu Deus, eu sou advogado! Eu não posso ir preso!!"

“Meu Deus, uma ambulância! Alguém chame uma ambulância por favor!!

Passou 15 minutos e a ambulância veio e cobriu o corpo da doméstica.
Ela estava na faixa de pedestre e foi atingida por desatenção do motorista.

"Ahh.., mas quem vai se importar com a morte de uma doméstica ?"
"Ela não é da alta e ainda por cima é negra."
"E negro morre todo dia, toda hora."

Respira aliviado e diz: Graças a Deus.

Foi para o consultório e comunicou aos seus colegas associados que teria de fazer uma viagem às pressas para resolver um caso complicado de um de seus clientes.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, onde as escolas parecem uma prisão, José olha para o quadro verde imaginando a alegria que vai sentir quando chegar em casa depois da aula e encontrar sua mãe fazendo janta recebendo-o com um abraço forte e carinhoso que só a doméstica consegue dar à ele.

Este é o único momento do dia em que ele se sente seguro.

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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