Quando Estava Vivo

21 de Agosto de 2013 Elias Lima Contos 2526

E lá de cima, lhe concederam a última visita. Poderia visitar sua família pela última vez antes de se despedir e partir para o outro plano. E com a permissão e proteção de seu Mentor naquela dimensão espiritual, foi-se em espírito visitá-los.
E desceu.

Chegou em casa.
Olhou para as coisas.
Ainda estavam no mesmo lugar.
O seu quarto não havia sofrido nenhuma mudança.

Então foi até o quarto da mãe.

Ela estava dormindo com o seu tapa olho e com o braço direito sobre a testa como sempre. Só que dessa vez sentiu falta das brigas que tinha com ela. Ele sempre muito orgulhoso, não pedia desculpas nunca. Ela, sempre generosa, fazia bolo de cenoura com calda de chocolate para ele depois que brigavam, então assim ele não resistia e os dois voltavam a conversar. Mas ele sempre indagava alguma coisa: “Está com pouca calda mãe..”
Ela sempre ria desse costume dele.
Uma lágrima escorreu em seu rosto.

Ele sorriu.

Seu pai roncava a toda altura ao lado de sua mãe, que estava também com o tapa ouvidos, que ela faz uso desde que casou-se com ele. Percebeu que aquele homem exerceu uma importância fatal à sua personalidade forte.

Os dois eram extremamente orgulhosos, o que fazia os dois repensar suas atitudes para evitar futuras discussões ideológicas na mesa na hora de jantar.
Aprendeu com ele o autocontrole e usar a estratégia nas relações interpessoais em casa e fora dela. O pai o ensinava duramente a como sobreviver neste mundo caótico e ele nunca havia percebido isso.

Agora entende que se não fosse pelo pai, seria igual à mãe, de personalidade mais frágil, muito altruísta e nula, maioria das vezes, com medo de ser rejeitada pelos outros.

Foi até o quarto do seu irmão mais novo, o Juca, de quatro anos.
Estava dormindo com o Dvd do Ben 10 nas mãos, o seu desenho favorito. Lembrou-se das vezes que chegava cansado do trabalho e triste por ter brigado com a namorada e ia logo para o computador jogar, quando o pequenino chegava e dizia: “Qual foi o monstro que te deixou triste Rafa? Eu posso destruir ele com o meu relógio do Ben 10 tá?!”

Então ele abria um sorriso enorme voltando a enxergar a beleza da vida em meio a alegria ausente.

Deitou-se ao lado dele abraçando-o fortemente e lembrou que nunca havia dormido juntos antes. Nunca derrotou nenhum monstro no quarto dele quando chovia e trovoava à noite. Mas agora ele estaria lá, sempre que ele o chamasse por meio de uma reza ou pelo nome. Agora ele estava apto a protegê-lo em qualquer lugar e em qualquer hora do dia, inclusive dos meninos que batiam nele na creche. Agora nada poderia o assustar. Nada.

E o Mentor apareceu, dizendo que ele havia entendido o sentido de sua visita e que já estava preparado para voltar.

E desejou ter entendido tudo isso quando estava vivo.

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