A Crise dos 30

21 de Agosto de 2013 Elias Lima Contos 2769

Acordava às 6 da manhã de segunda à sexta com o celular tocando “Águas de Março” (para tentar acordar de bom humor), aos sábados, domingos e feriados acordava às 7 horas, afinal tinha que fazer o café da manhã para os filhos e para o marido.

Era assim, todos os dias de segunda à sexta, um ritual: acordava e ia para o banheiro. Molhava o rosto, escova os dentes, penteava o cabelo e já estava pronta para outro ritual: gel de limpeza facial, creme anti-idade, rímel, base, blush, um batom leve.
Pronto. Estava linda para começar o dia.

Vai à padaria comprar o de sempre: pão francês, queijo e presunto (porque o maridão e o filho adoram), o que a incomodava muito, pois estava de dieta. Afinal, o metabolismo dos 29 não é o mesmo dos 19. Comprou leite e achocolatado para os meninos e iogurte com fibras (para acelerar o intestino) e biscoitos de água e sal para beliscar durante a tarde no trabalho.

Casou-se com André quando tinha 23 anos, um homem responsável e que lhe transmitia uma certa segurança, digamos financeira. Não casou porque o amava ou estava apaixonada, afinal, a adolescência já tinha passado e ela não podia se dar ao atraso mental de procurar o seu príncipe.

Teve com André, dois filhos, o Marcos, que agora está com 17 anos e o Paulo, com 16.

Sentia-se muita cansada todos os dias. As noites de sono não davam conta do seu cansaço emocional, espiritual e psicológico. Sentia-se exausta, sufocada em suas rotinas. Buscava na terapia alguma resposta ou solução, mas nas armadilhas do inconsciente ela se perdia e não se encontrava.

Dia 18 de Janeiro de 2012 acordou mais velha e aflita. Estava com 30 anos! “Meu Deus, como o tempo voa!” Pensou enquanto tentava desligar o despertador de seu celular.

Levantou diferente aquele dia, alguma coisa estava lhe faltando, ou várias coisas?

Enquanto tentava ocultar essa pergunta nas tarefas diárias, alguma coisa a dizia que estava se auto-sabotando. “Ahh, eu tenho muita coisa para fazer ao invés de ficar pensando.” Pensou consigo mesma.

Neste dia, a empresa a liberou mais cedo, para que comemorasse o seu aniversário com a família. “Família? Indagou consigo mesma. Por que tinha que passar o aniversário com a família?
Afinal, o aniversário era dela e ninguém a perguntou o que ela queria fazer!”.
Mas parece que foi determinada a sair mais cedo para continuar a fazer o que faz todos os dias: cuidar da família.

E ela? E ela?
Quando teria tempo para “passar com ela?
Quando poderia viajar para Paris e conhecer o Museu do Louvre?”


“Meu Deus, eu adorava pintar!” Disse, num tom baixo e dramático.
“O que você disse Paula?” perguntou sua colega de trabalho.
“Nada Patrícia, nada.” E foi até a garagem da empresa pegar o carro para ir embora.

Aproveitou o tempo de sobra que ganhou da empresa, foi até uma loja de informática para comprar um tablet para Marcos, que de tanto insistir, já estava deixando-a irritada e ela não queria se irritar no dia de seu aniversário. Não queria mesmo.
Só queria paz.
Paz e tempo livre.

E decidiu fazer uma surpresa para ele.
Ao desligar o carro na garagem do condomínio, cumprimentou o porteiro indo até o elevador e subiu. Tirou a chave da Louis Vuitton que ganhou de André quando completaram dois anos de casados e abriu a porta do apartamento silenciosamente, “pisando em ovos” como costuma dizer o povo.

Desligou o celular e foi bem devagarzinho até a sala, pois na certa Marcos estaria assistindo mais um episódio de The Walking Dead, seu seriado predileto.

“Marcos!” Disse bem alto, enquanto o seus olhos gritavam um susto.

“Mas o que é isso meu filho?”

“Sexo mãe, não ta vendo?”

“Não digo do sexo, digo do local inadequado e dela. Você por acaso terminou com a Jú?” Indagava enquanto a moça tentava desesperadamente colocar o seu soutien.

“Ah mãe, você sabe como é né. A Jú quando não quer, nada faz ela mudar de idéia.”

“E então, você sai transando com quem você quiser que tudo se resolve né?”

“Praticamente né, mãe.”

“Filho da puta!” “Cadê o seu pai? Ele já chegou?”

“Está no escritório lá em cima, resolvendo os problemas da empresa.”

“E ele sabe disso?”

“Ah para mãe, nós somos homens né. “Colé” vai ficar toda amarradinha ai?”

“Ahhhhhhhh..” Saiu da sala com um ódio que não imaginava sentir pelo menos, nesse dia.

Foi até a garagem, sem cumprimentar o porteiro e ligou o carro com pressa, nervosa.

Enquanto girava a chave perturbada pelo o que tinha acabado de ver e ouvir, ela só sentia vontade de fugir. Sumir dalí.

Pensou em ir na Pedra da Cebola já que estava tão perto do parque municipal, pois morava em Jardim da Penha, mas decidiu ir pra Praia de Camburi para ver o mar e tentar refletir.
Desde que pegou seu primeiro namorado transando com a sua melhor amiga no vestiário feminino da escola, gostava de ir para lá pra pensar na vida. E lembrou-se da promessa de nunca aceitar isso em sua vida novamente, em hipótese alguma e em nenhuma circunstância.

Horas ali, sentada na areia da praia e olhando para o brilho do pôr-do-sol na superfície do mar se lembrou de quando entrou para o grupo feminista do colégio depois do episódio com o namorado. Ela tinha garra e defendia sua liberdade e igualdade como mulher e como cidadã.

“Epa! O quê eu to fazendo da minha vida?” Pensou.

“Eu era feliz. Defendia meus direitos como mulher e cidadã e agora estou aqui triste por ver meu filho ser igual à maioria dos homens?”
“Acorda Paula” Disse reprovando-se e tapeando seu próprio rosto.

Foi em direção ao carro decidida. Um gosto de coragem e ousadia que há muito tempo não sentia tomava posse dos medos e inseguranças cotidianas.

Enquanto passava em frente a estátua de Iemanjá, parou e olhando para ela, lembrou que não pintava mais. Desde que se casou não teve tempo para pintar.
“Meu Deus, quanta coisa eu deixei de fazer para me dedicar ao meu casamento..” Pensou, lamentando-se.

Agora entendia o porquê daquela sensação de manhã cedo que a incomodava, perturbando-a, lhe tirando a paz tão sagrada do seu cotidiano medíocre.

“Me falta a felicidade. Me falta ser feliz.”

“Oh meu Deus, como venho sendo infeliz todo esse tempo? Como eu pude me enganar tanto assim?...” Chorou sem medo de mostrar fraqueza.

Olhou para a Iemanjá e agradeceu a luz que a orixá havia enviado.
“Prometo ser feliz agora minha mãe, eu prometo.” Disse em voz amena e chorosa enquanto olhava para a estátua de 25 anos naquela cidade cheia de paisagens naturais ricas de beleza.

E sentiu-se forte.
Segura.
Sem medo algum.

Agora iria viver como queria e da forma que queria. E quem quisesse acompanhá-la nessa nova fase seria bem vindo e quem não quisesse seria compreendido.

Ela sentia a luz do pôr-do-sol entrando em sua alma lhe libertando das amarras que estava vivendo.
Agora sentia a liberdade beijando-a docemente o seu rosto. A brisa do mar tocava-lhe carinhosamente os cabelos lhe trazendo paz aos pensamentos.
“Há quanto tempo não sentia isso” Disse, emocionada e leve.
Emanava agora, de dentro de seu espírito, um amor próprio, acordado e resgatado há poucos minutos.
Percebeu que o amor que deveria nutrir por si estava adormecido e havia sido deixado de lado por conta das obrigações sagradas de todos os dias.

Então agora ela só queria ser feliz. Ser feliz e ponto.
Seria esse o seu lema agora em diante. E estava pronta para pagar o preço de sua felicidade, pois isso sempre incomoda os infelizes aprisionados nessa cultura do desprazer.

Então iria lutar pela sua liberdade como mulher. E entrou no carro, agora se sentindo pronta para o furacão que iria causar quando chegasse em casa. E riu da velha Paula preocupada em satisfazer primeiramente os outros esquecendo-se sempre de si mesma.

Aquela Paula tinha acabado de morrer e não havia deixado saudades alguma. Agora ninguém iria segurá-la. Nem filhos, nem marido, nem patrão, nem sociedade, nada mais.

...


Dois anos se passaram.

No Museu de Artes do Espírito Santo (MAES) ela abre sua exposição “O Medo da Mulher” como crítica ao medo da mulher intervindo na “polis”, criando outros olhares para as artes, para a filosofia, para a literatura gerando assim uma insegurança no antigo patriarcado agora se sentindo ameaçado por estas mulheres que insistem em abandonar suas “domus”.

Posa para uma foto agora ao lado de seu namorado, o Heitor, um escritor capixaba que ela conheceu nas aulas de pintura no Museu do Negro no Centro de Vitória e abraça alegremente Marcos e Paulo, que agora juntamente de seu namorado, o Higor, posam para a câmera do fotógrafo do evento.
Vai olhar para essa foto toda vez que sentir saudades deles lá em Paris, nessa temporada de férias que fará com Heitor, passando pela Semana da Arte Moderna no Museu de Arte em São Paulo partindo logo depois para a França, rumo ao Museu do Louvre.
E dentro do carro, apertando a mão de Heitor, pensa alegremente “A vida é bem melhor depois dos trinta né...” e foi.

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