São Jorge e o Dragão

21 de Agosto de 2013 Elias Lima Contos 2404

Criou um mundo para si e então ali, podia viver seus sonhos livremente. Quando chovia, ao invés de fazer como todas as crianças que corriam para suas casas se protegendo da chuva, ele ficava lá, em cima da laje de casa, para o desespero de sua mãe que gritava enlouquecidamente para ele descer, ele então, tentava descobrir de qual nuvem caia aquelas gotas vindas de tão alto.
E aquelas nuvens cheias de água, estavam chorando? Estavam com raiva? Será que ele tinha feito alguma coisa?
Não importava, ele se divertia. Cantava e dançava na chuva e quando se cansava, desenhava com um giz, um sol no chão para ver se ele aparecia de novo. E para ele, o sol sempre voltava a aparecer, mesmo que ele não visse, o sol estava lá, escondido atrás de alguma nuvem, de propósito só para ele não ver.

O mundo real sempre lhe foi assustador. Não entendia porque aqueles meninos do colégio brigavam na fila do recreio, afinal todo mundo iria pra sala do mesmo jeito né?

Em casa, em vez dos brinquedos, gostava de ficar desenhando o mundo que queria viver aqui em baixo, pois sempre estava com a “cabeça na lua” seu irmão dizia.
Em seus desenhos, ele convivia com os personagens de seus desenhos animados favoritos e ali, ele criava as histórias, tudo acontecia do jeito dele, do jeito que ele queria. Convivia com os seus super-heróis e também era um super-herói, o maior e mais forte de todos. Combatia o mal com os seus super poderes do amor e da bondade.

Desenhava-se sempre com asas. Era um Super-Herói dos céus? Era um Anjo Protetor da Humanidade? Não sabia, o mais importante era ter asas e voar para bem longe daqui.
Beeem loonge do mal.

Às vezes, olhava a lua e perguntava para o irmão se alguém morava lá. “Tá doido moleque? O que você andou comendo? Merda?” Não entendia porque o irmão se irritava com as suas perguntas. Ele só tinha feito uma pergunta e só..
Perguntou para a mãe, que assistia à novela e que pediu para ele fazer silêncio, pois estava ocupada. Perguntou então, para o pai, sua salvação aquela noite.
“Pai, existe alguém na lua, sozinho, olhando pra gente?” “Ah, dizem que Seu Jorge, o cavaleiro de Silene foi para lá combater seu dragão.” “Um dragão pai? Ele tá vivo?” “Acho que sim meu filho.” “Nossa pai.. Mas ele não vai descer? Vai ficar lá para sempre?” “Ah meu filho, ai eu não sei dizer né.”

Tinha uma curiosidade infinita por aquilo que não conseguiam lhe responder e de tal forma, que chegava ficar às vezes, a noite toda pensando sobre qualquer coisa que o deixava inquieto.
“Será que ele ta vivo mesmo? E se ele morreu? E se ele ta preso lá e não consegue sair?” “Ah, então eu vou rezar pra ele, ai Deus solta” e ajoelhou-se pedindo a Deus a liberdade do cavaleiro.

No outro dia acordou já esperando ver a lua a noite para confirmar a eficácia de sua reza. “Deixa de ser bobo menino, não existe nenhum cavaleiro lá em cima não.” “Seu pai ta inventando coisa pra te enganar seu bobo.” Disse sua mãe, de um jeito tão duro que lhe partiu a alma e foi-se então para o seu quarto chorar escondido.
“Por que as pessoas mentem e machucam as outras?”
Isso não fazia sentido pra ele.
Algumas coisas tão banais o fazia sofrer tanto, que sentia-se como um super-herói sem poderes, um anjo sem asas, cujas penas haviam sido cortadas pela a própria mãe.
“Por que?” Conseguia se ver caindo num abismo bem escuro e que de tão infinito, ninguém podia encontrá-lo ou ouvi-lo chorar. Estava seguro e salvo e ninguém poderia machucá-lo novamente.

Chorou o dia inteiro e nem assistiu seu desenho favorito, preferiu rezar assim mesmo para o cavaleiro, caso ele existisse.

Na adolescência, tatuou um anjo cabisbaixo nas costas, expressando o seu íntimo de forma bem típica de alguém de sua idade, mas com um significado muito forte pra ele.

Quando queria sonhar e se expressar sem medos, recorria ao seu diário e ali, escrevia o mundo que queria viver, a pessoa que queria ser numa realidade em que desejava ter nascido. Ali, nas palavras, ninguém podia cortar suas penas nem derrubar seus sonhos.

Ali, no quarto à noite, no escuro sob à luz de suas sombras, expressava seu mundo mais frágil, o mundo que ele não deixava ninguém entrar nem participar.
Muitas vezes queria se ver livre desse mundo que criou e alimentou para sobreviver em meio à tanta dor, mas já era tarde. Aquele mundo já era parte dele, uma parte frágil, sensível mas forte, romântica e sonhadora.
Não dá mais para escapar do tormento de viver nele. Estava preso numa realidade “real” e numa realidade “imaginária” e agora já adulto tenta, à muita angústia, dominar seu dragão para não ser devorado por ele.

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