Fantasmas Adultos

21 de Agosto de 2013 Elias Lima Contos 2221

“Você vai ser igual à sua mãe!” Gritou Felipe à Poliana.
“Igual a minha mãe? O que você quer dizer com isso?”

A consciência da mãe perturbava Poliana. Não queria ser uma fracassada igual à ela. Ah, não mesmo. Tudo o que sempre desejou foi ser diferente da mãe.
Casou-se com Felipe, um rapaz calmo, sempre sereno. Fala mansamente e nunca se irrita, o que na maioria das vezes lhe rendeu diversos apelidos pejorativos da qual e de modo algum, ele nunca rebateu.

Felipe é um rapaz sem autoestima, que vive à mercê da compaixão e dos afetos alheios. Mendiga sentimentos e sente pena de si mesmo.
É muito submisso porque sabe que as pessoas gostam de pessoas que concordam com tudo sem contestar nada. Anulava-se, pois não suportava ser rejeitado pelos outros.

Já Poliana era o oposto. É agressiva e sempre fala em bom tom o que lhe vem à mente, sem pensar nas conseqüências de suas duras e agressivas palavras.
Dona de um temperamento instável, ninguém nunca sabe quando está de bom humor ou quando não está e ninguém pode confiar no que vê, pois ela pode explodir a qualquer hora e em qualquer lugar. “O povo pensa que eu sou idiota, vê se pode?”
Era defensiva até na hora de dormir.

Sendo assim, um preenche a deficiência do ego do outro. Dizem que se completam até. Poliana possui a intrepidez e a segurança que Felipe não possui e que sempre desejou possuir. E dessa forma, é possuído pelos desejos dos outros e não pelos os seus.
Felipe é dono de uma paciência, uma serenidade, uma calma invejável por Poliana, que sempre quis ser assim mas nunca conseguiu e isso até a irrita quando eles brigam (na verdade, ela briga e ele fica mudo deixando ela falar sozinha). “Como você consegue?” Sempre indagava com inveja e com raiva.

Mas eis que a fase da admiração e da insegurança passou após 10 anos de casamento e eles já não suportavam se ouvir. Só se olham porque não podem arrancar os próprios olhos.

Agora, a casa que construíram é um ringue, onde as brigas começavam com queixas e terminavam em queixas. Ninguém cede e ninguém quer se colocar no lugar do outro. Estão numa crise conjugal. Uma hora ela chega pra todos não é?

Poliana cobra de Felipe mais postura de “homem”, fazendo alusão ao pai dela, machista, preconceituoso, agressivo e fascista na maior parte do tempo.
Felipe, por sua vez, cobra de Poliana mais “feminilidade” como mulher, mais carinho e delicadeza ao falar com as crianças, que maioria das vezes têm medo dela.
“Eles não te respeitam, eles têm medo de você, e é isso que você quer? Quer?”

Mas a crise se silencia na cama, antes de dormir, quando os pensamentos livres invadem a mente tão perturbada dos dois. E num acordo velado, nenhum deles dão continuidade nas brigas ou tentavam sequer iniciar uma conversa civilizada.
Esses fantasmas noturnos que assombram os pensamentos dos dois no quarto escuro antes de dormir, na tentativa de trazer alguma luz à essas almas aflitas e acorrentadas, não conseguem fazê-los imaginar viver a própria vida sem o outro.

E nessa liberdade que só o pensamento traz, eles sentem medo de não conseguir encontrar outra pessoa que possa aceitá-los como eles realmente são. O mundo está difícil de enfrentar com alguém do lado, imagina sem alguém?

E nessa reflexão, jogavam pra debaixo da cama todos esses pensamentos “escuros” e os trancam no porão da alma e assim, sentem-se seguros e salvos novamente.
E nessa fórmula de casamento, estão empurrando a vida até o fim.

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