Chamam a maior parte do tempo, de morte, esta que pode e vai me levar de volta à qualquer momento ao pó.
Meus pais estão me visitando diariamente. Me sinto mais vivo agora do que antes de descobrir há seis meses que estava com leucemia.

Lá em casa, a gente mal se via. Mamãe estava sempre ocupada com os problemas do departamento que ela gerenciava. Papai, por sua vez, não era diferente, dizia sempre, que para me dar uma vida boa, precisava se sacrificar.
Viviam falando ao celular e quase nunca me ouviam. Madalena, a empregada, sempre sentia pena de mim e não me deixava ficar triste. Embora ela tenha tentado evitar, eu me sentia invisível aos olhos deles.

Lembro de papai e mamãe indo na escola pra conversar sobre as mensalidades no início do ano e no final do ano, iam lá para me ver pegar o diploma, sempre exigindo que a professora não atrasasse minha entrada.
Nunca foram a nenhuma reunião de pais. Acho que pior do que ser órfão é ter um pai e uma mãe que não sabe que você existe. Se ao menos eu fosse órfão, poderia fingir para mim que os meus pais me abandonaram por não ter condições de me criar. Mas eles têm condições! E por que não me vêem?

E nesses seis meses, após a descoberta da doença, que diagnosticamente só se agrava, eles desde então, estão loucos. “Como pode meu filho, tão bonito, tão saudável, estar tão doente?”
Mas que diferença esse desespero faz para mim?

Eu estava morto desde que nasci. Não me lembro de passear nos parques municipais com a minha mãe, de jogar boliche nos domingos com o meu pai. A gente só se reunia nos finais de ano, onde nada do que era dito fazia sentido. Não me satisfazia as palavras bonitas, roupas caras, abraços longos enquanto nos outros 364 dias do ano eu não sentia nada disso.

Sento-me aqui e escrevo isso para aliviar a minha angústia, esta sim, é a minha morte, definitivamente.
Sei que não conseguirei o transplante e isso não faz nenhuma diferença na consciência. Afinal, estava morto há 17 anos mas ninguém viu. Ninguém sentiu.
Mas eu senti.