Abri a torneira.
Enquanto eu pegava o detergente para espremer na bucha de lavar, lembrei-me que passei 24 anos aqui fazendo a mesma coisa. Por que minha mãe sempre detestou lavar as vasilhas que ficavam depois do almoço e da janta, então sobrava sempre pra mim né.

Meu pai só comia e assistia televisão. Minha mãe sempre pedia que não o incomodasse, pois ele estava cansado do trabalho e que era para eu fazer, sem resmungar, tudo que ele pedia.

Fechei a torneira ao colocar o último prato no escorredor verde de minha mãe e sequei as mãos no pano de cozinha que estava pendurado abaixo do saleiro. Peguei o maço de cigarros que tinha acabado de comprar no bar do Seu Zé na esquina e em cima da mesa da cozinha ele estava, para aliviar minhas aflições.

Desvirei o primeiro cigarro de ponta pra baixo como minha mãe e minha avó sempre me ensinaram, pois assim o maço "dura" mais tempo, acreditamos.
Acendi o cigarro e arrastei uma cadeira em frente a janela da cozinha desse apartamento de meus pais e fiquei olhando os carros passando: sempre com pressa, buzinando, um xingando o outro no volante, a gasolina tão cara nos faz obrigar a andar o máximo com menos e assim não queremos perder tempo, aliás tempo é algo que nos anda em falta hoje em dia.

Traguei.
E olhando para o céu estrelado com a meia lua eu percebi: estamos todos mortos, vivos.
Vim de “mala e cuia ” como sempre diz a minha mãe. Meu casamento fracassou. Na verdade ele havia acabado há muito tempo.
Eu sabia que Cláudio tinha uma amante, mas e dai? Todos os maridos têm! E eu era só mais uma esposa “chifruda” como todas as outras.

Lembro de quando conheci o Cláudio. Eu trabalhava numa lanchonete aqui do bairro atendendo os pedidos dos clientes no balcão, quando ele apareceu pedindo um X-tudo com coca-cola e percebi que ele me deu um sorriso de canto de rosto do tipo que estava tentando me dizer alguma coisa como “te achei interessante" porque bonita eu nunca fui mesmo. E ao anotar o pedido dele, ele me entregou um guardanapo com o número do celular. Sorri de volta e guardei o papel dentro do bolso traseiro da calça e no final do expediente, enquanto as outras garotas lavavam o chão, o balcão e a cozinha eu fui lá na rua me sentar e ligar pra ele.

Após uns minutos de conversa, decidimos nos encontrar naquela noite mesmo. Fui até a lanchonete buscar minha bolsa, me despedi das garotas, que fizeram uma cara de quem estava dizendo “abusada e folgada” e fui até a pracinha do bairro esperar ele.
Passou-se 15 minutos e ele chegou, com um gol branco semi novo e um sorriso que me desmontava. Ele abriu a porta do carro e me convidou para entrar.

Me senti uma princesa e entrei sorrindo. Conversamos um pouco e cada um disse o que fazia da vida, onde morava e sempre numa tentativa de parecer não se incomodar, dizemos nossas idades e os nossos planos para mudar de vida.
Eu sempre detestei esse tipo de conversa, na verdade, de tudo que sempre acontece nos encontros, dizer o que faz e o que pretende fazer para “mudar de vida” me deixava furiosa, irritada e angustiada.
“Mudar de vida”, pra quê? E se eu não quiser mudar de vida? E se eu quiser continuar trabalhando na lanchonete até morrer?
Enfim, fomos para um motel barato perto do bairro mesmo e lá eu tive pela segunda vez, uma relação sexual.
(Deixa eu apagar esse cigarro porque ele já está queimando meus dedos!)

Saímos outras vezes para cada um conhecer melhor o outro e de quebra como uma regra velada, terminávamos no motel.
Ele sempre me deixava na porta de casa, para a alegria do meu ego.
Só que depois de uns dois meses eu comecei a sentir saudades dele.
“Ah não, eu não posso...” Pensava, tentando evitar um desastre emocional antes que ele desse início.

Nunca tive sorte no amor. Sempre fui feia, magrela, cabelos cacheados e sem brilho, sardas e aparelho nos dentes. Nunca tive uma paixão correspondida no colégio ou no jardim de infância. Nunca! Pelo contrário, zombavam de mim e me chamavam de piolhenta devido o volume dos meus cabelos. Era difícil ir à escola. Uma luta contra a minha tristeza todos os dias...

E desde então eu comecei a me achar bonita, desejada. Gostava de me olhar no espelho e fazia poses frente à ele. Tinha certeza: eram as saídas com o Cláudio. Eu podia ser burra mas retardada também não! Aquele cara estava me dando algo que nunca tive: autoestima. E ele nem percebia isso, o que me deixava em vantagem!(risos).

Passou cinco meses e ele me enviou um sms pela manhã enquanto eu lavava as vasilhas do café da manhã, dizendo “Preciso conversar com você”. Um gelo na alma. Fiquei triste na hora. É, alegria de pobre dura pouco mesmo...
“Eu não devia ter acreditado nessa relação, eu sabia...” dizia pra mim o tempo todo.

Então à noite, depois do meu expediente na lanchonete ele estava lá, na Praça Dom João Batista onde nós conversamos pela primeira vez. Sentado em frente à Estação Ecológica Municipal Ilha do Lameirão com um dos maiores manguezais urbanos do mundo aqui na Ilha das Caieiras, numa lua cheia de céu estrelado com a vista para o Mochuara e o Mestre Álvaro, eu então cheguei perto dele com um semblante de quem já sabia o que iria ouvir e ele já franziu a testa e me perguntou “Tá acontecendo alguma coisa?” Eu disse “Não, mas já sei o que vai acontecer, diga.”
“Se não fosse pessimista, não seria você né?” Ele disse, sorrindo.

Então ele abriu a mochila que usava para levar a marmita para o trabalho e de dentro dela retirou uma caixa vermelha com um laço dourado enrolado.
“Pra mim?” Eu perguntei, surpresa. “E pra quem mais seria? Quem mais está aqui?” Ele riu, ironicamente.
Ele começou: “Sabe, eu estou com 35 anos e já passou da hora de eu dar um jeito na minha vida, de arrumar um lugar pra mim e dividir minha vida com alguém...”
“Tá, então você quer dizer que vai sair do Estado, vai embora daqui, não é?” Já fui logo atacando.
“Não, querida, o que eu quero de nós está aqui.”
Eu então peguei a caixa e decidi abrir, morrendo de medo. “Isso é uma carta de despedida, aposto.” Pensei comigo.

Eu não quis acreditar no que eu vi, não queria me machucar. Era isso mesmo?
“Quer casar comigo?” Ele disse ao ver minha reação.
Fiquei muda. Não estava acreditando! Nunca pensei que fosse me casar! E ao mesmo tempo, tive medo deste casamento não dar certo, ao lembrar do casamento de mamãe e papai. Mas não me agüentei e como toda cena dessa, disse “sim” e abraçando-o fortemente lhe dei um beijo nos lábios. A sensação que eu tive é que havia encontrado um tesouro perdido, nesse caso a minha felicidade.
Ele fez questão, como todo cavalheiro de colocar a aliança em meu dedo na mão direita e uma lágrima de emoção escorreu. “Chorona” Disse ele, rindo de mim.

Ele me levou para jantar num desses restaurantes da Ilha das Caieiras e eu me senti uma dama, ostentando minha aliança de noivado para todos que passavam pela nossa mesa. Foi lindo, se não tivesse acabado.

No dia seguinte, acordei mais cedo que papai e mamãe e fui na padaria comprar um bolo de chocolate com calda, iogurte de pêssego pra mamãe e jornal pra papai, que sempre fazia questão de ler na mesa do café da manhã.
Deixei o bolo, o iogurte, junto do suco de manga que eu fiz, caso papai não quisesse tomar o iogurte, fiz café caso mamãe decidisse tomar o iogurte depois e pus tudo na mesa, com algumas frutas. Estava lindo. Ao olhar, desejei que o meu marido fizesse isso um dia pra mim, tipo, no nosso primeiro aniversário de casamento, sei lá.

Eles acordaram. Eu desejei um “bom dia” para eles, mas eles pareceram não ouvir. Deviam estar com sonos ainda né! Pedi que fossem até a cozinha pois havia feito uma surpresa para eles. “Não é um filho seu com um marginal por aí não né?” disse mamãe num tom meio amargo. Mas deixei pra lá, ela é sempre assim e nunca mudou mesmo né!
Eles olharam para a mesa e fizeram cara de poucos surpresos. Sentaram e sem agradecer, começaram a comer. Eles deviam ter brigado à noite, eu imaginei então consenti o silêncio matinal.

Mas não poderia sair de casa para trabalhar sem dar a notícia do ano e para acordar eles logo disse em bom tom, sorrindo “Vou me casar!”. Eles pararam, como se tivessem ouvido que alguém havia morrido. Papai, que nunca desviava sua atenção do jornal para nada me olhou por cima dos óculos de grau dele e disse: “Você?” “É pai, eu!” “Com aquele vigilante que você andou saindo?” Perguntou mamãe. “Sim, mãe, ele.” “O que você acha Arlindo?” Perguntou mamãe à papai. “Acho nada, desde que ele dê teto e comida como eu te dei está ótimo!” Vi o semblante de mamãe pesar e com os seus olhos fortes e amargos concluiu “Do jeito que você é burra e preguiçosa ele vai enjoar logo de você!” Suspirei fundo a minha angústia e sai da mesa.

Três meses depois eu fui morar com o meu amor. Tudo era bom. Acordar com ele do meu lado me abraçando, me desejando “bom dia”, me dando um beijo no rosto e mexendo nos cachos dos meus cabelos. Sentir as mãos deles de manhã sobre o meu rosto era como me sentir no paraíso sabe?
Estava segura, me sentindo amada e protegida, pela primeira vez na vida. Sentia medo, pois nunca havia sentido isso.

Continuei trabalhando na lanchonete por mais dois anos até eles me mandarem embora. Fiquei um ano dando faxinas nas casas das “madame” de Jardim da Penha por indicação de uma amiga minha que trabalhava por lá, num desses apartamentos chiques. Mas Cláudio conseguiu pra mim um serviço no Shopping Vitória como “Auxiliar de Operações” o que dava no mesmo em chamar “a moça da limpeza”.
Foi duro demais ter que ver todas aquelas pessoas sorrindo, felizes com seus filhos, gastando um dinheiro que eu nunca vou ter, usando roupas que eu nunca iria usar.
Me doía ver as crianças brincando com comida, tão cara e que depois ia pro lixo, após eu limpar toda a bagunça.

Engraçado que no nosso casamento jamais ouve uma conversa nossa sobre a possibilidade de termos um filho. E eu entendia. Cláudio teve uma criação rígida e cruel de seu pai e de sua mãe, ambos evangélicos. Uma vez, enquanto assistíamos um filme na sala sobre um pai que tinha se arrependido de todos os erros cometidos com a sua família e que no final morria em volta de todos eles, eu vi uma lágrima descer no rosto dele, mas não disse nada e nem quis perguntar. Tem coisas que as pessoas só dizem quando sentem-se à vontade para falar né? Então não rompi o silêncio.

Os amigos dele sempre tocavam nesse assunto enquanto bebíamos uma cerveja e comíamos uma porção de peruá frito num barzinho na Ilha das Caieiras. Ele dizia com um sorriso “Filho? Mais despesa? Tá louco?” Eu não ligava, pois sabia que não era realmente isso que o perturbava. Mas num olhar cúmplice, meu e dele, a gente se entendia e cada um consentia aquela dor.

Eu também nunca quis ter filho. Não imaginava que fosse casar! (Risos). Não queria e não quero colocar um filho no mundo se não for para dar o melhor para ele. Não. Não quero que ele passe o que eu passei, jamais. Me sentiria um monstro se fizesse isso. Se tivesse, abriria mão de todo o meu tempo para me dedicar somente à ele, estando sempre com ele quando chorasse, quando fizesse cocô ou mijasse na fralda. Não quero ter um filho para que a minha mãe ajude a criar ou pagar alguém para ficar com ele. Não confio em gente. Gente é ruim.
Iria dar muito carinho, dengo, brinquedos, mimos, muito amor. Tudo que eu não tive. Mas não posso e nunca vou poder. As marcas da maldade humana ainda acendem no escuro e não dá para se esconder dela.
Nunca dá.

Não gosto de pensar que sou vítima de uma criação ruim por parte de meus pais. Minha mãe teve uma vida difícil, foi expulsa de casa quando a minha avó descobriu que ela havia engravidado e meu pai teve que segurar a minha avó que batia contra a barriga dela, querendo me matar. Não ta fácil viver. Nunca foi fácil.

Então, casou por desespero. Não tinha para onde ir. Ela era a filha mais velha e minha tia ainda brincava de boneca quando viu toda a cena monstruosa enquanto eu ainda estava no segundo mês de vida em seu útero.
Papai se aproveitou de toda a situação, e como maioria dos homens, “piranhava” todo o final de semana. Bebia e chegava bêbado, por muitas vezes mamãe teve que me pedir para sair da sala pois papai estava nu na cozinha, vomitando. E ao dar banho nele, via marcas de unhas nas costas, marcas de mordidas e segundo ela mesma, uma vez, abrindo o seu coração pra mim e pra minha tia, chorava enquanto ele trocava o nome dela por nomes de outras mulheres. E ela nunca brigou ou fez algum escândalo. Dependia dele. Tinha que cuidar de mim.
Tenho compaixão de mamãe.


Os anos se passaram: dois, cinco, seis e dez. E dez anos passam rápidos viu...
Estava lavando as roupas de Cláudio quando vi na gola do uniforme dele, uma marca de batom rosa. Não perguntei. Era ridículo. Ele iria desmentir e ficaria nisto. Estava mantendo a tradição do patriarcado. Tudo bem.

Uma vez enquanto assistíamos a novela das oito ele me perguntou se eu não queria voltar a estudar e me profissionalizar em alguma área. Eu ri. “O que eu vou fazer na escola? Ser motivo de chacota?” Ele dizia para eu deixar de ser boba, que isso era coisa da minha cabeça. “Você podia ser professora amor, o que acha?” “O que eu acho? Já sou roubada onde eu trabalho, não preciso estudar mais pra ser mais roubada pelo governo!”

Dois meses depois, Cláudio me acorda, dizendo que precisava conversar comigo. Ele não era disso então levantei para saber o que era, de repente alguém havia morrido, sei lá.
Ele estava olhando pra mim com um olhar diferente, como se estivesse sentindo pena de mim. Ele disse que não tinha conseguido dormir a noite toda porque tinha algo muito importante para dizer há muito tempo mas não tinha coragem.

Senti um iceberg se erguendo dentro de mim. A hora havia chegado. E foi tudo como sempre imaginei. Encontrou alguém, sentiu essa pessoa interessante, saíram uma vez e gostaram e depois várias vezes e quando viram, estavam apaixonados.
Não teve nada diferente. Eu só levantei e peguei o meu frasco de remédios para dormir e fui até a cozinha encher o copo de água para engolir os comprimidos e ao voltar para a cama, onde ele ainda estava sentado, talvez esperando alguma cena muito dramática da minha parte, deitei e disse: pode ir.

Me cobri toda enquanto a morte me devorava e o meu mundo escurecia por dentro.
De repente todos os meus medos de infância vieram e numa derrota, eu estava sendo jogada para dentro de um buraco sem fim.
Estava experimentando o meu próprio inferno, mas três comprimidos me ajudariam aquele dia.
Antes de cair no sono da droga, deu para ouvir os passos dele no quarto enquanto fazia as malas.

Chego sentir o aroma daquela manhã de domingo ensolarada aqui na Ilha das Caieiras. Ah... Ilha, minha bela Ilha, ainda bem que ela existe para me dizer que apesar de tudo, ela está aqui diante de mim, para me mostrar que ainda há esperança enquanto existir beleza.

Viro o maço de cigarro agora e leio “O Ministério da saúde adverte: fumar causa impotência sexual”. Eu ri rápido.
O que é ter impotência sexual diante à impotência da vida?