O ceu está em todo lugar

29 de Agosto de 2013 Rebeca Rocha Contos 728

Tinha 40 minutos e não queria desperdiçá-los. Deu uma olhada rápida para o livro em seu criado mudo e não pode deixar de observar a página em que interrompera a sua leitura na noite passada. Fechou os olhos e de imediato mergulhou em um universo de pensamentos dispersos e nem se deu o trabalho de criar qualquer tipo de resistência. A manhã já havia sido suficientemente puxada e decidiu se entregar naquele único momento em que lhe era permitido fazer isso.

Teve o mesmo sonho que tem todos os dias, já faz alguns meses. Onde estava agora era mais fácil de aguentar. Tudo era mais leve e ela era apenas expectadora de suas próprias ações. Cada músculo do seu corpo começara a relaxar enquanto a mente liberava as últimas impressões e lembranças que há tempos lhe castigavam e remoíam. Assistindo ao filme do qual era protagonista, percebeu que a grama na planta dos seus pés fazia cócegas e o sinal das primeiras gostas começavam a respingava no seu rosto. A chuva veio em boa hora, lavando a alma e levando embora tudo aquilo que já não queria mais. Já não sabia mais o que caiu do céu e o que brotou dos olhos. Tanto fazia. “O céu é a ligação entre todos os seres humanos”, leu um dia, de imediato compreendeu. Deixava as gotas escorrerem, abriu os braços e mirou o alto, na esperança de fosse suficiente para conectar-se a qualquer parte do mundo, e sabia exatamente onde queria estar. Era libertador estar ali. Tão só, senhora da sua própria condição, sentindo tão intensamente o entendimento que buscava.

O tempo parecia manso, preguiçoso. Ela queria que passasse devagar, estava admirando a si mesma naquele momento tão particular, tão cheio de sentido e de verdades silenciosas, daquelas que não precisam ser ditas. Melhor assim, gostava de ouvir a chuva dançando com o vento e ricocheteando seus cabelos nas bochechas.

Foi quando em algum canto do seu inconsciente, algo pareceu despertar. Com certo pesar, sabendo que não queria se despedir para não interromper, virou na direção oposta deixando a si mesma, esplêndida e plena, e partiu de volta para o lugar onde tudo estava exatamente do mesmo jeito antes de adormecer. Abriu os olhos lentamente e o que viu foi o completo oposto: sol forte na janela, porcelanato frio sob os pés e um despertador insistente que alarmava o seu atraso para voltar ao trabalho.

Já sentia saudades de onde esteve minutos atrás e mesmo assim ensaiou um sorriso. Estava na hora de voltar a ter ombros fortes e olhos concentrados; sabia que a saudade maior havia ficado lá, esperando pelo próximo intervalo.

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