HIPOCONDRIA SA.
Aquela pracinha bem arborizada, onde se pode respirar um pouco de oxigênio puro, é um recorte no mapa caótico da cidade. Poucas pessoas sabem que em plena Copacabana, cercada de buzinas, nuvens de fumaça liberadas por veículos mal fiscalizados, se pode desfrutar de um local tão aprazível.
Naquele oásis urbano convivem idosos, criança e pequenos animais de estimação, cada um no seu espaço.
Sob uma frondosa mangueira uma senhora de cabelos brancos como a neve, está sentada no banco de madeira ali instalado. Ela olha para cima, como que querendo banhar-se nos raios de sol que a encobrem.
Silenciosa outra mulher igualmente idosa se aproxima, caminhando lentamente, trazendo em sua bagagem os longos anos de sua existência. Com um sorriso ela interpela aquela que está sentada.
- Aproveitando o sol da manhã, não é Etelvina? Que folga heim!
Lentamente, a senhor gira o pescoço, encarando a recém-chegada para dizer em seguida:
- Folga nada, Guiomar. Eu tenho que ficar olhando para o alto porque se abaixo a cabeça dá logo tonteira...é labirintite.
Guiomar senta-se ao lado da amiga, fazendo com que a sua voz tome um sentido mais sério.
- Eu de vez em quanto tenho isso, mas depois que comecei a tomar aquelas pílulas verdes melhorei. O pior é essa dor na coluna que não me deixa em paz.
Reunindo toda a sua sabedoria a respeito do assunto, Etelvina diz:
- Dor na coluna é mesmo um inferno, mas depois que passei a tomar chá de quebra pedra pela manhã não tive mais nada. Esse chá é um santo remédio.
Estranhado a receita, Guiomar indaga:
- Ora, eu pensei que esse chá fosse para pedra nos rins, mas para a coluna...
Sem querer polemizar, Etelvina prossegue, desviando o assunto.
- Esse chá serve para tudo. Você ficou boa daquela dor no estômago?
Guiomar apalpando o abdômen começa a explicar:
- Que nada, eu já tomei tudo o que foi chá e a dor sempre volta. Aquelas pílulas cor de rosa, eu tomei duas caixas e nada. Já fiz tudo o que é exame e ninguém descobre a causa desta dor.
Chegando mais perto da amiga, como se fosse falar alguma coisa confidencial, Etelvina diz:
- Será que isso não tem nada haver com útero? Você se lembra que na juventude você era muito assanhada. Já tomou aquele remédio amargo do vidro marrom?
Demonstrando desânimo, Guiomar logo se apressa em responder.
- Já tomei vários vidros desse remédio. Acho que o problema não está ligado ao aparelho feminino, afinal eu sempre me cuidei. A dor do estômago não é o pior...agora apareceu uma dor nas pernas terríveis.
Com um sorriso sábio nos lábios, Etelvina tal qual uma médica especialista logo sentencia com firmeza:
- Reumatismo! Dor nas pernas só pode ser reumatismo. Passe aquela pomada de gordura de carneiro...a dor vai logo embora.
Demonstrando toda a sua indignação, Guiomar logo responde:
- Reumatismo é doença de velho...eu não tenho isso não. Acho que é porque eu ando muito a pé, subo escadas... isso força muito as pernas.
Sem perder a pose, Etelvina logo emenda:
- O seu problema é com as pernas e o meu é com os braços. Eu acordo sempre com uma dor intensas nos braços..vai do ombro até a ponta dos dedos. Eu tomo sempre chá de cana do brejo.
- E melhora?- pergunta Guiomar.
Dando de ombros, Etelvina responde:
- Melhora nada, mas pelo menos é diurético, elimina o ácido úrico.
Franzindo a testa Guiomar, demonstrando ter lembrado de alguma coisa diz:
- Agora é que me lembrei de uma coisa. O meu exame de sangue deu ácido úrico alto. Será que é por isso que as minhas pernas incham?
- Pode ser. Lá em casa eu tenho umas pílulas pretas que são muito boas para acabar com o inchaço nas perdas. Depois você me liga que eu digo o nome delas- informa solidária Etelvina.
Agradecendo o oferecimento, Guiomar faz um movimento de se levantar, mas ao lembrar-se de alguma coisa importante volta para a posição anterior dizendo:
- Etelvina, eu ai me esquecendo. Você sabe quem morreu? O Pamplona.
Sem fazer manifestar qualquer emoção mais forte, Etelvina recebe a notícia com naturalidade, comentando em seguida:
- Ah, é! Que Deus o tenha, mas aquele velho era muito chato.
Surpresa com a reação da amiga, Guiomar reage:
- Você acha? Mas ele era tão bonzinho. Por que você acha que ele era chato.
Com uma expressão séria e uma postura severa, Etelvina esclarece:
- Era chato sim! Aquele velho só chegava perto da gente para falar em remédio e doenças. Que papo mais aborrecido!


Victor do Carmo