Só mais um dia

12 de Julho de 2011 AmandaBomfim Contos 1687

Sempre tive muitos medos, de frescuras a fobias. Mas hoje está diferente, hoje sinto um temor maior, um calafrio maior.
Mas, fora isso, meu dia estava sendo normal: acordei no mesmo horário, tomei banho, comi qualquer coisa perdida pela geladeira –e espero que o esverdeado em cima seja mesmo gorgonzola- e enfrentei o mesmo trânsito até a faculdade.
No trânsito, dava pra perceber algo diferente, estavam todos mais devagar, com uma expressão preocupada, mas devagar. Pensei comigo “Que besteira, é o mormaço”, até porque, tem feito um calor desumano ultimamente.
Depois de algumas aulas de cálculo, eu queria mesmo era descansar, conversar com minhas amigas e tomar um bom suco de laranja, que, diga-se de passagem, é viciante. Mas, para minha surpresa, minhas amigas me responderam negativamente ao convite que sempre faço. Achei estranho, mas aceitei, estava com muita sede e não queria deixar meu suco me esperando.
Fui à lanchonete e o bebi, ele estava um pouco amargo, sempre é, mas estava mais; com a sede que estava isso foi irrelevante. Voltei à sala e ela estava vazia, pensei “Como todos sumiram? Temos prova daqui a pouco” -e das difíceis-.
Não havia ninguém no campus inteiro -pelo menos não onde procurei por horas-. Já estava cansada e atordoada, podia até dizer que sufocada; sentia um aperto no peito indescritível.
Desisti, peguei o carro e dirigi de volta para casa, foi um dia estranho e queria descansar. “Que amanhã tudo volte a ser como sempre foi” rezei antes de fechar os olhos e tentar dormir.
Lembro-me de ter sonhado algo bem bonito, sério, estava me sentindo relaxando mais do que nunca. Parecia ser um campo, não, um jardim, isso, um jardim enorme, com flores de todas as cores e de todos os possíveis aromas deliciosos.
Depois de caminhar e caminhar por entre as flores, vi algumas pessoas ao longe, como se descessem a pequena colina não muito distante. Eu logo as reconheci, não eram muitas, na verdade, eram sim, mas ao meu ver parecia tão pouca gente. Poderia até citar seus nomes, mas isso não importa, o que importa é que não tinha ninguém que eu não queira o bem, para ser sincera, amo todos que ali estavam.
Corri para encontrar com eles, queria abraçá-los e dizer como estava feliz em ver todos juntos. Eles sorriam e me olhavam de forma carinhosa e suave, como se quisessem que eu soubesse de alguma coisa; não liguei se era isso mesmo, olhei para eles com o olhar mais doce que fui capaz de fazer.
Apesar da minha vontade de continuar ali com todos, eles tinham que ir embora, espera, eu estava indo embora, eles nem se mexiam, continuavam olhando para mim, mas agora com um olhar amargo, ainda suave, mas amargo. Agora, definitivamente, queriam que eu soubesse de alguma coisa, alguma coisa muito importante.
Eu estava sendo puxada, não sentia nenhum toque em mim, mas sentia que eu estava me afastando, e rápido, muito rápido. Olhei em volta; aquele jardim cheio de cor agora não tinha mais vida, agora era apenas grama, grama não, mato. As flores que tinham perfumes suaves, agora tinham cheiro de nada.
Pensei em gritar, em pedir ajuda, mas não conseguia, cada vez que tentava gritar, ia me sufocando mais. Apesar de longe, ainda conseguia ver algumas pessoas me olhando, olhei nos olhos de uma em especial. Ela tinha olhos apertadinhos, pretos, quase não dava para vê-los.
Estavam mais apertados do que o normal, estavam tristes. Vi uma lágrima escorrer pelo seu rosto e não aguentei ver aquele olhar sem tentar gritar. E tentei: “A...” foi o que saiu. Depois disso, ela me olhou diferente, ainda triste, mas demonstrando tanto desespero quanto eu. Isso doeu e só me fez ficar mais desesperada e tentar gritar novamente, mas já era tarde, eu já havia sido puxada completamente e já havia saído do jardim... Eu já havia morrido.

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