Ciência do amor

13 de Julho de 2011 Ariano Contos 904

Sexta-feira, 17h40. "A experiência, bem como os referenciais e a sabedoria que ela pode nos proporcionar... Essas são algumas das vantagens de envelhecer", refletiu o não exatamente idoso homem enquanto ajeitava os óculos de aros grossos entre os negros e ondulados cabelos.

Aos 35 anos, Daniel sentia-se mais confortável dentro do guarda-pó branco que usava no trabalho do laboratório — e ambos o engoliam! — do que em sua pele e peso e... Nariz. Mamãe e a namorada-quase-noiva diziam ser um charme, mas ele abominava o próprio nariz. "Homem também tem vaidades físicas, oras", resmungava para si mesmo enquanto lavava alguns tubos de ensaio.

Rita. Ah, Rita! A namorada-quase-noiva estava com Daniel há sete anos. Gordinha sensual, de curvas e carnes deliciosas; risonha, gentil, graduada, esforçada. Honesta. Boa. "Não posso negar que Rita é uma pessoa um pouco simplória. Não é particularmente brilhante", ponderou o pesquisador. Tossiu forte enquanto levava mais um tubo de ensaio à água. “Mas ela me faz tão bem. Sinto-me tão feliz com ela... Eu realmente a amo muito”, concluiu. Ter a clara consciência de tudo isto fazia Daniel sentir-se estranhamente culpado — mas sincero consigo. Ele tinha profundo respeito, admiração e amor por Rita. Porém, simplesmente não podia admitir um pedaço das verdades sobre ela; e pinçar, extrair e esconder outra parte dessas verdades. Não de si.

O químico preferia acreditar que teve a sorte de perceber, a tempo de ser feliz, que a fórmula do amor de sua vida não precisaria conter, necessariamente, a pessoa mais interessante que viesse a conhecer. Fechou a torneira e, por um momento, fitou a pia metálica. Coçou o odiado nariz com o braço vestido de branco e começou a batucar — bem de leve, com a ponta do dedo indicador — em um tubo de ensaio. Voltou a conversar silenciosamente consigo: “Pessoas interessantes existem aos montes: podem ser amigos, parentes, colegas... Mas amor para a vida toda é outra coisa. Sim, eventualmente, pode acontecer de amarmos pessoas que julgamos ser amplamente interessantes, claro. No entanto, isso não pode ser pré-requisito de amor. Senão, cada pessoa extremamente interessante que conhecermos poderia sacudir toda a nossa vida amorosa. Imagine que loucura..! Trocaríamos de namorados e namoradas todo o tempo. Ninguém dormiria em paz. Onde ficaria o amor nisso tudo? Oras. Amor, amor mesmo, está em outro nível: é outra camada, outra esfera, outro grau de importância, de complexidade. De compromisso”.

Ainda distraído com tais pensamentos, as mãos úmidas, Daniel passou a vasculhar sua mente atrás de um restaurante para ir com Rita no fim de semana. Enfim lavado o último tubo, secou as mãos... “Italiano! Aquela cantina nova... Perfeito! Meu amor adora comida ita..!”. Outro guarda-pó, este protegendo sardentas formas femininas de rubros cabelos presos, chegou com pressa. Daniel cumprimentou despreocupadamente com seus olhos castanhos a colega de laboratório — Laura, uma ex-modelo que já morou mundo afora, hoje pós-doutora em Química que pratica flauta — e continuou a respirar sorrisos, intimidade, amor... E lasanha.






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