Epifania mortal

18 de Setembro de 2013 Fernando Lancaster Contos 698

Aquela dor no peito era um dos efeitos colaterais do amor. Era mais uma dor psicológica, um peso sobre as costas que o atormentaria enquanto ele não tomasse coragem e fosse à mesa ao lado falar com a moça. Junto à dor, vinham os pensamentos inconstantes.

Sentado ao ar livre naquela mesa do restaurante, indagava-se se a moça ao lado acharia-o interessante e legal. Ou seria ele entediante? Será que pareceria um bobo vindo falar com aquela garota que sempre observara?

Em um relance, pôde notar que a moça lia um livro de poesias de Camões. Ele sempre gostou de poesia e naquele momento a frase mais clichê e famosa do escritor português ecoou em sua mente: amor é fogo que arde sem se ver. E era mesmo.

Poderia falar com ela sobre Camões! Uma fagulha de esperança acendeu em seu coração, mas logo perdeu o brilho. E se ela não gostasse de ter sua leitura interrompida? As perguntas que rodeavam sua mente eram todas acompanhadas do prefixo "e se...?"

Em meio a tantas suposições, um fato se concretizou. A menina fechou o livro e levantou a mão, pedindo a conta. Ele logo fez o mesmo. Observou-a levantar-se da cadeira e sair do local aberto. Parou no cruzamento, aguardando o semáforo se abrir.

Ele apenas queria ser feliz, mas tinha medo. Mas como alcançar a felicidade? Ela dependeria de suas ações. Ele mesmo a forjaria. E uma oportunidade de ser feliz se encontrava a poucos passos de distância. Tudo o que ele tinha que fazer era agarrá-la.

Tomado por uma súbita coragem, deixou a covardia na mesa e saiu correndo em direção à ela. Ela já estava do outro lado da rua quando ele abriu a boca para chamá-la.

Todo o sentimento não falado e guardado morreu junto com ele quando o carro à 240 km/h o atropelou.


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