A Aparição da Rua Treze

01 de Outubro de 2013 Sidney Muniz Contos 885

No céu a lua brilhava com toda sua fúria, apaixonante e assustadora. Nuvens acinzentadas e nebulosas o acariciavam de forma quase artística, naquela hora em que os ponteiros eretos e insinuantes beijam-se por segundos, bem quando o cronometro zera e nos vemos entre o fim e o inicio de um novo dia.

Nesse meio espaço de segundos tolos, uivos de cães solitários buscavam companhia mais interessante que a solidão e o frio que os cercava.

Naquela rua deserta e nostálgica, uma garota caminhava em sua perturbação. Uma adolescente, que incoerentemente desafiava a si mesma.

O medo afinal é um companheiro fiel para mentes fantasiosas, é cruel para aqueles que o alimentam, e é vida para os que o enfrentam.

Andando àquela noite ela só queria provar para si mesma que não havia nada com o que se preocupar, afinal lendas e estórias de terror não era nada a não ser estórias, contos tolos que se espalhavam por aí, migrando de cidade a cidade.

Ela queria chegar a algum lugar, todos sempre querem.

Levantou de sua cama como se aquilo fosse normal, vestiu uma blusa de frio de cor preta, abriu a janela e saiu a caminhar pela rua, certa que chegaria a rua treze, cerca de quinhentos metros dali.

Não havia ninguém nas redondezas, não mesmo. Vera tinha dezesseis anos e ja parecia ter vivido muito mais que isso, havia sido iludida pelo seu primeiro amor, ele havia morrido naquela mesma rua, entre onze da noite á uma hora da manhã.

Desde então, o medo havia cercado-a por todos os lados, como se mapeasse cada movimento da jovem. Mesmo que muito nova, um sentimento intenso havia instalado em seu coração, onde dizia sua mãe, ser a casa de todos os sentimentos.

“O coração é o baú de sua essência, mantenha-o fechado e não conhecerá o amor, abra-o e esteja sempre preparada para sensações inesperadas, e quem sabe grandes aventuras” – palavras de sua mãe, Doralice.

A moça de cabelos negros e curtos, caminhava mansamente. As mãos se escondiam dentro dos bolsos do agasalho, enquanto o frio a rondava em tom de deboche, tudo era tão estranho, aquela rua parecia não ser a mesma.

O silencio soava como fosse o som aterrorizante da solidão, todavia melhor ele que a companhia de um estranho qualquer naquela hora da noite. Afinal os estranhos são apavorantes.

A cada passo, o pulso parecia se alterar, hora parava, hora aumentava, ou algo parecido com isso. Olhando para as casas, além das janelas via sombras se construindo e destruindo sua coragem, apenas cópias negras das pessoas, que dentro das casas se recolhiam, abdicando de seus televisores e se apegando a força do sono.

A menina bocejou, isso se o sono para ela realmente existisse a altura daquele desafio, estava ansiosa pelo findar daquela audaciosa aventura.

O peso de seus pés era a cada erguida mais conhecido pelos joelhos. Algumas árvores na calçada deixavam o ambiente menos aterrorizante.

Se o peso de seus passos aumentava, a velocidade com que caminhava era cada vez menor. É estranho como quando o medo nos anestesia e a mente nos prega peças, e naquele caso a mente dela a iludia completamente.

Seu pai disse certa vez...

"Até mesmo os mortos vivem, eles sentem, eles amam, eles morrem, algum dia eles morrem, seja nas lembranças ou até mesmo na falta delas"

Enfim chegou ao destino, estava na rua treze, bem na esquina onde o corpo do ultimo garoto foi misteriosamente encontrado. O nome dele era Paulo Vitor...

...

Um ano atrás...

Paulo caminhava sozinho, vagava pela rua treze. Aquela esquina estranha abrigava estórias, lendas, contos que os velhos... Aqueles mais antigos teimavam ser verídicos.

O avô do garoto havia dito que não ficasse andando a noite, pois havia uma lenda macabra de um fantasma. Um fantasma terrível que aparecia uma noite por ano... Ele caminhava da sua antiga casa até aquela esquina, lá encontrava suas vitimas.

O velho disse não saber de quem realmente se tratava, pois o fato era que muitos jovens haviam morrido daquela mesma forma, naquela mesma esquina. Boatos diziam que muitos saiam de suas casas às escondidas, como se fossem atraídos por um convite estranho de seu próprio ego, sendo desafiados a enfrentar seus medos, rumavam para a rua treze e naquela mesma esquina eram mortos de uma mesma maneira, de forma brutal.

O velho contou a Vitor que havia arquivos da policia, manchetes de jornais e tantas outras evidencias que apontavam para um suposto maníaco, dizem que certa vez um homem foi visto encapuzado, andando na direção de onde as vitimas eram mortas. Nesse mesmo dia uma menina foi encontrada caída na rua...

O crânio havia sido completamente deflagrado, os dedos e as mãos estavam quebrados. Não havia marcas de digitais, os peritos diziam em reportagens, que era trabalho de um profissional, uma mente sádica, porém ardilosa.

Paulo queria tirar aquilo a limpo, caminhou certo de que nada o impediria. Ao chegar ao local sentiu um terrível medo adentrar no cerne de seu cérebro e logo esse sentimento sombrio e inquietante inundou seu corpo.

À sua frente à imagem que o emudeceu...

Uma garota que caminhava em sua direção, ela usava uma roupa estranha, escondia o rosto, parecia ser uma garota normal, mas ao vê-lo o semblante mudou de maneira assombrosa.

Sorrindo demoniacamente, com uma língua que media em torno de quinze centímetros e que dançava sarcasticamente no ar, hora lambendo os lábios, hora agindo como a língua de uma serpente, entrando e saindo da boca da garota.

Dos olhos da jovem, lágrimas de sangue minaram e tingiram a face empalidecida da assombração. Os pés dela tocavam o chão, e de repente não tocaram mais. A pele já estava enrugada e envelhecida, a garota avançou na direção de Paulo, ele estava travado, as pernas não se moviam, os olhos arregalados e inseguros, vivos e apartados.

O garoto temeu que ela viesse a seu encontro, temeu que ela o matasse, mas a jovem parou a centímetros dele e o rosto... O rosto da menina subitamente voltou ao normal.

- Me ajude, por favor! – Ela disse num tom de voz mais infantil do que sua própria idade e semblante denunciavam.

Paulo a olhou, pôde ver a tristeza nos olhos dela. A jovem chorou uma lágrima triste e melancolicamente intensa. O olhar revelou a densidade do sofrimento que explicitamente a marcava.

Ela ergueu a mão direita e chamou-o com um sinal típico, movendo os dedos enquanto aparentemente parecia ouvir algo mais.

Ele ficou confuso, mas algo mais o fez encarar aqueles três passos que os separavam. Ao se aproximar ergueu a mão direita e os dedos de ambos se encontraram num toque mórbido, gélido da parte dela, quente vindo dele. E em câmera lenta, o encontro nostálgico e repleto de sensações adversas; Medo, insegurança, tristeza, pena, tantas outras reações para um só toque, foi algo realmente único para ambos.

As mãos se apegaram, os dedos se abraçaram e então com outro dedo indicador esquerdo levado a boca a garota fez sinal de silêncio. Apontou para um destino estranho e fez com que ele a seguisse para onde apontava.

Incerto do que a garota era, ou do que ela queria lhe mostrar, ele, hipnotizado abaixou-se copiosamente imitando-a. A garota em meio á noite escura, abaixo da lua gigantesca que se revelava e despontava dentre nuvens acinzentadas, abaixou-se e encostou a principio, de forma hilariamente, o ouvido ao piso negro.

O garoto repetiu o movimento ao ser instruído por ela, e por fim ouviu a voz lamuriante que adentrou seus ouvidos, abafada, impulsiva e angustiante. A voz infantil de uma garota, que por algum motivo surgia dali, das entranhas daquela esquina, vinda por debaixo do solo assombrado, e escapando pelos poros da terra.

- É você? – ele perguntou quando a menina desapareceu.

Estava ali ainda com a orelha encostada ao chão, quando ouviu a voz chamar de novo.

- Estou aqui! Me ajudeeeee! Me ajudeee! Ele me prendeu aqui, dentro do porão – Implorava a voz da criança chorosa. Ele pensou em correr, em fazer algo, mas... Mas não era aquilo que ele via mais, não.

Agora ele estava em uma casa velha. Olhava para a porta aberta atrás de si, olhava além da porta, e via a mesma rua, porém havia algo de errado, algo muito estranho.

A rua era de terra, e as casas eram mais antigas, além de haverem alguns terrenos baldios. Lotes repletos de mato. Os postes da rua não eram de cimento, eram mais baixos e de madeira, a fiação telefônica não existia. Olhou para o chão que socava, e ouviu um barulho oco, era de madeira.

Olhou pela fresta entre duas das oito tábuas que formavam uma portinhola que jazia trancada por um enorme e enferrujado cadeado de aço. Viu uma garota, a mesma menina que ele vira na rua. Assustou-se.

...

A menina...

A garota estava com as unhas cheias de sangue, ela parecia estar tentando arrancar lascas das tábuas. Mas era inútil.

A menina estranhamente não o via, olhou pela fresta, estava a oitenta centímetros da portinhola, andou de um lado para outro e por fim achou uma lata velha de tintas. Arrastou-a pelo piso úmido do porão. Paulo ouviu o som arranhado da lata deslizando pelo piso grosseiro e áspero, feito apenas de concreto mal acabado.

Ela posicionou a lata e subiu sobre o objeto. Ficou mais próxima da portinhola e com suas mãos socou o material, enquanto gritava por socorro. Socou até que seus dedos se quebraram.

- Não faça isso! Acalme-se! – Pedia o garoto, aturdido e sem nenhuma reação, ele curtia uma viagem ao passado daquele lugar.

Por fim a garota olhou para cima, fixou o olhar em Paulo, ou no vazio talvez, e ficou estagnada assim por alguns segundos. Até que num momento súbito foi tomada por enorme loucura, e começou a bater com a cabeça, desesperadamente contra a madeira, enfim desmaiou.

...

- Nãooooooo!!! – o garoto abaixou a cabeça, seus olhos miravam no asfalto negro, mas ele viu o corpo da menina, além de uma fresta. Olhou-a caída no chão, em convulsão, babando e tremendo. O sangue jorrando da boca enquanto a língua dançava em meio ao mar mórbido que vomitava.

Desesperado começou a socar o chão, socou repetidas vezes até que os dedos das mãos se quebraram, a dor enclausurou seus braços e punhos, inabilitou-o, mas ele precisava quebrar aquela tábua.

Olhou enlouquecido para a menina e decidido ergueu a cabeça, apoiou os punhos quebrados no chão, as mãos cerradas forçosamente, os dedos latejando em dor. Os nervos a flor da pele. Olhou para ela uma ultima vez, certo de que faria tudo para salvá-la. Imprimiu toda força que podia, e bateu com a cabeça uma vez por sobre o asfalto.

Os olhos se fecharam simultaneamente à pancada, ele titubeou, sentiu-se tonto, o liquido brotou da testa, quente e doce, escorreu quase molhando seus olhos. Ergueu-se apoiado nos próprios braços, como um soldado fazendo uma ultima flexão, pesarosa e heróica. E ao chegar ao topo desceu com intensidade. O choque foi fatal, o crânio trincou-se e o sangue jorrou, impreciso e mortal.

...

O desfecho...

Vera estava lá, onde tudo começou. Olhou para o garoto na rua, um jovem alto, tinha cerca de um metro e setenta e três. Entretanto era apenas um garoto de quatorze anos, ainda estava de pijamas, e olhava para aquela menina que surgira a sua frente, até que algo pareceu se apossar dela, e a face da garota se converteu em algo de total terror.

O garoto se assustou,entretanto algo o prendia ali, ele queria vencer aquele medo.

A menina queria poder falar para ele a verdade, salvá-lo, mas sempre que queria mandar suas vitimas fugirem, a face demoníaca era libertada, pregando o medo, como uma maldita maldição.

Vera chorou, lágrimas de sangue, ao lembrar o que o velho dono da casa fizera a ela. Ela ainda era jovem, ele a seduziu de maneira covarde. Todas as noites, ela enfrentava o medo que tinha do escuro, atravessava a rua e seguia até aquela casa, na esquina, porém certo dia ele não deixou que ela saísse, queria que ela ficasse para sempre ali.

Ela queria correr, queria fugir, mas ele a trancou no porão. Trancou-a ali por noites, todos a procuraram, inclusive o velho, ele ajudava sarcasticamente os pais dela na busca.

O delegado da cidade parecia insistir com todas suas forças na procura da garota, procurou em todos os cantos da cidade. Todos viam como aquele homem dedicado colocara todas suas energias para salvar sua sobrinha, a filha de sua irmã Doralice.

Foram duas semanas de busca até que em uma tarde o velho Delegado morreu, enquanto ia para o trabalho e carregava a estrela no peito. Sentiu uma enorme dor o tocar, como se fosse golpeado no coração por milhares de agulhar pareciam perfura-lo.

Lembrou-se do que sua irmã o falara certa vez, insatisfeita pela escolha dele em viver só.

“O coração é o baú de sua essência querido, mantenha-o fechado e não conhecerá o amor, abra-o e esteja sempre preparado para sensações inesperadas, e quem sabe grandes aventuras”

Ele caiu morto, foi enterrado em um caixão caro, ao lado de seus parentes e amigos. Enterrado onde sua irmã outrora também seria, onde já a sobrinha, nunca passaria perto.

Doralice não suportou perder a filha e o irmão. Mandou destruírem a casa dele, nem ao menos deixou ninguém entrar lá. Ela havia ficado louca.

A máquina jogou tudo no chão e depois de um tempo uma estrada foi colocada ali. Ninguém mais saberia daquele porão, não depois do aterro para nivelamento das ruas, não depois do asfalto, não, não saberiam nunca.

Vera olhou para o garoto agachado no chão a seu lado, olhou para casa reformada que um dia havia sido sua, pensou em como aquela rua havia mudado tanto, em como ela não mudava nada. Pensou em como tudo de repente parecia ser tão real, em como em certos momentos parecia estar viva. lembrou-se das palavras de seu pai.

Sentiu as mãos se desvencilharem das do garoto, e viu-se cair dentro daquele buraco em que o esqueleto de seu corpo se encontrava há meio século. Estava presa lá, e a sensação de medo a tomou por completo.

Lembranças chegaram vivas...

Já havia um mês que estava ali e seu tio não havia voltado. Estava se alimentando de arroz cru, macarrão, feijão, somente dos alimentos que ali se encontravam armazenados, e por mais que gritasse ninguém parecia ouvi-la.

Ela decidiu tentar fugir quando ouviu o barulho de uma máquina, que parecia estar destruindo tudo lá em cima.

Começou a gritar desesperada, andou em círculos, até achar uma lata velha de tinta, que ficava naquele, que antes era apenas um porão velho para armazenagem de suprimentos.

Vera subiu na lata e enfiou as unhas, cravando-as na superficie acima de seus olhos, cavando como podia. Cutucava a superficie sólida tentando tirar lascas da madeira... ela nunca sairia dali. Ao menos não sairia viva.


Fim.

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