A gente saboreava o silêncio através do medo na hora do jantar. Mamãe estava usando um óculos escuros emprestado pela vizinha. Ouvia-se só os sons dos talheres emitidos em contato com o prato. Otávio olhava para mim e para Joana com um semblante repleto de ódio. Eu e Joana não entendíamos ainda o porquê daquela raiva toda, aquele ressentimento. Logo ele, que sempre fora simpático, alegre e divertido. Agora parecia outro, parecíamos seus inimigos.

Mamãe se retirou, pedindo que a gente deixasse os pratos sujos em cima da mesa para ela lavar depois. Silêncio. Medo. Só consegui ouvir o som do copo de suco de Otávio tocando a mesa, molhando a toalha que mamãe mais gostava. Eu e Joana pedimos licença à ele, chamando-o de “pai” porque agora era essa a sua exigência.

Mamãe voltou para lavar os pratos. Otávio foi para o banheiro escovar os dentes. Mamãe estava em frente a pia. Eu e Joana a abraçamos desesperadamente, como quem quisesse tirá-la daquele lugar, salvando-a daquele monstro.

Lembro-me de mamãe conversando alegremente com o motorista dentro da caminhonete. Estava feliz. Iríamos começar uma nova vida em Vitória. Vovó faleceu e nós não tínhamos com quem ficar lá em Linhares depois que a gente saía da escola enquanto mamãe trabalhava na fazenda de Seu Miguel. Eu tinha uns 8 anos e Joana, 7. Após vender a nossa casa e a casa da vovó, mamãe conseguiu comprar uma casinha meio velha no bairro São Pedro 3, em Vitória. Era bem apertadinha, mas dava para comer e dormir.

Vovó cuidava da gente desde que o nosso pai nos deixou quando eu e Joana éramos recém-nascidos. Mamãe então, após o seu resguardo teve que trabalhar mais de 10 horas na fazenda de Seu Miguel para poder sustentar eu, Joana e ajudar a vovó também, que já não podia trabalhar pois tinha problema na coluna. Nunca tivemos notícias de papai. Mamãe soube certa vez, que ele saiu do Espírito Santo junto com uma filha de um fazendeiro aqui de Linhares, para viver sua vida de homem moderno no Rio de Janeiro. Só. Nunca soubemos de mais nada. Mamãe também não quis saber de mais nada, afinal, de nada adiantaria saber mais, pois a realidade a forçava a ser forte, corajosa e batalhadora. E assim foi.

Mamãe fazia planos e mais planos para quando chegasse em Vitória. Queria estudar, pois nunca pode estudar em Linhares, devido a obrigação de trabalhar desde criança com vovó nas terras dos fazendeiros. Poderia dar faxinas, lavar roupas para as pessoas da cidade, pois fazia isso muito bem. Estava esperançosa. Foi a primeira vez que eu e Joana sentimos esperança. Estávamos todos alegres.

Nos mudamos então, prum bairro periférico em Vitória. Eu e Joana não fizemos amigos logo no começo, pois estávamos acostumados com as pessoas do interior, que em vez de só te olhar, chegavam até você para conversar se você fosse novo no bairro.
Mamãe estava aflita. Já havia se passado 3 semanas e ela não havia conseguido nenhuma faxina. A gente começou a reduzir as refeições em casa. Notava-se nitidamente a sua tristeza logo no café da manhã.

Certo dia, foi procurar emprego em lojas do Centro e para o seu desespero, não conseguiu. Exigia-se no mínimo o Ensino Médio completo e alguma experiência em comércio também. Lembro de mamãe entrar em casa chorando, dizendo que havia fracassado. Eu e Joana abraçamos ela e choramos juntos. “Vai dar tudo certo meus filhos, vai dar tudo certo tá?” “Mamãe vai resolver isso logo, logo. Não se preocupem...” dizia para nós e para si mesma.

Foi quando numa dessas tentativas de se empregabilizar que viu pessoas vendendo balas, chicletes e outros doces dentro do ônibus, também em pontos de ônibus que aglomeravam muita gente e viu então a salvação para aquela situação.

Foi nos Atacados Varejistas da cidade e comprou várias caixas de balas, chicletes, paçocas e mariolas. Estava radiante e alegre novamente. Eu e Joana tomamos café com leite e pão de sal com mortadela neste dia. Mamãe estava muito animada. E no mesmo dia, se matriculou na Escola Estadual Elza Lemos Andreatta que fica na Ilha das Caieiras pelo módulo EJA (Educação para Jovens e Adultos) para recuperar o “tempo perdido” e assim, conseguir algum emprego em lojas ou supermercado.

Mamãe acordava cedo, fazia o nosso café, comprava pães e ia para os ônibus vender suas guloseimas. Eu e Joana íamos para a escola e como já estávamos crescidinhos, eu com 13 anos e Joana com 12, a gente ficava em casa sozinhos depois das aulas se cuidando mutuamente. Mamãe chegava em casa a tempo de fazer a janta e ir para escola também e quando chegava da escola, eu e Joana já estávamos dormindo para acordarmos cedo para estudar no dia seguinte.

Aos domingos íamos nós três para a Igreja Católica de São Pedro. Mamãe sempre foi religiosa, dizia que para viver o homem precisa de fé e que sem fé ele não suportaria a vida. Quando ficava muito angustiada, rezava o dia inteiro. Ficava com pena dela. E nessas horas eu me perguntava, cadê meu pai?

Passado-se um ano morando em São Pedro, mamãe já conhecia a vizinhança. Eu e Joana já tínhamos amigos na escola e fora dela. Mamãe era respeitada pelos vizinhos, que a chamava de “guerreira”. Mamãe ficava “vermelhinha” nessas horas e apenas sorria, como sempre, demonstrando sua timidez crônica.

E nas missas de domingo em que íamos sempre nós conhecemos Otávio, um sujeito simpático, alegre e extrovertido. Sempre arrancava gargalhadas de todos após a missa quando nos reuníamos para conversar no jardim da igreja. Eu e Joana sentíamos que ele poderia ser o nosso “novo pai”, e enfim, teríamos quem abraçar no Dia dos Pais e almoçar juntos num dia de domingo em família.

Os dias foram passando e Otávio ficava cada vez mais próximo de nós e da minha mãe. Ele trazia filmes para a gente assistir no sábado a noite sempre acompanhado de pipoca e refrigerante. Mamãe adorava, dava para perceber no brilho dos olhos dela. O sorriso dela era de esperança novamente. Quem sabe poderia amar de novo?

E Otávio passou a freqüentar também os domingos aqui em casa depois da missa para almoçarmos juntos. Joana já estava apegada ao “novo pai” dela. Eu gostava dele. E mamãe gostava de ver a gente feliz, sendo amados por mais alguém, além dela. E não demorou mais 3 meses para que mamãe assumisse o seu namoro com ele, o que eu e Joana já esperávamos desde o início da empatia deles e da nossa.

Sabíamos pouco sobre Otávio. Ele nunca tocava em assunto algum que envolvia a família dele. E nós não insistíamos porque não queríamos ser indelicados ou impertinentes. Mamãe se intrigava, podia-se perceber isso nitidamente em seus olhos e dedos entrelaçados. Percebia um certo receio da parte dela. Mas estávamos contentes e isso importava, só.

Padre Cícero logo ficou sabendo da união dos dois e veio aqui em casa conversar com ela. Pedia que ela fosse compreensiva com Otávio, pois ele estava tentando reestruturar sua vida e precisaria de muita compreensão e compaixão por parte dela. Ela quis saber o que era, mas o padre não podia dizer pois era segredo de confissão e que na hora certa o próprio Otávio, já seguro, iria dizer à ela.

Passaram-se 6 meses nesse silêncio que a perturbava constantemente então mamãe já estava obsessiva com a idéia de não conhecer o homem com que ela dividia a cama, a sua vida e a vida de seus filhos. Otávio morava só em sua casa e não tinha pretensão de se casar ou constituir uma família, o mesmo dizia. Mamãe fingia não se importar e concordava com ele, dizendo que quando ele se sentisse à vontade, poderia rever esta decisão. Ele então era possuído por um semblante irreconhecível nessas horas.

Certa noite mamãe acordou gritando. Eu e Joana acordamos na hora e fomos até o quarto dela para ver o que tinha acontecido. Ela disse que havia tido um pesadelo em que ela era separada de nós e que nunca mais poderia nos ver. Nos abraçou chorando e ao mesmo tempo, sentiu que algum mal iminente estava por vir. Nessa noite ela pediu que nós dormíssemos abraçados com ela e assim fizemos. Ficamos com medo.

No outro dia, pela manhã enquanto tomávamos café juntos ela disse que iria resolver algo antes de ir trabalhar e que isso poderia resultar num possível afastamento de Otávio da gente e da nossa casa. Não entendemos muito mas procuramos respeitá-la. Mamãe era assim quando colocava algo na cabeça, ia até o fim. E ela disse que naquela manhã iria saber quem era o homem por detrás do segredo tão obscuro aparentemente.

Foi até a igreja conversar com o Padre Cícero, estava determinada. Contou ao padre que tivera um sonho em que nós éramos tirados dela e que ela sentiu uma dor e uma angústia tão profunda que parecia-lhe a morte. “Não era um aviso de Deus este sonho?” Perguntou ao padre, que ficou desconcertado e incomodado. “O senhor mesmo disse que Deus conversa conosco através dos sonhos, padre. Então me ajude!”
Padre Cícero parecia se contorcer por dentro, como quem quisesse libertar algo, um segredo mas não podia. Mamãe insistiu, implorando para que ele a ajudasse a evitar uma possível tragédia pois não podia nos perder, pois eu e Joana éramos a razão da vida dela.

Padre Cícero começava a ficar sensibilizado com aquele apelo. E segurando as mãos de mamãe com um terço da Virgem Maria pediu que por Deus ela tinha que prometer que não iria contar nada para ninguém do que ele iria revelar para ela naquele momento. Mamãe prometeu, com uma lágrima nos olhos segurando o terço junto das mãos do Padre.

“O Otávio me procurou desesperado minha filha. Matou a esposa em frente da filha quando morava em Mato Grosso do Sul quando a mesma só tinha 4 anos de idade. Segundo ele, a esposa havia o traído com o melhor amigo dele, mas que ele mesmo não tinha certeza e que se arrepende fortemente disso. E ele então ameaçou matar a filha caso ela “abrisse o bico” para os vizinhos ou outras pessoas que viessem a perguntar pela mãe dela.
Ele pedia que ela contasse que a mãe tinha viajado para outro país, para tentar a vida por lá e que iria voltar logo, logo assim que ganhasse um bom dinheiro.
A menina cresceu com este segredo mortal e quando adolescente, se tornou uma garota sombria. Chegava de madrugada sempre bêbada e drogada em casa das festas de rock que frequentava com a turma dela.
Jéssica então com 17 anos, começou a namorar Jean, um colega de classe e com quem ela também saia nos finais de semana com a turma. O pai chamava o rapaz de “crioulo” e dizia que se ela aparecesse com ele em casa, iria matá-lo na hora com um tiro de escopeta assim que o “nego filho da puta” pisasse o pé na varanda da casa dele.
Não demorou 8 meses e Jéssica havia descoberto que estava grávida de Jean há dois e decidiu sair de casa. Otávio perdeu a cabeça e bateu na filha até ela sangrar toda pelo rosto. Os vizinhos ouvindo a gritaria e barulho apareceram para segurar ele e levá-la para um hospital. Lá mesmo Jéssica soube que perdera o bebê. Jean a abraçou e os dois choraram juntos.

A filha ameaçou colocar o pai na cadeia revelando o segredo dele à polícia e que ele pagaria tudo que havia lhe feito. Desde então Otávio veio para cá para tentar se reerguer e ter uma vida nova em Cristo, compreende minha filha?” Revelou Padre Cícero à mamãe.

“E então ele conheceu você, Lúcia, que é uma mulher batalhadora e honesta e eu vi que isso era uma chance para uma nova vida à ele e à você também. Duas pessoas unidas através da dor tentando se curar juntos, não é uma boa idéia?” Mamãe olhou perplexa, não entendendo nada naquele romantismo do padre. Agora entendia o porquê daquele sonho terrível, o porquê daquela sensação de morte vinda do pesadelo. Os seus filhos estavam correndo perigo e ela também. E a morte podia separá-los dela. Agradeceu de joelhos ao padre e beijando suas mãos disse que teria que ir para casa correndo para fazer a janta dos meninos.

Pura mentira, mamãe foi até a casa de Otávio para conversar com ele. Ingenuidade dela? Talvez, mas foi. Subiu os degraus da escada que dava para o terceiro andar, onde ele morava de aluguel. Bateu na porta duas vezes. Otávio abriu a porta. Ela desejou-lhe bom dia e ele pediu que ela entrasse. Ele pediu que ela se sentasse, pois ele estava assistindo tv. Ela sentou-se no sofá velho com várias remendas de tecidos velhos.
Eu vim para dizer que não vai dar para continuarmos mais juntos, disse ela. Mas por que? Indagou ele. Você precisa resolver algumas coisas pendentes em sua vida Otávio, eu sei. Então quero que você cuide disso primeiro. Não posso continuar com você tendo em vista o seu passado. Me desculpe, mas não posso continuar, não posso mesmo.

Otávio parecia extremamente calmo, o que deixou-a surpresa. Eu entendo perfeitamente Lúcia, mas preciso dizer algo às crianças antes de dar-me por ausente. Posso ir até sua casa à noite explicar algo para que eles não se chateiem comigo? Sim, pode sim, respondeu ela sentindo a iminência do medo. Então vou-me, preciso trabalhar e preparar o almoço das crianças, se não se importa. Me leva até a porta? Perguntou ela. Sim, claro, ele respondeu.

19:21

Mamãe termina o jantar e arruma a mesa com os pratos, copos, talheres e um pano de mesa que ela comprou há uns dois dias. A mesa estava bonita. Ela ainda precisa ir para a escola. Alguém bate na porta. Deve ser Otávio, pensou ela. E era. Ele desejou-lhe boa noite e ela convidou-o para a janta, dizendo que logo iria estudar e que era para ele aproveitar. Otávio tirou de seu bolso um revólver calibre 38 pedindo bem baixinho para todos ficarem calados. Lembro-me de ver os olhos de Joana carregados de lágrimas que fazia o seu globo ocular tremer. Otávio pediu que nós continuássemos a jantar, pois o homem da casa havia chegado e eles tinham que obedecê-lo.

Apontou a arma para a cabeça de mamãe e pediu que ela fosse para o quarto, pois ele queria conversar com ela. Se vocês abrirem a boca para gritar uma palavra, eu atiro na cabeça dela entenderam? Eu e Joana acenamos com a cabeça que sim, que ficaríamos quietos. E apertando a arma para a cabeça de mamãe levou-a até o quarto dela.
Ouvimos alguns barulhos como tapas, socos, chutes e choro, muito choro. Era mamãe apanhando daquele canalha. De lá do quarto ela saiu com a arma apontada em sua cabeça e sentou-se na cadeira da mesa do jantar. Mamãe sangrava pelo nariz, o seu rosto estava vermelho e ela chorava bem baixinho, como um resmungo enquanto eu e Joana nada podíamos fazer.

A partir de hoje eu serei o pai de vocês entenderam? Tudo que vocês forem fazer precisará da minha permissão. Eu serei o homem desta casa e vocês serão os meus filhos obedientes e bonzinhos, certo? Otávio parecia outro. Tinha nos olhos um espírito obsessivo e louco, não era o mesmo. Eu abaixei a cabeça e chorei baixinho cabisbaixo.

Ninguém queria comer. Mas Otávio nos obrigou e nós obedecemos. Ele guardou a arma na cintura e pediu que mamãe lavasse os pratos e tudo que estava sujo e que eu e Joana fossemos dormir. Nunca rezei tanto aquela noite, nunca. Eu e Joana que dividíamos o mesmo quarto nos abraçamos e choramos juntos, nos ajoelhando e pedindo a Deus que não deixasse mamãe morrer.
Não vimos mais nada, apenas deitamos nas nossas camas amedrontados e traumatizados com aquilo tudo. Logo mamãe, que estava tão feliz por conseguir um lugar para morar e que estava estudando, logo mamãe...

No outro dia, acordamos e mamãe já estava acordada. Tinha feito o café, os pães estavam sobre a mesa e Otávio lendo o jornal. Bom dia minhas crianças, disse ele num tom sarcástico e irônico. Eu e Joana sentamos cheios de medo. Entre a margarina e os pães estava a arma. Ele pediu que nós não demorássemos pois não queria ver os filhos deles faltando à escola.

Terminamos o café e fomos nos arrumar. Do banheiro eu ouvi ele dizer à mamãe que ela não iria sair para trabalhar, que teria de ficar o dia inteiro à disposição dele. Eu tenho que fazer alguma coisa, pensei.
Passaram-se 40 minutos e eu e Joana já estávamos prontos para irmos para a escola. Eu olhei para Joana e a gente se entendia: estávamos com medo de irmos e de Otávio matar mamãe. Eu tive uma idéia e sorri no canto da boca e apertei a mão de Joana. Fomos para a escola. Nenhuma palavra sequer na rua ouviram meus garotinhos? Senão aperto o gatilho na cabeça da mãe de vocês ta? Disse ele num tom cheio de ódio.

E a idéia que tive era de ir até a Igreja falar com o Padre Cícero. Não fomos para escola nada. Padre Cícero, já estava lá por benção de Deus. Padre Cícero, padre Cícero! Por favor nos ajude! Gritamos desesperados e choramos ao abraçá-lo. Eu e Joana não conseguíamos dizer nada, só conseguíamos chorar e chorar. Ele foi buscar um copo de água pra gente. Então sentamos no banco de madeira da Igreja esperando ele.

Contamos tudo e ele disse que iria nos ajudar, que fossemos para a escola enquanto ele se dirigia a polícia tomando as medidas cabíveis nas leis dos homens e nas leis de Deus. A gente se recusou. A sensação era que mamãe iria morrer a qualquer hora se a gente não a libertasse daquele monstro. Padre Cícero entendeu e nós três fomos até a polícia dar queixa.

Estava tudo certo. Padre Cícero sendo uma pessoa muito respeitada no bairro, iria fingir uma visita à nossa casa para que os policiais pudessem ver Otávio e pudesse cercá-lo sem precisar atirar, sem nenhum conflito.

Ficamos o resto da manhã na casa do Padre Cícero, rezando de joelhos em frente à imagem da Virgem Maria. Almoçamos e quando vimos, já tinha dado a hora de voltar para casa, como se tivéssemos ido a escola.

Chegamos em casa. Era 12:45. Mamãe nos viu e nos abraçou chorando. Ela tinha apanhado mais uma vez. Estava com os olhos roxos, a testa inchada pelos socos que levou. Nos abraçou e chorou, chorou e chorou. Logo procurei ver se a arma estava em cima da mesa. Perguntei sobre Otávio à mamãe. Ele estava na sala assistindo tv. Pedimos a uma vizinha um óculos escuros para mamãe usar até o final de semana que depois devolveríamos para ela.

Era uma tarde esperançosa. Deus iria nos ajudar.

19:01


A gente saboreava o silêncio através do medo na hora do jantar. Mamãe estava usando um óculos escuros emprestado pela vizinha. Ouvia-se só os sons dos talheres emitidos em contato com o prato. Otávio olhava para mim e para Joana com um semblante repleto de ódio. Eu e Joana não entendíamos ainda o porquê daquela raiva toda, aquele ressentimento. Logo ele, que sempre fora simpático, alegre e divertido. Agora parecia outro, parecíamos seus inimigos.

Mamãe se retirou, pedindo que a gente deixasse os pratos sujos em cima da mesa para ela lavar depois. Silêncio. Medo. Só consegui ouvir o som do copo de suco de Otávio tocando a mesa, molhando a toalha que mamãe mais gostava. Eu e Joana pedimos licença a ele, chamando-o de “pai” porque agora era essa a sua exigência.

Mamãe voltou para lavar os pratos. Otávio foi para o banheiro escovar os dentes. Mamãe estava em frente a pia. Eu e Joana a abraçamos desesperadamente, como quem quisesse tirá-la daquele lugar, salvando-a daquele monstro.

Alguém bate na porta. “Padre Cícero!” Pensei alegremente. E era, da mesa dava para ouvir sua bondosa voz. Ele deu um passo até a cozinha e baixinho pediu que nós não fizéssemos nenhum barulho. Os policiais já haviam cercado a casa. Eu, Joana e mamãe entramos na viatura com o Padre Cícero e um dos policiais nos levou para a Igreja, pois segundo o padre, Otávio precisava de oração pois estava preso à sua escuridão. E nós concordamos.

Otávio saiu do banheiro e percebeu um silêncio. Estranho, foi ver. Ninguém na cozinha. Abriu as portas do quartos e nada. Aonde aqueles desgraçados foram? Disse.
Enfureceu-se e logo foi até a porta da sala e abrindo-a se deparou com as três viaturas e os policiais em posição de tiro. “Otávio! Se renda e venha para a viatura! Não queremos que ninguém saia ferido!” Disse um dos policiais. As sobrancelhas de Otávio, seus olhos e sua boca tomou-se de uma raiva, um ódio que dava medo só de ver. Ele voltou para dentro da casa. “Otávio! Venha para fora e se renda! Você não tem saída!” Gritou o policial novamente.
Otávio apareceu e descarregou 4 tiros em direção às viaturas. Um dos policiais foi atingido no abdômen. E outros 4 policiais atiraram contra Otávio. No caminho para a casa do padre deu para ouvir os disparos. Otávio foi atingido com 2 tiros no peito e caiu de cabeça, sangrando em frente da porta da nossa casa. Uma criança que passava inocentemente de bicicleta pela rua foi atingida na cabeça, caindo e morrendo na hora. Os outros policiais acionaram as ambulâncias do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de urgência) para socorrerem as vítimas.

Acabava ali, entre outras milhares de tragédias que acontecem diariamente nas periferias, a nossa.


11 de Dezembro de 2011 às 11:30 Almoço

Hoje é domingo. Após a missa da Igreja Católica de São Pedro, eu, Joana, mamãe e o Padre Cícero estamos saboreando a alegria e a paz com um bom vinho que o padre trouxe para mamãe. Freqüentemente vamos até a casa dos pais da menina que morreu por bala perdida. Tentamos levar alguma luz, algum reconforto na alma daqueles pais que nada tinham a ver com a nossa história. Mamãe terminou o Ensino Fundamental na modalidade EJA e trabalha como zeladora de um prédio e daqui um ano e meio termina o Ensino Médio também se Deus quiser. Eu e Joana passamos de ano com ótimas notas.

Já sei até o que quero ser profissionalmente: advogado. Quero defender os direitos das mulheres que são vítimas de qualquer tipo de violência e também quero combater o tráfico de mulheres que tanto acontece em nosso país, que por maioria dos políticos ainda é muito ignorada. Às vezes alguns acontecimentos muito fortes na nossa vida nos fortalecem ou nos destroem.

Com isto que nos aconteceu eu preferi fortalecer o meu ideal de sempre: justiça. O nosso Brasil ainda é muito miserável nesta questão. Então quero fazer da minha indagação e dor, uma força para mudar e quem sabe, talvez transformar alguma coisa.
Hoje eu estou feliz porque hoje eu não tenho mais medo. Acabamos de tirar uma foto do almoço. Um almoço, um novo ciclo, uma nova visão de vida, uma outra percepção do mundo e das coisas, outras perspectivas de tudo, até das duras pedras que possam vir a ferir os meus sonhos. Mas eu não desisto nunca pois dos meus sonhos eu nunca desisto.