Nada mais.

20 de Outubro de 2013 Claudia Albuquerque Contos 123

Perdi o foco. São quase duas da manhã e ainda não terminei o meu trabalho. Olho pela janela e vejo as folhas de outono caindo, bebo mais um gole de uísque;tento esquecer o aconteceu.

Desde aquele dia, nunca mais fui o mesmo. Todo dia acordo atrasado; não tomo mais o meu café da manhã farto e nem leio mais o noticiário como fazia antigamente. Apenas coloco a primeira roupa que vejo pela frente e vou para o escritório. Ou fico em casa mesmo tentando trabalhar. Sempre me distraio e nunca termino o trabalho.

Ainda não consegui digerir a notícia que li naquela manhã de inverno. Lembro-me como se fosse hoje. Levantei às seis da manhã, pedi que a empregada trouxesse os meus cereais, meu iogurte e o meu jornal. Logo na primeira página, eu vi a maldita notícia: Um acidente de carro,  tirou de mim o que eu tinha de mais valioso.

Como pude ter sido tão arrogante com uma pessoa tão doce por tanto tempo?

Não a tenho mais aqui comigo e nunca me perdoarei pelas vezes em que exigia e cobrava perfeição dela. De tanto reclamar em seu ouvido, nós brigamos feio e ela muito triste, partiu sem ao menos olhar em meus olhos, levando apenas a roupa do corpo e uma pequena bolsa, onde guardava os seus documentos, cartões e dinheiro e foi rumo à casa dos seus pais.

Não era nossa primeira briga, mas seria a última. Sempre que brigávamos,  e ela fazia a mesma coisa, mas depois, me ligava chorando e pedia para eu ir buscá-la, pois sem mim,não conseguiria viver. 

Deixei que partisse. Fui um covarde. Fui um tolo. Pensei que faria o de sempre. Pensei que estivesse por cima da carne moída. Mas no dia seguinte, ao abrir o jornal, li sobre a fatalidade. Os meus olhos encheram de água e, eu percebi o quanto eu a amava.

Nunca fui um homem romântico. Advogado renomado, não tinha tempo para viver um relacionamento a dois. Vivia em função do trabalho. Ela pedia atenção e carinho, eu depositava mais dinheiro em sua conta e a mandava passear no shopping. Ela fazia com carinho e devoção tudo o que eu pedia, mas eu apenas reclamava que estava mal feito.

Hoje, o perfeccionista anda com a camisa amassada, furada. Entro no meu imenso closet, e posso sentir o seu perfume. Tudo o que foi organizado por ela, permanece intacto. A empregada apenas limpa a sujeira, mas não mexe, não toca em nenhum objeto que era dela.

Eu passo boa parte do meu tempo na minha biblioteca, bebendo e recordando das viagens, que não fizemos, das poesias de amor nunca declamadas e de todo amor que eu nunca dei em 10 anos de casamento. 


Claudia Albuquerque Guilherme.

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